31/01/16

Você sabe o que cooptação? [1]

Mesmo que você nunca tenha ouvido esta palavra, certamente você sabe o que ela significa. Aliás, todos nós sabemos. E como sabemos!
Simplesmente porque, considerando os valores que, de modo consciente ou não, há tempos cultivamos e mantemos na sociedade atual, é impossível não saber o que ela quer dizer. Ou seja, se o termo não é claro como conceito, é claríssimo como prática.
Observe!
O termo cooptação dá nome a um conjunto de situações nas quais frequentemente nos envolvemos no decorrer da vida. Mesmo sem perceber, somos ou sujeitos ou objetos dela, a cooptação. E quase sempre nem nos damos conta...
Há vezes, contudo – muitas vezes, aliás! –, em que ela é intencional e consciente: é quando sabemos exatamente o que estamos querendo e fazendo; é quando assumimos o papel principal de sujeito ou de objeto nas relações, bem de acordo com os nossos interesses, vontades e objetivos.
E assim, quanto mais vezes repetimos o feito, mais nos aperfeiçoamos, a ponto de muitos entre nós serem verdadeiramente especialistas na ação de cooptar.
A origem da palavra cooptação – de acordo com os dicionários – é bastante esclarecedora: co [junto, com, ao lado, próximo] e optação [fazer com que alguém se junte a você a fim de algo... tem a ver com aliciar ou atrair ou escolher mutuamente...]. Talvez o verbo que melhor expressa a ação de cooptar seja aliciar, que significa 'trazer alguém para o seu lado'.
A cooptação é um fenômeno social, isto é, algo que emerge ou expressa ou resulta das múltiplas relações sociais que estabelecemos cotidianamente. Tem a ver com convivência social ou, mais exatamente, com os modos como, cientes ou não, definimos e determinamos as relações que estabelecemos na vida social.
 
Um exemplo
 
Imagina uma sala de aula repleta de alunos diante de um professor que, ao menos teoricamente, é bem aceito pela turma. Há um bom relacionamento entre eles.
O professor é competente, prepara suas aulas, procura ser simpático sem deixar de ser exigente. Os alunos, em geral, são bastante receptivos, atentos, participam das aulas, tentam preparar os trabalhos e apresentá-los da melhor forma possível.
Apesar das limitações de tempo, das carências de conhecimentos anteriores e das dificuldades de toda ordem, professor e alunos conseguem desenvolver um trabalho que, se não atende a todas as expectativas de um e/ou de outros, a constatação, em geral, é a de que não há perda de tempo ou coisa parecida.
Ocorre que nesta mesma sala, um ou dois ou três alunos, por alguma razão, alimentam algum incômodo em relação ao professor. Talvez uma fala enviesada, uma palavra mal dirigida ou mal interpretada, uma ideia não aceita, uma provocação, o modo de se portar e se dirigir aos colegas, enfim, algo ou uma série de atos do professor definitivamente desagrada esse e/ou aquele aluno. Nem pode ser diferente, afinal cada um de nós, do lugar que ocupa, vê o mundo e as pessoas à sua maneira e, mais que isso, avalia e julga o tempo todo. Acrescente-se a isto o fato de que uma certa situação, um momento específico, a imagem, o jeito, a voz de alguém etc. são elementos desencadeadores de lembranças de outros momentos, outras situações e outras pessoas que, por sua vez, atualizam em nós sentimentos bons, agradáveis, tristes, esperançosos, perturbadores...
Como é de se esperar, então, em algum momento o desconforto aparece. De alguma maneira, ele se manifesta, fica visível e, inevitavelmente, se torna perceptível para boa parte da turma. Principalmente para o professor que, de modo justo ou injusto, é o alvo fácil tanto dos atuais como de possíveis outros alunos que possam se juntar àqueles.
É claro que essa situação pode se repetir também com qualquer outra pessoa, mas ela fica ainda mais evidente quando é o professor, sem dúvida o maior responsável pelo andamento dos acontecimentos no espaço da sala de aula.
Pois bem. Diante de uma situação igual ou parecida com essa, restam, ao que parece, quatro atitudes possíveis a serem tomadas pelo professor:

1] fingir que nada está acontecendo, que é assim mesmo e que, a qualquer momento, o desconforto desaparece e tudo fica como sempre. As aulas continuam como sempre foram, assim como as atividades. Graças ao poder do professor, entre outros o de aprovar ou reter, os alunos acabam por fazer o que lhes cabe. O professor, por sua vez, não vê a hora da aula, da semana, do mês, do semestre, do ano letivo acabar. Se, eventualmente, alguma reação se fizer mais forte, além da possibilidade dele falar mais alto, a escola tem recursos legais a seu favor, como o registro oficial que desabona a atitude do aluno, além das reincidências, das suspensões, da expulsão;

2] enfrentar: O professor diz com toda objetividade – como se ninguém soubesse! – qual é o lugar do aluno e qual é o seu próprio lugar na sala de aula. Convoca um ou outro para que se explique, justifique e altere seu ponto de vista diante de todos, deixando claras as possíveis consequências dos seus atos. Numa palavra: expõe e ameaça quem se lhe opõe. Geralmente, atitudes como essa terminam por tornar o ambiente totalmente insuportável, já que, por companheirismo, a tendência é que todos os alunos apoiem os colegas e se voltem contra o professor, gerando um desgaste para o profissional dificilmente recuperável quer diante dos alunos, quer diante da instituição.
Essas duas atitudes, ao que parece, são as mais comuns. Aparentemente fáceis e rápidas, refletem, sobretudo, uma concepção de escola e de educação cujos desdobramentos estão à vista de todos, bastando, para tanto, conversar com qualquer aluno, em especial da educação básica, para saber o que ele pensa sobre a escola, os professores, a direção, enfim, do ambiente escolar que ele é obrigado a frequentar.

3] embora rara ou raríssima, pode ser adotada por um raro ou raríssimo tipo de professor que tem a coragem de colocar para o debate, no centro da sala, as questões ligadas às relações humanas, em especial a situação em que eles estão envolvidos. Assim, diante da recorrência das manifestações de descontentamento e do visível mal estar causado na sala, o professor decide tornar conhecido também o seu descontentamento, e o expressa também com a maior objetividade possível. Diz o quanto o incomoda a atitude desse ou daquele aluno, deixa claro que ele também fica desconfortável quando percebe comentários nada agradáveis quanto à sua postura ou quando defende essa ou aquela ideia. Quando isto acontece, a convivência naquele espaço tende a ser não somente mais agradável, mas converte-se em aprendizado tanto para o professor quanto para os alunos.

4] também muito comum, mas sem nenhuma objetividade e pautada em valores distantes do respeito humano, resta uma quarta. Ao invés de enfrentar os oponentes e desgastar-se diante da sala e da instituição, ou de fingir que nada está acontecendo, o professor busca estratégias que promovem não o distanciamento, mas a aproximação de quem quer que possa eventualmente atrapalhar o seu trabalho e, principalmente, ameaçar o lugar que ele ocupa na sala de aula. A principal delas consiste em definitivamente trazer para o seu lado, obviamente oferecendo algum benefício, os que o contrapõem, a fim de que ao menos deixem de manifestar seus incômodos e/ou críticas. Ao invés de expor ou se impor a quem se lhe opõe, busca trazê-lo para o seu lado. Caso tenha sucesso na empreitada, grande parte das dificuldades tende a desaparecer.
Assim, tudo continua como sempre deveria ter sido, afinal a estrutura que mantem a ordem na sala de aula e na instituição deixa de ser alterada. O que poderia desencadear uma série de alterações nos procedimentos, nos sentimentos e nos pensamentos das pessoas fica adiado, por conta da habilidade do professor em lidar com situações adversas...

É possível que outras atitudes possam e sejam tomadas. Nenhuma, contudo, tem a força e a importância que a última apresentada. Nenhuma consegue produzir mais efeitos realmente dilapidadores da constituição e construção dos sujeitos na história. Nenhuma tem a capacidade de devastar e quase eliminar a possibilidade do homem de se fazer do modo como ele quer, pode e consegue se fazer. Nenhuma destrói tanto a coexistência social, corrompendo as relações, e despedaça mais a subjetividade, separando e distanciando o homem de si mesmo. Nenhuma ameaça tanto e coloca em risco a dignidade do homem.

Entende o que é cooptação?

13/01/16

Admirável matador

Enorme, assustador,aterrorizante – mas também muito bonito, admirável, formoso e...solitário! Cheio de si, sabedor de sua força e de seu poder, vivia no alto do morro e dele somente descia pra gerar insegurança, mal estar, desespero e morte.

De tanto medo, as pessoas não saiam de casa, não cultivavam a terra, não se encontravam. Por necessidade e desespero, os mais fortes até que tentavam desafiar o animal, mas seus esforços resultavam inúteis. Os mais fracos – sobretudo crianças, velhos e doentes – sequer tinham condições físicas para qualquer ação. Sem forças pra lutar e sem ter a quem reclamar, já que quem deveria ouví-los também não sabia o que fazer frente às cada vez mais insistentes investidas do terrível leão, a população de Neméia não tinha mais esperança de continuar existindo.

Foi quando, a mando do rei, Héracles ouviu que deveria se dirigir praquele lugar e enfrentar a fera. Ciente do perigo, da força e do poder do leão, e sabendo que a luta seria tensa e intensa, armou-se tanto quanto possível e seguiu seu caminho.

Andou e pensou muito em como encarar e lidar com aquela situação que, tudo indicava, não seria nada fácil. Confiante, corajoso e certo do que devia fazer, chegou ao pé do morro e, ao iniciar a subida, percebeu que seu corpo estava muito pesado, que aquela armadura, ao contrário do que tinha pensado, tornava ainda mais difícil a caminhada. Decidiu, então, se desvencilhar da armadura e contar somente com sua própria força e sua capacidade racional. Assim que alcançou o topo do morro, avistou o leão, que também notou sua presença e, de imediato, rugiu ameaçadoramente, mas foi surpreendido pelo incomum grito forte, alto e destemido da inesperada visita.

Assustado, o leão afastou-se e correu pra sua toca. Depois de muito procurar, e próximo de encontrá-lo, Héracles viu que ele saiu do esconderijo e entrou numa caverna. Héracles o seguiu e fez o mesmo. Para não ser capturado, saiu pela outra entrada e repetiu algumas vezes a mesma estratégia. Héracles, então, fechou com pedras a primeira e, em seguida, dentro da caverna, fechou a segunda, ficando somente ele e a fera no interior do lugar totalmente escuro.

Quanto tempo durou a luta, ninguém sabe. O que se sabe é que Héracles agarrou o leão pelo pescoço e o matou com suas próprias mãos. E que, após sair da caverna, desceu o morro com a cabeça do leão sobre a sua cabeça e somente a pele do animal tocando suas costas. Por fim, sabe-se que, depois de aplaudido e agradecido pela população, voltou para onde estava quando foi incumbido de salvar aquela gente do admirável matador.

11/12/15

Como é possível?

Ou é ignorante – tão ignorante que não enxerga um palmo à frente do seu nariz – ou é quem lucra com o suor e a ignorância do cegueta disponível no mercado.

Afinal, como é possível que alguém 
  • aceite viver e fazer com que seus filhos vivam em condições miseráveis
  • consuma produtos envenenados e os ofereça justamente pra quem ele diz que ama
  • utilize transportes públicos mais que superlotados
  • busque postos de saúde que ou não atendem ou demoram meses pra atender
  • frequente escolas, em geral, geridas por gente que não vê a hora da aposentadoria 
  • procure, implore e aceite trabalhos inumanos e indignos
  • submeta-se a 'ganhar' salários que carimbam na sua cara a figura de babaca
  • esteja de acordo em 'fazer qualquer coisa' em troca de algum dinheiro 
  • disponha-se a participar de um jogo que já sabe que é de cartas marcadas 
  • consiga dormir, sabendo que vive do suor e da ignorância dos outros
  • … 

É possível! E não é de hoje que é possível. E também não é por acaso que seja assim.

Há tempos, é fundamental que o indivíduo não se perceba, não se descubra, não se desenvolva. Caraceterísticas como indivisibilidade, independência e autonomia não podem e não são mais aplicáveis ao termo indivíduo.

De fato, não são mais nem desejáveis e nem suportáveis. O que menos se espera é que cada um de nós sinta, pense e, sobretudo, aja de modo livre e comprometido com o outro. Tudo concorrre para que cada um de nós não seja humano, mas uma coisa manipulável.

O que querem e fazem a família, a escola, a igreja, a empresa, a mídia, o estado? Quantos de nós estão realmente ocupados consigo mesmos? Por que teríamos que nos perceber, nos descobrir e nos desenvolver?

Para que a 'sociedade' seja estruturada, ordenada e organizada, nada mais indicado que os 'acordos' sejam feitos somente entre pessoas. E pessoas são personalidades, isto é, seres que usam máscaras. E máscaras, como sabemos, servem para representar, fingir, imitar. A 'sociedade' é um palco cheio de 'atores' encenando histórias escritas e dirigidas por outros, quaisquer outros.

E assim, de ignorante a 'esperto', o que vemos? Gente que, de 'ator de verdade', não tem nada – não há generosidade alguma nos seus atos. Gente que não interpreta – apenas copia e remeda os outros. Gente, enfim, que torna real e concreto tudo o que, do ponto de vista humano, jamais seria possível – apequenar-se, submeter-se, tornar-se servil em nome do deus-cifrão.

O que estamos fazendo de nós mesmos nos tempos que correm?

03/12/15

Padrões de sentimento e pensamento

Desde que começamos a perceber que palavras se referem a coisas e, portanto, servem para atender nossas necessidades, adotamos padrões de sentimento e de pensamento que nada têm a ver com a gente. Querendo ou não, gostando ou não, assumimos modos ou jeitos de sentir e pensar que já existiam, que têm a ver com outros tempos e respondem a perguntas e inquietações de outros.

Mas como precisamos sobreviver, acatamos. E pagamos muito caro por isso, principalmente porque, em nome deles, sacrificamos o único momento da vida em que, realmente, poderíamos ter sido livres.

  • De origem latina, o termo PADRÃO vem de PATRONUS e PATER [pai] e quer dizer “modelo a ser seguido”. Adotar padrões, então, é tornar próprios os modos de sentir e pensar dos outros. É atender a solicitações e exigências de quem entende e julga e faz questão de cobrar determinados modos de sentir e pensar, exigindo que as coisas devam ser tratadas e vistas dessa e não daquela maneira. 

***


Ainda muito pequena, a criança é levada a sentir a si própria e o mundo de um jeito conveniente aos espaços em que nasceu: há sempre um onde, como e quando pode ou deve chorar ou rir, fazer festa ou ficar triste, mostrar-se feliz ou infeliz. Igualmente levada a perceber que há sempre um se e quando convém ou não pedir, cobrar ou até mesmo exigir isto ou aquilo, sofre agressões físicas e psicológicas quando arrisca fazer algo proibido, ainda que não tenha a menor ideia do que era ou não permitido fazer. Recebe elogios por ações que, a rigor, não sabe se estão ou não dentro dos padrões. Faz muita coisa e outras tantas deixa de fazer simplesmente porque é impedida, proibida, cerceada, reprimida. O que não falta é aperto na garganta, muito choro engolido, muita lágrima.

Quando começa a compreender e relacionar as coisas e ver que, de fato, elas dizem outras coisas, nota que suas primeiras reações [chutar a canela ou sair correndo ou simplesmente chorar] não mais garantem a sobrevivência. Observa que já não é mais 'novidade' e nem mais a 'engraçadinha' que chamava a atenção dos mais velhos. Descobre que cresceu – ao menos de altura e largura. Percebe que outro momento da vida chegou e exige dela outro comportamento: agora tem que falar, argumentar, justificar, debater... pensar. Quase que forçosamente diz 'estou aqui', já que tem de assumir responsabilidades sobre o que disse e fez. Entende que afirmar ou negar isso ou aquilo deixou de ser 'brincadeira' e transformou-se em caso de vida e morte. Negar o que foi dito e afirmar o que não foi dito passou a ter sentidos muito diversos do que tinham até então. Mentir, por exemplo, deixou de ser o contrário de verdade, pois se nem sempre a verdade convém, nem sempre a mentira também.
 

***


Adultos, percebemos que pensar e falar, embora sejam atos tão livres quanto o voo dos pássaros, em geral, são também o tempo e o espaço fechado da gaiola. Notamos que estes são verbos quase sempre não conjugáveis, a não ser quando se trata do pensado e dito, admitido, conhecido e reconhecido, aprovado e permitido. Entendemos que convém pensar muito antes de falar e nem sempre falar o que pensa. Entendemos, sobretudo, que pensar e dizer não combinam com liberdade.

Com relação aos sentimentos - muito embora nem sempre percebamos e continuemos a não saber o que fazer com eles - estão presentes como base de cada uma de nossas ações. Permanecem latentes, pulsantes, formando um amontoado de ideias e sensações que geram medo, insegurança, agressividade, violência... prontos pra explodir a qualquer momento. E vêm à tona, com mais ou menos intensidade, nas reações que apresentamos ante a qualquer ameaça. Não raro, certas reações não se justificam. Nem nós mesmos nos reconhecemos. Não acontece de extrapolarmos ou, então, ficarmos paralisados? Situações assim não são muito comuns?
 

***


O fato é que, após longo tempo, compreendemos que os padrões de sentimento e pensamento que forçosamente acatamos dos que vieram antes de nós, também forçosamente impusemos aos que vieram depois de nós. Justamente o que nos fez sofrer é o que fizemos com nossos filhos. O que nos impediu de arriscar, sonhar, realizar é o que impedimos que os que vieram depois de nós arrisquem, sonhem, realizem.

Quando crianças, embora quiséssemos muito, não pudemos e nem conseguimos dar asas à nossa imaginação criadora, ousada, livre – e, ao mesmo tempo, carregada de perigo, acidente e morte. Para nos proteger, fomos obrigados a obedecer e acatar. Mais tarde, por conveniência, muitos e muitos de nós fomos além de manter o que acatamos: adotamos como modelo e procedimento. Sentimos, pensamos e agimos imaginando – há quem acredita-se convencido – que nada temos a ver com aquele tempo, que tudo aquilo é coisa do passado. E assim, tocamos a vida.

Ocorre que sentimentos e pensamentos não se desfazem com a idade. Não desaparecem na vida adulta. Imposição, pressão, aprisionamento não diluem na água ou viram fumaça. Repressão, submissão e sofrimento não somem num passe de mágica. Ou seja, não se desfazem, não desaparecem e não somem!

Ao contrário, continuam mais que presentes em cada um de nós e têm a ver com cada uma das lembranças do sofrimento causado pelo cerceamento à nossa liberdade. Tudo o que sentimos, pensamos, dizemos e fazemos está intimamente ligado ao modo como, desde a infância, processamos a imposição dos modelos que nos foram enfiados goela abaixo. Será mesmo este o nosso jeito de sentir, de pensar, de ser e de viver?

É possível que o tempo de vida de cada um de nós não seja outra coisa senão tentar, de todas as maneiras, conviver com os padrões que nos foram impostos durante os anos iniciais de nossa existência.

06/11/15

Equívoco

Houve um tempo em que a terra era de todos. Viver sem a terra era algo inconcebível. Não cultivar, não ter onde levar os animais para pastar, não ter onde morar... eram ações impensáveis. Naquele tempo, a terra era a morada dos homens e de todos os seres vivos.

Mas isso mudou. E como!!!


Conforme Rousseau, o filósofo, certo dia, apoiado por um grupo de homens armados, alguém chegou em determinado lugar e disse 'isto é meu' e, não encontrando quem o desafiasse, ali se instalou. Em seguida, alguns outros repetiram o gesto do primeiro e também não encontraram resistência.

Pronto! Estava criada a propriedade privada da terra – possivelmente, o ato mais perverso praticado pelo homem contra si mesmo e contra toda a humanidade.


Desde então, a luta pela sobrevivência, que já não era fácil, teve que incluir as proibições de acesso justamente ao que era inerente à existência humana. Desde então, viver e deixar viver é algo que implica negociar com quem se acha no direito de dizer quem pode ou não pode viver. Desde então, alimentar-se e alimentar os filhos depende dos interesses de quem, pela força, se apropriou do que a todos pertence.

Afirmar e admitir que há, supostamente, espertos versus ingênuos, néscios, trouxas, imbecis é estabelecer e manter uma relação consigo mesmo e com os outros fundada na mentira. É ter que inventar argumentos para justificar o inconcebível, o impensável e, diariamente, convencer-se e convencer os outros de que a morada dos homens e dos animais e dos vegetais e minerais não é mais de todos. É viver de mentir pra si mesmo e para os outros.

O fato é que aceitar a propriedade privada da terra [e seus desdobramentos] desominizou o homem. Fez dele um ser apequenado, alienado e, tal como raiz arrancada do solo, levado pelo vento da imundície, da corrupção, da violência.