Pessoas não mudam [*]

Se as pessoas inseridas num grupo não 'produzem'... Se essas pessoas, mesmo devidamente recompensadas e continuamente estimuladas, não atendem ao que delas se espera... Se além de recompensadas e estimuladas, são agraciadas com os mais diversos 'presentes'... Se eficiência e eficácia são termos que fazem parte do discurso mas, na prática, não significam nada para elas... é ilusão pensar que haja alguém capaz de fazê-las mudar.

Como assim?

Fomos convencidos de que basta selecionar pessoas [para uma seção, departamento ou turma] e esperar que elas entendam o que lhes cabe fazer e, mais ainda, que respondam positivamente às demandas solicitadas e/ou exigidas.

Acreditamos que basta querer e torcer e se cercar de todos os meios pra que elas cumpram o que foi lhes foi designado. Mais: supomos que, se forem ameaçadas e submetidas à condição de meras cumpridoras de suas funções, qualquer empreendimento alcança seus objetivos.

Há quem pensa e acredita que, como chefe ou líder de qualquer agrupamento de pessoas, é ele – graças à sua experiência, capacidade e habilidade – o responsável pelo eventual sucesso da empreitada. Há também quem cultiva a ideia acompanhada de prática largamente difundida de que as pessoas 'rendem' mais se forem animadas e motivadas. Ledo engano!

Ora, ora!

Pessoas são 'recursos humanos' e, assim como os recursos materiais, ora servem ora não servem, ora se adaptam ora não se adaptam, ora prestam ora não prestam aos propósitos de um ou outro empreendedor dessa ou daquela área. Pessoas são 'capital humano' para ser explorado no mercado, isto é, coisa pra ser usada e abusada e gerar lucro. Pessoas são peças de tabuleiro nas mãos de quem se imagina capaz de juntar e dispor cada uma delas como bem entende ou de acordo com modelos pré-moldados.

Apostar no chefe ou líder como figura maquiada de 'experiente e responsável' – essencialmente falso, portanto – é jogar um jogo perverso: é jogar as fichas num personagem quase sempre investido por um igualmente falso poder sustentado na máxima “manda quem pode e obedece quem tem juízo”.

Pessoas são personagens. Personagem representa. Faz o seu papel: sofre, ri, chora, é pobre ou rico, feio ou bonito, inteligente ou estúpido… Pessoas representam pessoas, portanto, estão longe de ser elas mesmas. Pessoas não são sinceras. Não mudam. Ou mudam para continuar sendo o que são: pessoas, personagens, caricaturas.

Se não 'produzem' o quanto delas se espera é porque elas sabem quem são e o que pretendem os que as contratam.

[*] este texto integra a série 'Quem precisa de líder'

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Pra discutir

Olá!

Os textos a seguir são exercícios de leitura, compreensão e interpretação do que temos feito de nós mesmos. São observações, exclamações, interrogações, reticências sobre temas relevantes, que têm a ver com a nossa vida individual e coletiva e, por isso mesmo, pouco [ou quase nunca] lembrados, pensados e comentados na família, na escola, nas mídias... Interessa, então, abordar alguns deles e contribuir para que sejam conhecidos e debatidos.

Tomara que sirvam para dar início a boas conversas, especialmente entre os que ainda não tiveram oportunidade de ouvir e discutir ideias e práticas que influenciam diretamente seus modos de pensar, de sentir e de se posicionar no mundo.

Espero, sinceramente, co-laborar com você!

 
Publicação: INSTITUTO GENS

ISBN: 978-85-63081-01-8

Livro impresso [60 páginas em papel reciclado, 10 X 14]: R$ 8,10 [incluindo frete]
Livro digital [epub]: R$ 5,00

Depositar e/ou transferir o valor correspondente ao impresso ou digital:
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e enviar comprovante, juntamente com nome e endereço completo [versão impressa] ou nome e endereço eletrônico [versão digital] para

igens@portalgens.com.br

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“velhaco, trapaceiro, enganador”

Ontem, 21 de novembro, ficamos sabendo de mais um dos tantos crimes cometidos contra o povo do nosso país. Desta vez, um médico da cidade de Ananindeua, Grande Belém, Pará, exigindo pagamento por um serviço público. 

Como qualificar um sujeito que prestou concurso público, passou (?!), sabe quais são as condições de trabalho, recebe um salário, usa o espaço público para exercer sua profissão e se envolve em falcatruas como essa? Estará ele sozinho na “jogada”? Muito provavelmente, não.

É claro que não se pode generalizar. Não é verdade que todo servidor público se mete em situações como a do médico, acusado de estelionatário ou, como diz o Houaiss, de “velhaco, trapaceiro, enganador”, envolvido numa situação de “fraude praticada em contratos ou convenções, que induz alguém a uma falsa concepção de algo com o intuito de obter vantagem ilícita para si ou para outros”. Qualquer generalização é uma estupidez; costumo sempre dizer que “todo mundo é muita gente”.

Mas, cá entre nós, quantos servidores você conhece que agem com seriedade, compromisso e respeito ao público? Quantos realmente prestam um bom serviço à população que, simplesmente, lhes paga o salário? É evidente que estas exigências não são exclusivas do serviço público, mas de toda e qualquer atividade exercida por todo e qualquer cidadão.

Falcatruas como as do médico são recorrentes na maioria – senão em todas – das categorias profissionais, não importando se quem as comete atua no setor público, privado ou no chamado não-governamental. A história horrível desse médico, a história que o torna conhecido por todo o país, é a mesma história horrível de tanta gente que, por não re-pensar e por não re-ver o que faz com o que pensa, acaba por repetir a máxima: o que vale mesmo é “levar vantagem em tudo”.

Quando a corrupção aparece ou explode em um setor da organização – da família ao Estado, passando pela escola, empresa, hospital etc – não há dúvida de que o tecido das relações sociais está deteriorado, em estado de putrefação.

A corrupção não cai do céu; ela nasce das ações inescrupulosas de quem corrompe e de quem se deixa corromper. Não há corrupto; há corruptos. [23/11/06]


ET: Corrupto (Callichirus major, Stimpson, 1866) é um crustáceo decápode cavador, que pertence a família Callianassidae, apresenta indivíduos maiores atingindo aproximadamente 20 centímetros de comprimento, tendo o abdome com coloração amarelada. Possuem garras em forma de pinças sendo uma delas bem maior que a outra. Deve-se tomar cuidado com os espécimes de maior tamanho, já que sua garra pode causar pequenos ferimentos. São apelidados de Corruptos, pois são muitos, não "aparecem" e são difíceis de capturar. [http://pt.wikipedia.org/wiki/Corrupto]

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Apavora... mas não saber ver a hora no relógio

Dia desses, assim que entrei numa padaria próxima daqui, ouvi uma fala parecida com a que serve de título deste texto. Dois homens, adultos, conversavam junto ao balcão e um deles contava os últimos acontecimentos do local onde trabalha.

Enquanto aguardava o leito e o pão, fiquei sabendo que, há muito, ele é professor de educação física numa unidade da Febem de São Paulo, e que a situação desta instituição estadual só piora em todos os sentidos.

Dizia ele que o problema não são os meninos; é do maior, não do menor –  como se tratava a criança e o adolescente antes do ECA; é a politicagem dos adultos a responsável pelo fracasso da instituição ao lidar com os mais jovens em desacordo com a lei...

Lembrou que uma de suas lutas foi conseguir um relógio de parede para os meninos acompanharem o tempo dos jogos que ele promove durante as aulas. Demorou muito pra conseguir... Foi quando entendeu os motivos que fizeram a direção da unidade dificultar uma coisa, para nós, tão simples: é que nos sistemas de reclusão, esta é uma das formas de fazer o indivíduo perder a noção do tempo que ele está ali...
Sacanagem! – pensei comigo. Entrei na conversa e pedi a ele que falasse mais sobre o Apavora, mas não saber ver a hora no relógio. Ah!, sim – disse ele. Quantas vezes, durante os jogos – continuou – os meninos perguntam: Senhor (é assim que os internos chamam qualquer outro ou outra que não seja um deles...), quanto tempo falta pra acabar o jogo? Daí, eu falo: olha o relógio... ainda tem 20 minutos... olha lá...

O professor deu uma pausa, tomou um gole de cerveja e falou: quantos deles aqui fora são uns monstros, capazes de fazer qualquer coisa que a gente imaginar e lá dentro, por medo dos outros, são temidos e  respeitados... não são mais crianças, muitos deles são grandes, altos e fortes... trabalho numa unidade de infratores reincidentes... alguns já aprontaram muito por aí... eles apavoram, mas, como eu disse, não sabem ver a hora no relógio...



Quer dizer – comentei –, a sociedade sabe muito bem condenar, prender, punir... mas quantas crianças têm a oportunidade de contar com alguém que lhes ensinem o básico como, por exemplo, ver a hora no relógio? Pai, mãe, escola, poder público, igrejas, meios de comunicação... quem são os responsáveis por essa situação?

Penso que nós todos temos a ver com esse problema. Educação é um problema nosso, sem dúvida. Mas estou certo também que os homens e as mulheres que ocupam os poderes executivo, legislativo e judiciário, que vivem – e vivem muito bem! – dos impostos que nós pagamos, têm não somente a responsabilidade, mas a obrigação de atender integralmente a população e, mais ainda, as nossas crianças e adolescentes. É um absurdo aceitarmos as péssimas condições físicas das nossas escolas e a deprimente qualidade de ensino praticada por boa parte dos profissionais de educação do nosso país. O que dizer, então, do que há anos vem acontecendo na Febem???

Cansado e meio desanimado, disse o professor que toda vez que aquele tipo de coisa acontece – o que é mais freqüente do que a gente pode imaginar –, depois que o jogo termina, ele chama o garoto sozinho e explica como funcionam os ponteiros do relógio. Não houve uma vez, lembra o professor, que ele não tivesse ouvido, como todas as letras: Obrigado, Senhor!

Paguei minha conta no caixa e fui embora... [2006]

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Num bairro 'nobre' da cidade

Duas cenas ocorridas num mesmo local de um dos bairros nobres de São Paulo. Corriqueiras, dirão alguns, mas reveladoras de um tempo que consegue superar o homo homini lupus, do Hobbes. Certamente, nenhum lobo faria tanto estrago...

Em geral, habitam e freqüentam esses poucos espaços diferenciados da cidade, entre outras, pessoas estudadas em colégios e faculdades de nome, como se diz. Um bairro chique, sem dúvida, e como se verá, muito bom pra veterinários...

  
1] Três crianças; irmãos certamente. O mais velho – sete anos talvez, acompanhado por outro de não mais que cinco e a irmã, quatro, se tanto – chorava de modo desesperado ao ver e sentir o olhar e o peso da mão do 'distinto' senhor de corpo vergado sobre ele. O homem tanto falava alto quanto chacoalhava o corpo do pequeno engraxate que ainda não tinha lustrado nenhum sapato caro. E já era perto de 4 da tarde.

Não dava pra entender o que o homem dizia pro garoto vindo sabe Deus de onde. Do ônibus, disputando com o barulho do motor ao lado do motorista, só era possível ouvir os berros enfurecidos e ver três pares de olhos sem piscar. O que dava pra entender era que ele estava muito bravo... Por quê? Impossível saber...

Encerrada a sessão pública de tortura, e ainda espumando de raiva, o brutamonte soltou o menino e tomou sua caixa de brincar e trabalhar. Nela havia uma latinha de cera, uma velha e esgarçada escova de dente e um pedaço de pano usado, assim meio preto meio marrom..., além, é claro, de um carrinho e uma bola de plástico vagabundo. O 'distinto' senhor, então, fez com a caixa o que gostaria de fazer – e faria – com o menino, não fosse, obviamente, a educação religiosa que, há anos, recebera nas escolas de nome que freqüentara.

Com a bravura de homens sérios e profundamente indignados com a atual situação do nosso país, convencido de que efetivamente ele não tem nada a ver com esse estado de coisas, não só jogou ao chão a caixa de engraxate do garoto como, violentamente, pisou sobre ela com seu sapato de couro fino, destruindo-a completamente.

E as crianças? Ora, as três crianças fizeram a única coisa que podiam fazer: correr, correr e correr. E o estudado senhor? Em meio à inevitável roda de curiosos, falava e gesticulava muito. Sobre o quê? Claro, sobre sua enorme capacidade de prender e sacolejar um moleque de 7 anos...


2] Dias depois, no mesmo lugar, esquina de duas ruas famosas do bairro, outra cena animou os transeuntes locais. Dessa vez, o personagem principal era nada mais que um cachorro, ou melhor, um desses cachorrinhos que levam seus donos pra onde eles (os quadrúpedes) querem. Deixam-se prender por uma coleira, mas são eles que ditam os caminhos pra quem os têm teoricamente presos em suas mãos. São os filhinhos-da-mamãe-e-do-papai, não-faz-assim-com-a-amiguinha-não, seja-educadinho-senão-mamãe-vai-ficar-triste...

Nada contra os animais, em especial ao caseiro au au. Mas tem certos donos de cachorro que ai! ai!...

É o caso da distinta senhora da cena dois, passeando pelas ruas do bairro nobre com seu cachorrinho. Um passeio bastante comum, aliás, naquele pedaço da cidade que, dizem, concentra uma população considerável de cães de variadas raças e diversos tamanhos morando com seus donos em caros apartamentos.

Muitos deles (os donos), de tão cansados de tudo que aí está, já não carregam o saquinho de supermercado pra recolher os dejetos que seus cães vão depositando na via pública. Já houve até distribuição de folhetos chamando a atenção dos 'distintos cidadãos' pra conversarem com seus cãezinhos sobre atos tão nocivos ao olfato dos transeuntes, sem falar dos incômodos decorrentes das pisadas com sapatos de couro fino em troços espalhados pelas calçadas...

Bem, o fato é que, por alguma razão, um rapaz reclama à 'distinta' senhora do fato do seu cão ter avançado sobre ele, fazendo o conhecido escarcéu que sempre faz esse tipo de quatro pernas. O rapaz teria dito algo como 'vê se toma conta desse animal'...

Foi o suficiente para que a distinta-raivosa-cansada senhora, em meio a tantos impropérios, gritasse aos quatro cantos que denunciaria o rapaz ao delegado e, depois, o levaria aos tribunais. Aquilo era demais! Seu cãozinho de estimação fora vítima de uma ofensa inadmissível e imperdoável... Muito brava, não parava de dizer animal não, ele tem nome... [2010]

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A violência começa em casa

Vivêssemos num tempo em que a marca maior não fosse o individualismo, certamente teríamos uma outra relação com o outro, em especial com o outro mais próximo – os filhos, por exemplo.
Dias desses, vi uma cena comum no estacionamento de um supermercado, envolvendo dois jovens adultos e duas crianças: pai, mãe e filhos, um menino e uma menina; crianças pequenas, com idades que não ultrapassam 4 anos. 

Enquanto os adultos guardavam as compras no porta-malas do carro, as crianças foram colocadas no carrinho do supermercado. Vai pra lá, vem pra cá e o previsível aconteceu: tombaram e foram pro chão com o carrinho por cima.

Os choros de susto e de dor das crianças nada valeram para aqueles a quem se convencionou chamar de pai e de mãe. Pura convenção, porque o que se viu foi uma sessão de tortura: as crianças foram erguidas por aquela mulher e literalmente jogadas no banco traseiro do carro em meio a tapas, em especial na cabeça, e palavrões; enquanto isso, aquele homem ria e falava coisas supostamente engraçadas somente para um bruto. Como se isso não bastasse, a mãe continuou a surrar as crianças agora presas no interior do veículo.

Não passou pelas cabeças daqueles adultos, naquele momento de visível raiva da mãe e descompromisso do pai, que as crianças pudessem ter se machucado. Não lhes ocorreu saber o que, de fato, aconteceu com os pequenos ali ao lado deles. Nada! As únicas reações foram distribuir palmadas raivosas e tirar sarro da desgraça dos outros. Quais outros? Ora, dos próprios filhos, há pouco saídos das fraldas...

Pesquisas divulgadas durante esta semana apontam um aumento nos índices de violência no Brasil. Nada de novo, já que situação como a descrita acima não deixa evidentes pelo menos alguns dos motivos da violência.

É claro que este fenômeno tem a ver com os modelos de sociedade, de economia, de cultura etc, que temos adotado no decorrer da história. Exatamente por isso, é na família, ou melhor, no núcleo familiar, que ele se manifesta com toda sua magnitude. A violência nasce aí e é justamente aí que ela deixa, em profundidade, suas marcas cravadas.

“Presenciar cenas de violência doméstica pode ter um sério impacto numa criança, que, por vezes, fica marcada para toda a vida. Estima-se que 275 milhões de crianças assistam por ano a cenas de violência, em todo o mundo.” – afirma um dos documentos.


Uma criança que, desde a mais tenra idade, convive com a violência, ora como vítima, ora como expectadora – mas também como personagem de uma história que não tem nada de entretenimento – aos 7 anos já viu e viveu tanta coisa, que encher de porrada o colega na escola ou na rua é algo absolutamente normal.

Daí pra frente – e a continuar vivendo em espaços em que não se cultiva o diálogo e o bom senso e, portanto, o outro é tão importante quanto o eu – bater e matar e morrer seja lá quem for são verbos que se conjugam sem nenhuma dificuldade em qualquer tempo e em qualquer lugar. [06/12/06]

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Num bar e restaurante

No entorno do Teatro Municipal, num dos tantos pequenos bares que servem cachaça, suco, prato feito, salgados e um bocado de outras coisas, o balconista tenta acompanhar a reapresentação da novela Rei do Gado na tevê.

Num dos raros momentos em que ele consegue parar, já que o movimento é intenso o tempo todo, e depois trombar várias vezes com o colega no estreito espaço entre o balcão e a parede, ele fala, pra si mesmo e pra quem quiser ouvir, que a bela atriz em close é ou era a mulher de um político lá de Fortaleza. Um cliente, que tomava cerveja bem debaixo da tevê com volume altíssimo, resolve comentar a fala dele e diz que a mulher era e ainda continua muito bonita, linda mesmo.

O balconista, então, afirma com veemência que televisão é ilusão. Diz que aquela atriz não é tudo isso que aparece, que o rosto dela tem muita maquiagem, que a televisão engana a gente. E conta que, por ali, já viu muitos desses artistas e que eles não são como aparecem na tela da tevê. Até mesmo os jogadores de futebol: eles são muito mais baixos e menos fortes do que quando estão na tela; muitos deles parecem bonitos, mas são feios. A televisão aumenta tudo...

E assim, falando rápido e sem dar tempo do cliente dizer alguma coisa, ele afirma taxativamente: é por isso que eu não assisto mais televisão... não vejo novela, não vejo programa... não vejo futebol... não vejo nem filme. Isso tudo é ilusão. A única coisa que assisto é o jornal nacional.

O cliente, então, se apressa e fala: mas você não disse que a televisão aumenta tudo? O balconista levanta a sobrancelha e ameaça dizer alguma coisa, mas é interrompido por outro cliente que pede 'aquela cachaça'.[04/03/2015]

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No Taxi

Na avenida São Luis, bem no centro da cidade de São Paulo, o motorista tem que parar no semáforo mais tempo do que o convencional porque um grupo de idosos, bem devagar, atravessa a rua em direção à praça. O passageiro comenta com ele o fato de que o Brasil caminha para ser um país de idosos; segundo o IBGE, em 2050, haverá mais idosos do que crianças e jovens no Brasil.

Bravo, o taxista diz que 'esse governo' vai acabar matando todos os velhos só pra não pagar aposentadoria; assim sobra dinheiro pra corrupção, porque tudo o que 'esse governo' sabe fazer é roubar a população. O passageiro diz que, infelizmente, esta é uma prática antiga no país; que nos 515 anos de história do Brasil, o que mais se viu foi roubalheira. E que, felizmente, ao menos um pouco disso tudo tem vindo à tona nos últimos anos. E lhe perguntou se ele preferia ser roubado e nem ficar sabendo... Claro que não, disse ele, mas 'esse governo' é tão incompetente que nem roubar sabe.

Próximo do final da corrida, ainda muito bravo, lembra que o dia 15 de março já chegando... e que vai ser um grande dia... e que até os militares vão sair pra rua... o que esses caras estão pensando?... querem transformar o Brasil numa Cuba?... nós não somos comunistas... nós somos assim, livres, cada um faz o que quer, apontando para o 'limpo' e 'belo' Largo do Paissandu, quase sempre habitado por mendigos, bêbados e prostitutas em meio a apressados transeuntes.

O passageiro paga a corrida e, ainda dentro do carro, diz ao taxista que já foi a Cuba e que, no período em que lá esteve, não viu pedintes e nem gente jogada na rua. Disse que as pessoas comiam arroz, feijão e legumes... que não comiam carne todo dia, mas que eram saudáveis... O taxista ouviu e, um pouco mais calmo, falou que não era esta a informação que ele tinha; que a reportagem que ele viu na tevê mostrava que não era nada disso... Mas você acredita em tudo o que vê na televisão? - indagou o passageiro. E o taxista respondeu: claro que não... [04/03/2015]

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    Leitores e Escritores

    Como esperar que crianças e adolescentes sejam leitores [e escrevam bem] se pais e professores, em geral, não são leitores [e também não escrevem]? Quantos pais se dão ao trabalho [sim, isto é trabalhoso] de ler para seus filhos? Quantos professores, em sala de aula, se dedicam [sim, dedicação requer esforço] a ler para e com seus alunos?

    Ora, ninguém nasce pronto. O que aprendemos, sobretudo quando somos crianças e adolescentes, é base pra toda a vida. É a partir dessa base que cada um de nós se transforma no que é. E quem ensina? Primeiramente, os que vivem mais próximos da gente; pais ou responsáveis são nossas principais referências. Depois, todos os outros adultos; o jeito que pensam e o modo como operam são exemplos que utilizamos para modelar nosso jeito de pensar e operar.

    Você já viu este vídeo? [http://youtu.be/KHi2dxSf9hw]



    Pois é justamente disto que estou falando. E se vale para cigarro, bebida, trânsito, tratamento com pessoas, objetos, animais, bebês, vida familiar... vale também para leitura e escrita [ou falta delas].

    Ou seja, quando há ensino, há aprendizagem; o contrário também é verdadeiro. Se pais e professores forem leitores e escritores, filhos e alunos, possivelmente serão leitores e escritores; o contrário também é verdadeiro.

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    Nada pode acontecer sem os políticos?

    Diz o indivíduo: na minha cidade [interior de são paulo], a 'santa casa' entrou em reforma; anos depois, nada...; simplesmente, a tal 'reforma' não acontecia; como sempre, o argumento era que não existiam 'recursos'... Certa vez, esteve lá o Ayrton Senna, o famoso. Comovido [?] com a história, disse que terminaria a 'reforma'... Alguns meses depois, chegou à pequena cidade uma equipe do Ayrton e, de fato, fez a reforma. Detalhe: não repassou nenhum tostão aos 'administradores' da 'reforma', e a 'santa casa' foi entregue conforme o prometido.

    Obviamente, é fã do Ayrton e lamenta profundamente o que aconteceu com corredor. Um amigo do indivíduo então diz, com todas as letras, que sabia o quanto o cara da fórmula um era bom na pista, mas não sabia que ele era 'melhor ainda' fora dela...

    Momentos depois, comentando sobre a política e os políticos nacionais, o indivíduo diz que 'nada pode acontecer sem os políticos'...

    Interessante, não???


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    Lula na cabeça


    É interessante o modo como certas pessoas se referem ao Lula – especialmente as que pertencem ao grupo que 'estudou' ou 'fez uma faculdade'. Quando abrem a boca – e fazem questão disso! – fica evidente que certamente não leram nada ou quase nada, não estudaram nada ou quase nada, não discutiram nada ou quase nada mas, ainda assim, querem dizer que 'sabem o que estão falando' porque 'estudaram'...

    Ontem, na padaria, presenciei uma situação típica dessa gente. Um sujeito que se apresentou como sociólogo se enchia de saberes ao falar de política e economia: citou Estados Unidos, Rússia, Cuba, Ucrània, China e Brasil; explanou e comparou países bem de acordo como o que se ouve nos 'meios de comunicação social' e, claro, desceu o cacete na economia e política atual. Mais exatamente, em Lula e Dilma, que devem mexer muito com ele – em particular, o Lula, que possivelmente embaralha seus 'instintos mais primitivos'...

    O que faz com que tipos como esse se incomodem tanto com a figura do Lula? O que causa tanta estranheza a essa gente?

    Não me interessa fazer e/ou discutir política partidária – há muito não acredito nisso. Não quero e nem devo defender ou atacar o Lula – não tenho e nem quero procuração para tanto. Mas acho, no mínimo, interessante o modo como essa gente se refere a ele: ao mesmo tempo que falam de alguém que poderia ser um deles ali presente na mesa, o Lula é um sujeito que, movido pelas mais absurdas intenções, acabou com o Brasil.

    O fato é que, questionado e sentido-se pressionado pela fala de um taxista, que não concordou com ele, o tal indivíduo assumiu a pior postura professoral possível: fazer perguntas 'difíceis' que, supostamente, o 'ignorante' taxista não saiba responder, tentando assim desqualificar sua fala e seu pensamento em meio às outras pessoas. O clima ficou mais tenso quando o taxista levantou-se do banco e frontalmente disse ao sociólogo que ele também ele não sabia nada, que tudo que ele sabia era fazer perguntas.

    Ofendido, o homem das ciências sociais aumentou o volume da voz e baixou o nível vocabular, 'humilhando' ainda mais o taxista. Foi quando não resisti e, sem ser convidado, entrei na 'conversa'... e falei um monte. Foi quando também o 'entendedor de economia e política' botou pra fora o sentimento comum de boa parte das pessoas que não se conformam com o fato de Lula ter ocupado o lugar de presidente da república: vieram à tona os malditos preconceitos nojentos desse tipo de gente – prova cabal do quanto são ignorantes e boçais. Miséria total!

    Adiantou alguma coisa eu ter entrado na conversa? Claro que não!

    Em seguida, cada um pegou seu saquinho de pães, pagou a conta e foi embora, menos o sociólogo, já com sinais de embriagues, que ficou sozinho com seus copos de cachaça e cerveja... e o Lula na cabeça.

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    Áries e Plutão em Escorpião

    Este é o título de uma aula de Astrofilosofia. O objetivo é estudar as características de Áries e Plutão, regentes do signo de Escorpião. Isto quer dizer que os elementos que identificam mitologicamente um e outro planeta, quando se relacionam com Escorpião, ficam ainda mais explícitos porque encontram aí todas as condições para, digamos assim, se manifestarem com força e intensidade.

    Convém, portanto, compreendê-los, sobretudo, porque eles estão intimamente ligados a muitos de nossos pensamentos e muitas de nossas ações. Sim, porque tod@s e cada um de nós tem em nosso mapa natal tanto Escorpião como Áries e Plutão.

    Como entender [e explicar] tantas ações e reações diante de certas situações que, imaginamos, não seríamos capazes jamais? O que nos leva, não raro de forma não intencional, a planejar certas ações que, objetivamente, nem de longe seríamos capazes de elaborar? Por que, diante de determinadas situações, agimos de maneira 'impensada' e  'inesperada'?

    Perguntas como estas [e tantas outras...] podem ser minimamente compreendidas quando questionamos a nós próprios no tempo em que vivemos [o que é próprio da filosofia] e buscamos em outros modos de conhecer a nós próprios e o mundo [o que faz a mitologia e a astrologia].

    Ou seja, estamos falando da Astrofilosofia – tema que venho estudando e trabalhando nos últimos 30 anos – e que, certamente, contribui, e muito, para sabermos de nós mesmos no tempo em que estamos vivendo.

    Acesse http://institutogens.blogspot.com.br/ e faça sua inscrição.

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    Palestras & Oficinas

    Junto com a Grácia Lopes Lima, sou responsável pelo INSTITUTO GENS, empresa também criada por nós há mais de 25 anos.

    Neste tempo todo, trabalhamos sempre com formação de pessoas interessadas nas áreas de educação, comunicação, educomunicação e filosofia. Podemos dizer que milhares delas participaram conosco das nossas aulas, cursos, oficinas, programas e projetos... - o que, certamente, sempre nos deixou e deixa muito felizes.

    Preparamos agora uma série de palestras e oficinas que, certamente, conta com toda essa experiência acumulada, e que pode ser interessante e útil para outras pessoas.

    Somos mui gratos se puder repassar esse link para seus contatos.


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    Pai, Mãe e 'filho da puta'

    Imagina a cena: um pai [emburrado], uma mãe [frouxa] e um menino de 5 ou 6 anos [esperto, olhos atentos, gesticulando e falando consigo mesmo]; a família faz compras de natal no supermercado. Eis que, de repente, entre as bancas de legumes e frutas, uma laranja grande e amarelada vira bola nos pés do menino e o corredor, cheio de gente, um 'enorme' campo de futebol. Tudo acontece muito rápido. Nem dá tempo de atrapalhar os distintos cidadãos consumidores. Não há comentário ou reclamação. Apenas um velho bem idoso olha e esboça um sorriso.

    Algo, entretanto, me chamou a atenção: a reação do pai enfezado [cheio de fezes] e o silêncio conivente da mãe estúpida [que ignora] incomodados com os 'dribles' do garoto com sua bola de laranja. O cara pegou com violência no braço do menino e disse com todas as letras – e de um jeito que jamais falaria a outro adulto: 'fica quieto, moleque filho da puta'.

    Pasmo, olhei pra eles e pensei comigo: foi isto mesmo que ouvi? o babaca chamou seu próprio filho de filho da puta ao lado de sua mãe e mulher dele? Sim, foi exatamente o que ele disse. E a mãe? Não falou e nem fez absolutamente nada. Quando perceberam minha reação, fingiram não ser com eles e imediatamente saíram dali. E o menino? Continuou gesticulando e falando consigo mesmo...

    É claro que o garoto ainda não sabe o que significa ser chamado de 'filho da puta', mas certamente essa informação carregada de preconceitos – vinda do pai e com o aval da mãe – não se perdeu nos corredores do supermercado. Ao contrário, ficou gravada no seu corpo e na sua memória para sempre. Não sabemos o que ele fará com ela... É possível que, assim como seu pai e sua mãe, também ele, um dia, chame seu filho, ao lado da mãe, de filho da puta. E, assim como a maioria de nós, é possível também que ele não perceba que a palavra, quando sai da boca, além de não voltar mais, é como tiro de canhão: sempre atinge algo ou alguém e, inevitavelmente, produz efeitos arrebatadores...

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    Palestras & Oficinas

    O INSTITUTO GENS, do qual sou co-responsável, está oferecendo uma série de palestras e oficinas [sobre educação, comunicação, educomunicação e filosofia] dirigidas a jovens e adultos e, em especial, a profissionais de educação que atuam em escolas e organizações.

    Nosso objetivo é contribuir, de modo crítico, com a discussão de temas que nos parecem fundamentais, tais como: 

    • O lixo como problema
    • O papel do professor nas diferentes concepções de educação e de escola
    • Aspectos da Ética
    • Eixos Transversais na Educação Escolar
    • Concepções ingênuas de Educação nos últimos 200 anos
    • Concepções críticas de Educação nos últimos 200 anos
    • Ilusório, deturpado e falso. Ou 'Meios de Comunicação Social' no Brasil
    • Modos de conhecer o mundo
    • Escola e Violência Simbólica ou Institucional
    • "Para não criar mamíferos de luxo"
    • Grêmio Estudantil – por que não?

    E também oficinas: 
    • Como produzir jornal com criança usando recursos da internet – uma forma prática de aprender a produzir jornal digital com criança
    • Pessoas, lugares e paisagens – a fotografia do ponto de vista da criança – uma forma prática de entender que fotografia é um tipo de leitura de mundo
    • Como trabalhar a oralidade das crianças através do uso de gravador de som – uma forma prática de aprender a trabalhar língua oral no ensino infantil e fundamental
    • Como tornar conhecido o trabalho silencioso e solitário do professor em sala de aula e da escola – uma atividade prática de criação de blog como ferramenta de registro das atividades realizadas por professores dentro e fora da sala de aula
    • Porque as crianças estão se tornando consumistas cada vez mais cedo – uma forma prática de identificar o papel da publicidade na formação das crianças e adolescentes
    • Produções coletivas de comunicação: VideoReportagem | VideoHistória | FotoJornal | FotoNovela | RadioNotícia | RadioHistória | Mídia e Preconceito

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    'Expressionante"

    Por volta das 8h30 de hoje, pela primeira vez, percorri o trecho subterrâneo entre a estação paulista e a consolação. E depois, por volta das 12h30, da consolação à paulista.


    'Expressionante'!!!

    Claro, não é novidade pra ninguém o quanto é ruim o sistema de transporte público na cidade de São Paulo. Mesmo quem, como eu, que não utiliza frequentemente ônibus e metrôs, sabe o quanto esse serviço deixa a desejar... E não me refiro ao constante descumprimento dos horários e nem do proposital exagero de passageiros, mas da estrutura mesma da estação, especialmente as acima citadas.

    'Expressionante' – é o mínimo que se pode falar delas!!!

    Andar a passos curtos e obrigatoriamente uniformes, ter que encolher braços e ombros, olhar a nuca de quem está à frente, cuidar dos bolsos e da bolsa... E tudo isso num corredor estreito embaixo da terra [são 300 metros que parecem quilômetros!]... definitivamente, é muita humilhação! É como se fôssemos gado em direção ao matadouro! É desrespeito total!

    Como explicar e justificar uma coisa dessas? Ou será que os 'responsáveis' não sabiam do número de passageiros que circulariam por entre as duas estações??? Francamente!!!

    Aliás, não é de causar espanto a capacidade de certos arquitetos, engenheiros e seus patrões, sobretudo quando 'pensam' e, então, levantam ou afundam suas construções? E quando os prédios são escolas e postos de saúde? E as estações do metrô, os terminais e pontos de ônibus – por que tais edificações têm que ser especialmente feias e tão mal 'pensadas'?

    'Expressionante' – é o mínimo que se pode dizer!!!

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    Não somos nada disso

    É ilusória, deturpada e falsa a ideia de que somos americanos, europeus, asiáticos, africanos ou oceânicos. É enganosa – mais que isso, danosa – a série de divisões e subdivisões geográfico políticas autoritariamente imposta a todos nós. Não somos brasileiros, mexicanos, bolivianos, canadenses, guatemaltecos... Não somos paulistas, cariocas, baianos, acrianos, mineiros, catarinenses... Não somos nada disso.

    América, Ásia, Europa, África e Oceania – assim como brasileiros, mexicanos, bolivianos... e paulistas, cariocas, baianos... – são termos convencionalmente criados para denominar milhares de gentes diferentes e únicas. São mais uma tentativa – vitoriosa, sem dúvida – de acabar com a diversidade que nos caracteriza e de nos fazer aceitar realidades que não nossas. Mais que isso: são mais uma tentativa de apagamento das nossas origens mais antigas. Mesmo assim, não dizendo nada que tenha a ver com essas milhares de gentes diferentes e únicas, são termos que estão aí há séculos, conseguindo fazer o maior estrago.

    Não somos o que aprendemos na escola e o que os meios de comunicação social fazem questão de enfatizar. Escola e mídia, em geral, divulgam apenas o tipo de ciência bancada por interesses específicos, aliás, bem distantes de nossa história mais profunda. Espalham e defendem saberes que têm a ver, isto sim, com um suposto direito de alguns em delimitar territórios, escolher quem pode ou não pode habitar esse ou aquele território, impor uma língua e um jeito de falar, definir qual deve ser sua principal característica cultural...

    Os milhares de grupos humanos espalhados pela terra são essencialmente marcados por particularidades e especificidades que nada têm em comum com aquelas divisões e subdivisões arbitrárias. Cada um desses grupos, por conta da língua e de alguns costumes comuns, tem histórias, trajetórias, objetivos e interesses igualmente diferentes e únicos. Não se parecem – por que teriam que se parecer? Não querem contatos com outros povos – por que teriam que querer? Não se interessam pelas mesmas coisas – por que teriam que se interessar?

    Ora, por que, então, há quem se interesse tanto em juntá-los, nomeá-los, defini-los e classificá-los?

    A ideia de que somos isso ou aquilo é mais uma das tantas mentiras que, desde crianças, ouvimos e somos levados a acreditar. Infelizmente – e sem pensar – a maioria de nós apenas repete o que aprendeu. E assim, de tanto ouvir e falar, o que foi e é insistentemente dito e repetido fica sendo verdade. Os mapas políticos descrevem pouco ou nada do que realmente tem a ver com as origens dos povos. São apenas e tão somente a expressão de vontades e interesses que, por sua vez, não são as vontades e interesses dos que efetivamente ali nasceram e vivem.

    Procure investigar como cada um dos continentes, inclusive a Antártida, recebeu o nome que tem. Observe quem são, de onde são e por quê deram tais nomes a essas terras. Busque saber os porquês dessa divisão e da série de subdivisões. Por que elas são algo assim tão importante? Ou melhor: para quem são importantes essas denominações?

    Graças aos discursos dos ignorantes e/ou dos quem se vendem para ludibriar as pessoas, não faltam teses e matérias audiovisuais e impressas visando impor somente um jeito de nos vermos e nos tratarmos. Até quando vamos admitir como verdade um punhado de coisas que, de tanto serem ditas, parecem ser o que, de fato, não são? Por que não duvidamos do que nos é dito? Mais: por que ao menos não suspeitamos do que insistentemente muita gente quer nos dizer e nos convencer?

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    Tragédia na tela da tevê

    Observe como a mídia oficial/comercial trata as tragédias... Em especial as tevês, o que buscam e mostram? Esbanjam cenas carregadas de dor e da tristeza dos outros – os protagonistas de suas esperadas e, mais que isto, aguardadas narrativas.

    Quem está mais abatido? Quem está sofrendo mais? Qual o melhor ângulo, o melhor enquadramento? E as coisas, os lugares destruídos, as pessoas – especialmente as pessoas? Onde elas estão concentradas? É fundamental que elas apareçam chorando e desesperadas. [quanto mais, melhor!] Tem alguém revoltado e bravo?...

    Há reporter que tem a pachorra de perguntar às vítimas o que sentiram na hora trágica. Embarga a voz e – não importando se são crianças, jovens ou velhas – pede que falem sobre o que elas pensam em fazer daí pra frente... E continua a entrevista emocionada até o momento em que ouve “não há o que fazer”, “é assim mesmo” e “é vontade de deus”... [O máximo! - exatamente o que esperava.] Em seguida, com ar sério e algo preocupado, falam os apresentadores ou âncoras que, em geral, dizem o mesmo que já foi dito e mostrado. Então, tecem alguma consideração que, a rigor, nada acrescenta, para, logo depois, abrirem um sorriso para anunciar a próxima notícia...

    É claro que este modo de tratar as desgraças humanas não é uma novidade inventada pela mídia oficial/comercial. Em particular, os jornais televisivos deixam muito a desejar em matéria de... matérias jornalísticas. Por conta do modelo adotado – que, certamente, “vende bem”; caso contrário, seria outro modelo –, quem nele trabalha aceita, concorda, sustenta e mostra a própria cara no que há de pior em termos de tratamento da informação.

    Muito antes dos negócios mídia oficial/comercial, a igreja católica tratou de “capitalizar” as tragédias e as inevitáveis dores humanas; e não somente ela, mas todas as outras que aparecem a todo momento nas ruas, praças e becos do país. Afinal, com escola tão boa e eficiente, como não aprender? Com exemplos tão edificantes, como não se tornar especialista na cada vez menos sorrateira capacidade de explorar o outro, sobretudo quando ele mais precisa da solidariedade dos seus iguais? Você conhece alguma igreja que, mesmo pregando o tempo todo a preocupação com o homem, não explora justamente a fragilidade humana, em especial a dor provocada pela tragédia? Não dizem elas que o céu não é pra qualquer um, mas somente para os que sofrem sem deixar de frequentá-las e, claro, contribuir com a tal 'obra do criador'? [O que não dizem e fazem para encher a sacolinha?!]

    Mas o que pretendem as empresas que controlam a mídia oficial/comercial? Seguramente, nada que tenha a ver com solidariedade – termo, aliás, que não cabe no vocabulário empresarial. Ao contrário, o que sustenta o sistema econômico que, juntos, mantemos é justamente a exploração do homem pelo homem. No máximo, falamos em 'ajudar' o outro, nos moldes do que a igreja católica difundiu como 'caridade'. Nada mais que isto! Ora, como são empresas [nos tempos mais recentes, as igrejas também funcionam como empresas], ou seja, são formas de investimento de dinheiro, isto é, capital – e capital, se não for transfomado em mais capital, isto é, em lucro, simplesmente desaparece –, a única coisa que interessa é o lucro, o aumento do capital. Portanto, tudo vale. Vale tudo! [A dor é um grande negócio!!!]

    Há muito, sabemos o quanto a dor e a desgraça do outro nos chamam a atenção. É dura e triste essa constatação, mas há como dizer o contrário? Geralmente, as expressões de alegria e felicidade incomodam e geram reações contrárias às expressões de dor e tristeza. Gostamos de festa, mas o que nos envolve e comove mesmo é o luto... Quantos de nós, gratuitamente, nos alegramos com a alegria do outro? O mesmo não ocorre com relação à sua dor; não raro, sofremos com os seus sofrimentos, choramos com ele, não importando se é alguém próximo ou não. Aprendemos a ser solidários na tristeza.

    O fato é que tanto as igrejas como as empresas de mídia sacaram bem essa nossa fragilidade. Mas, sobretudo, contaram e contam com o consentimento da sociedade para operarem dessa maneira. Não fosse assim, as segundas não teriam aprendido tão bem como aprenderam as lições das primeiras e, ambas, não alcançariam o sucesso que se renova a cada dia. São muito parecidas tanto nos propósitos quanto nos resultados... Não partilham os mesmos espaços, buscando o mesmo público? Não vendem as mesmas ideias, produtos e serviços? Não disputam a tapa os mesmos consumidores? Direta e indiretamente, não visam e obtém lucros?

    Há quem diga que a gente se vê na tela da tevê. É possível, já que na tela da tevê muitos se deixam (ou fazem questão de) mostrar, expondo os efeitos da tragédia que resulta da nossa dificuldade de ver a nós próprios como meros consumidores de ideias e valores. Tão embaçadas de água benta, nossas vistas se contentam em contemplar as tragédias na tela da tevê...

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    Quando falta o apoio mútuo

    Há sempre alguém que, pelas mais variadas razões, precisa do outro. Pelos mais diferentes motivos, aceitáveis ou não, há quem dele necessite até morrer. Veja as mães cujos filhos são portadores de grave deficiência física e/ou mental e/ou emocional: quantas delas, várias com idade avançada, não carregam no colo ou nas costas seus filhos adultos em busca de atendimento médico! Como são fortes essas mulheres! De onde tiram tanta energia? Como lutam pela vida dos filhos! Seriam, conforme certos darwinistas, os perdedores na competição pela vida? Seriam os indivíduos mais fracos da espécie?

    Há pessoas que não precisam dos outros por tanto tempo. Mas necessitam – algumas vezes, necessitam bastante – por algum tempo. Não são dependentes de assistência, mas carecem de cuidado e atenção, ao menos durante um período. Caso não sejam atendidos, caso não encontrem a solidariedade, caso falte o apoio mútuo, aí, então, tudo fica muito difícil...

    Restam, então, poucas saídas, dentre elas, a agressão, o sofrimento e a morte.

    Utilizar-se de toda e qualquer forma de agressão ao outro é muito comum a quem se vê – e realmente se encontra – sozinho no mundo. Poderia ele dizer: por que não intimidar, roubar, machucar e até acabar com a vida do outro, já que ninguém liga pra mim? Ou então: por que respeitar quem quer que seja se absolutamente ninguém me respeita? É possível que não haja maior tristeza e solidão do que viver com a certeza de não ser aguardado e querido por alguém... de que tanto faz existir ou não... É possível também que sejam poucos os sentimentos humanos de alguém que é tratado como coisa qualquer.

    Qual é o tamanho do sofrimento para quem o sentir-se humano é coisa rara ou até mesmo um sentimento inexistente? Quanto suporta o corpo e a mente de alguém que se vê como um ser que não é percebido? Sofrimento é o mesmo que miséria, penúria, padecimento; é o mesmo que dor. E nada pode ser pior que a dor dor física e/ou emocional provocada pelo total esquecimento. A dor paralisa e impede qualquer reação.

    Morrer, então, é a última e única saída, é despedir-se de um lugar para o qual nunca foi bem recebido, é dizer adeus a quem jamais percebeu sua existência. Nessas condições, morrer é, sobretudo, ato de descanso para quem o tempo de viver não foi o tempo da convivência humana. Infelizmente!

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