26/05/16

Para ler o mapa do céu

Antes de anotar os dados e traçar sua carta natal, penso que é fundamental prestar atenção a duas situações – difíceis, sem dúvida, mas necessárias. Caso não consigamos dar conta delas, convém encaminhá-las, dada a importância que têm no que chamo astrofilosofia.


A primeira:
  • o que faz você supor que os milenares saberes da astrologia têm algo a dizer sobre seu modo de ser e de agir? 
  • que sentido tem pra você a interpretação de símbolos portadores de múltiplos significados?
  • o que você espera do exercício de leitura, compreensão e interpretação do texto denominado mapa astral?
Se as respostas levarem ao campo da curiosidade, há um caminho interessante a percorrer. Enveredar pelas tramas das narrativas míticas é uma coisa muito gratificante. Diga-se o mesmo das interpretações possíveis das relações entre os corpos celestes. Saber das coisas é fundamental para conhecer o mundo.

Se as respostas levarem ao domínio do conhecimento de si mesmo, os caminhos são mais complexos, pois trilhar as veredas do eu, além de gratificante, é surpreendente. Tomar a si mesmo como objeto de conhecimento é o mesmo que moldar a argila e, ao mesmo tempo, perceber-se como algo já moldado. Para saber de si mesmo é necessário mergulhar na própria história.


A segunda tem a ver comigo:
  • expor com clareza o que pretendo
  • o tipo de abordagem que faço e 
  • como posso colaborar com você, trazendo informações sobre sua carta natal.
Tenho como objetivo contribuir com as pessoas para o conhecimento de si mesmas. Vejo e trato os saberes milenares de modo astrofilosófico, isto é, como produções humanas e racionais – bem distante, portanto, das interpretações históricas da filosofia que consideram, por exemplo, o mítico como pré ou anterior ao conhecimento filosófico. Entendo que estudar e 'ler o mapa astral' de alguém é apresentá-lo como um texto racional e crítico, que pode contribuir pra que a gente se perceba como indivíduo [único e indivisível] capaz de tornar-se sujeito da própria história. 

Então, caso tenha interesse em 'fazer filosofia', como bem pontua Kant, e queira tomar como referência o oráculo de Delfos no templo de Apolo – 'conhece-te a ti mesmo' –, esteja certo de que, para mim, será um prazer navegar pelas anotações, há milênios coletadas, sobre nossas florestas, campos, jardins, montanhas, mares e oceanos interiores e, assim, trazer à tona informações que, se a gente quiser, podem alterar substancialmente nosso presente. Afinal, é isto que vale: o momento presente. 

Meu endereço é donizetesoares@gmail.com

25/05/16

Música popular ou de 'entretenimento'

Quando pensamos e nos posicionamos de modo crítico, quando colocamos sob suspeita ou em dúvida a fala, a idéia, a música... então, qualquer conversa fica diferente da que estamos acostumados.

Não somente olhamos, falamos e ouvimos de outra maneira, mas nos posicionamos tanto frente a nós próprios como frente ao mundo de outra maneira: mudamos o ponto e, então, mudamos a vista.

 
Sobre a música popular ou de 'entretenimento', por exemplo, há muito que pensar e dizer. Num tipo de convivência social como o nosso, em que tudo gira em torno do deus cifrão, o que pretendem os negociantes de algo que agrada a maioria das pessoas? O que há ou pode haver de tão interessante – leia-se lucrativo – na atual produção e comércio dos cantadores de samba, rock, gospel, sertanejo, musiquinha de corno etc?
 
Vale ler o que escreveu Theodor Adorno, filósofo alemão que viveu no século passado, em meio às duas guerras e o nazismo de Hitler:

  • Ao invés de entreter, parece que tal música contribui ainda mais para o emudecimento dos homens, para a morte da linguagem como expressão, para a incapacidade de comunicação. A música de entretenimento preenche os vazios do silêncio que se instalam entre as pessoas deformadas pelo medo, pelo cansaço e pela docilidade de escravos sem exigências.(...) A música de entretenimento serve ainda — e apenas — como fundo. Se ninguém mais é capaz de falar realmente, é óbvio também que já ninguém é capaz de ouvir.[*]

A grande maioria dos hitizinhos que rolam por aí, nacionais ou internacionais, não é somente um gênero musical; vai muito além: simboliza um processo de comercialização de atitudes, idéias e comportamentos. São práticas que realizam ideias extremamente favoráveis a um grupo social. Fazem parte do que pode ser chamado 'indústria cultural'.
 
Ou seja, assim como a indústria cria e fabrica bens materiais, tipo roupas, comidas, remédios, carros e tantas quinquilharias altamente rentáveis, a indústria cultural  preserva ou cria bens simbólicos ou imateriais. Esses bens, igualmente rentáveis, representam coisas que, atendendo necessidades ou carências e sonhos ou fantasias, servem justamente para escravizar as pessoas.
 
Não por acaso, a lógica da produção dos dois tipos de indústria é a mesma: se produzir milhares de carros com a mesma estrutura e apenas mudar a lanterna, a maçaneta e o painel significa baratear a produção e aumentar o lucro das montadoras, o mesmo acontece com a indústria da música popular: a indústria cultural definiu a estrutura: letra + música, duração, tipos de instrumentos, temas a serem explorados, timbre de voz mais adequado, 'artistas' que devem se apresentar dessa ou daquela maneira... e pronto! Quem não estiver de acordo, fica fora. Quem fizer o que 'o mestre mandou', faz sucesso. E, claro, o lucro aumenta.

Vale dizer: o que importa mesmo é que os hitizinhos cumpram o seu papel: fazer circular os bens simbólicos que convém aos que não querem saber de posicionamento crítico algum.

[*] In: O fetichismo na música e a regressão da audição. Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1980

11/05/16

Palavras e ações

Ações realizam ideias.
Ideias são formadas por palavras.
Bem ditas ou mal ditas, as palavras criam pensamentos.
Pensamentos dirigem ações.
 


 Imagina o cenário
  • uma terra pantanosa
  • cavalos selvagens e éguas ferozes botando o maior terror e procriando sem cessar
  • pessoas trêmulas de medo e desesperadas

Pra esse lugar 'tranquilo', Héracles foi enviado, uma vez que, há tempos, quem vivia por alí não tinha nenhum sossego, não sabendo mais o que fazer para não morrer.

Héracles devia capturar as éguas porque, além de antropófagas, geravam cavalinhos igualmente selvagens. Claro que não geravam sozinhas, mas se fossem apartadas dos cavalos, a terra pantanosa se veria livre do mal que a devastava.

Inteligente e estrategista, Héracles traçou os planos, convidou um amigo e partiram pra realizar a ação. Passaram pelos cavalos,  localizaram e prenderam as éguas. Trancafiadas e acorrentadas e não tendo como se mexer, alí ficaram. Os amigos, por sua vez, fizeram festa pelo sucesso da empreitada.

Tão animado e satisfeito consigo mesmo, Héracles achou que não deveria levar as éguas para o dono da terra pantanosa, uma vez que o mais importante – capturá-las – ele já tinha feito. Decidiu, então, que o amigo fizesse, por ele, o que a ele cabia. Acontece que o amigo não era suficientemente forte e corajoso e, por isso, não deu conta do serviço: as éguas o mataram e fugiram.

Triste, abatido, cheio de dor – e sem perceber que deixara o amigo morto no chão – Héracles foi em busca dos cavalos e os prendeu e os levou para que fossem domesticados. 

E o povo, claro, reconheceu, agradeceu e o aplaudiu pelo grande feito. Nada disso, entretanto, deixou Héracles alegre e feliz, afinal foi ele o responsável pela morte do amigo.

Considere
  • toda ação começa na cabeça
  • alimentada pelos pensamentos, a mente 'funciona' o tempo todo
  • palavras mal ditas geram ideias destrutivas e ações que promovem a morte

07/05/16

Baixando a bola

 

Denunciar, acusar e condenar o outro é fácil. Experimente se olhar no espelho. 




Há momentos na vida das pessoas em que seus medos, inseguranças e outros sentimentos saem sabedeus de onde. Explodem e botam pra fora o que habita suas entranhas. É quando, por exemplo, alguém próximo da gente cometeu um delito muito grave e a gente diz: 'ninguém acredita que ele [ou ela] tenha sido capaz de fazer isso'.  

Mas foi e fez! Do mesmo modo que qualquer um de nós, vivendo situações semelhantes, pode fazer. E fazer mais e mais e pior e pior.

Quando isto acontece, não raro, causa os maiores danos nas vidas das pessoas. Delas e nas nossas. Elas sofrem muito, assim como as que lhes são próximas e, de resto, todos nós sofremos com elas. Não por acaso, somos todos feitos da mesma matéria e, portanto, tanto quanto elas, qualquer um de nós é capaz de promover todo tipo de estrago.

Ou seja, 

  • não dá pra ninguém se achar o máximo – somente os estúpidos se consideram cobertos de razão
  • não dá pra enaltecer quem quer que seja – somente os muito ingênuos colocam a mão no fogo por alguém
  • não dá pra desprezar seja lá quem for – somente os babacas não percebem que, quando apontam um dedo pro outro, há outros três dedos da própria mão apontando pra ele mesmo [veja isto]

Convém, então, baixar a bola. Nada de chutão. O jeito é aprender a quicar baixinho.  

27/04/16

Democracia brasileira

Estamos longe, mas muito longe mesmo, da ideia e das práticas de democracia. Da ideia, porque a maioria de nós ainda não resolveu pensar o conceito e investigar sua história. Das práticas, porque as experiências que vivenciamos têm se mostrado lamentáveis.

O máximo de democracia que temos é votar a cada dois anos. Obrigados a exercer o direito de votar, os eleitores, em geral, fazemos o nosso papel e voltamos pros nossos afazeres, pouco nos importando com as decisões que acabamos de tomar. Por sua vez, os eleitos, grande parte deles sem votos suficientes e, portanto, desconhecidos, são 'puxados' por candidatos 'populares'. Ora, sem reais compromissos assumidos, por que se interessariam pela população? E os eleitores, sem reconhecê-los, por que se importariam com eles? Há também uns e outros que ocupam espaços de poder há décadas. O que não é raro, inclusive, é avô, filho e neto terem o mesmo nome e sobrenome pra, digamos assim, 'lembrar' seus eleitores nas próximas eleições. Pois é! E ainda há quem diga que o coronelismo é coisa do passado!

Ora, ora, se são políticos profissionais, então democracia é o que menos lhes interessa. Não é?

Em sendo assim, ao que parece, não há como evitar que façam conchavos, acertos, negociatas etc. É possível que qualquer um, ocupando o lugar deles, também fizesse ou faça o mesmo. É possível também que haja quem não queira se agrupar, jure seriedade pra si mesmo e pros seus eleitores, mas o fato é que é muito difícil construir e sustentar discursos e práticas minimamente coerentes nesse cenário. Se adicionarmos o peso e a força dos partidos financiados por empresas ou por quem quer que seja, então, os ideiais de 'liberdade, igualdade e fraternidade', que bancam o ideário da democracia moderna, não têm a menor condição de um dia se tornar realidade.
 
Ou seja, tudo indica que o sistema representativo brasileiro foi implantado para funcionar assim mesmo: promover discursos democráticos e realizar práticas avessas à democracia.

Talvez isso mude quando decidirmos pensar o conceito, investigar sua história e, juntos, assumirmos nosso destino.

Caso contrário, nada se altera. A tendência, portanto, é que, no máximo, a democracia brasileira continue a ser o que é.