14/01/2017

Imagens dos 12 signos

Caso ainda não conheça, sugiro que dedique um tempo a cada uma das imagens abaixo.  São criações especiais de um pintor holandês chamado Johfra Bosschart, que viveu entre 1919 e 1998.

Mitologia e Astrologia são as áreas que, de acordo com os estudiosos de sua obra, ele explora na maturidade. Nos anos 1974 e 1975 ele produziu uma série de pinturas sobre os 12 signos do zodíaco. Suas obras têm a ver com estudos de psicologia, religião, referências bíblicas, astrologia, antiguidade, magia, feitiçaria, mitologia e ocultismo.

Leia o que ele diz sobre esse trabalho em 1981: 
  • "Quando recebi a incumbência de pintar pôsteres dos doze signos astrológicos da Verkerke produções, em 1973, eu sabia que seria inútil adicionar ainda mais exemplos para as muitas centenas de representações que já existiam. Então eu decidi fazer emergir todas as possíveis facetas dos signos através de uma breve meditação e contemplação da figura básica, a qual se torna o principal ponto de concentração. Os diversos símbolos relacionados a um determinado signo, reunidos juntos em uma composição harmoniosa, dariam a cada pintura mais profundidade; eles ofereceriam mais possibilidades ao observador para suas próprias livres associações."

Vale parar e contemplar, principalmente porque tod@s nós temos todos os signos em nossa carta natal. Então, deleite-se!!!












03/01/2017

Mito, razão e autoconhecimento

As narrativas fantásticas - ou mitos - que a humanidade inventou e inventa no decorrer da história buscavam e buscam compreender de onde viemos, o que estamos fazendo aqui e para onde vamos.

São uma forma interessante que conseguimos elaborar na tentativa de explicar e entender a nós mesmos e o tempo em que vivemos. Estudá-las, portanto, é mais que exercitar a natural curiosidade que nos caracteriza. Compreendê-las é uma necessidade, posto que falar sobre elas é dizer de cada um de nós.

público
Especialmente destinado a jovens e adultos, os encontros tratam com profundidade uma série de temas importantes para quem está em busca e/ou já envolvido em processos de busca do conhecimento de si mesmo ou de individuação, conforme Jung.

objetivo
Estabelecer relações entre a trajetória do herói grego e os doze signos.

conteúdos

controle da mente
natureza dos desejos
conhecimento de si próprio
desenvolvimento da intuição
aprender a utilizar o poder e a coragem
consciência de si mesmo
compreensão/integração: equilíbrio dos opostos
controle e superação dos desejos
fim das tendências: uso do pensamento destrutivo
elevação da personalidade
serviço de limpeza e purificação com água
transcendência da animalidade

duração
12 horas divididas em 4 encontros de 3 horas cada

coordenação
Donizete Soares, professor de filosofia

responsável
INSTITUTO GENS [desde 1988]

inscrições
clique aqui

dia 10 de janeiro, terça, apresentação gratuita do curso

O curso acontecerá nos dias 17, 19, 24 e 26 de janeiro, das 19h30 às 21h30

31/12/2016

Lua, oh! lua!


...tu que vagas por muitos lugares sagrados e és objeto de tantos ritos diferentes — tu, cuja luz feminil ilumina os muros de todas as cidades, cuja radiância nebulosa embala as bem-aventuradas sementes sob o solo, tu que controlas o curso do Sol e o próprio poder de seus raios — eu te imploro, por todos os teus nomes, todos os teus aspectos, todas as cerimônias em que condescendes em ser invocada... dá-me repouso e paz…”  
[Lúcio Apuleio, escritor romano – século II d.C]

Quando observamos a Lua na carta de nascimento, encontramos muitas informações preciosas. Dentre elas:
  • a lua funciona como algo que recebe tudo o que vivenciamos; tudo converge para o ‘útero da Lua’ ou, quisermos, para a memória: tudo o que vivemos e nos lembramos de agradável ou nem tanto está guardado no que podemos chamar de ‘caldeirão da deusa’
  • a lua representa nossos sentimentos, hábitos, coisas que fazemos sem pensar; o sub e o inconsciente pessoal carregado de padrões de sentimentos e ações que, em geral, dirigem o que sentimos e como agimos no presente
  • a lua simboliza a mãe, a mais importante relação sentimental que experienciamos
  • a lua tem a ver com o útero, o modo como fomos criados no início da vida e, portanto, com o amor que recebemos ou deixamos de receber, em especial, da mãe
  • a lua nos diz sobre a primeira parte de nossas vidas
  • a lua refere-se à formação dos instintos inconscientes que, sabendo ou não da existência deles, regem nosso comportamento
  • a lua representa a rede de sentimentos inconscientes
Observá-la, compreendê-la e, sobretudo, interpretá-la contribui – e muito – para o conhecimento de nós mesmos.

24/12/2016

O mito Jesus

Comemoração é o mesmo que ação de um grupo de pessoas que, juntas, re-lembram um fato importante. O nascimento de Jesus é um deles.

O que leva o grupo dos cristãos a se lembrar dessa data é o natal ou nascimento de um homem que, depois de saber de si e de constituir-se como indivíduo, foi capaz de doar sua própria vida em favor dos outros. Ou seja, a certeza de que houve alguém que desenvolveu a capacidade de pensar e agir para além de si mesmo.

Teoricamente, esta é a razão pela qual muita gente comemora o natal de Jesus. Ou melhor, seria este o motivo que levaria as pessoas fazerem festa, já que de uma forma ou outra são tocadas pelas ideias e ações daquele homem.

Seria e levaria, mas não é. E não porque eu não queira ou ache que não é. Não é porque, em geral, o que sabemos e vemos são pensamentos e ações totalmente opostos ao que disse e fez o aniversariante.

A história comprova que, desde o surgimento do cristianismo – ou conjunto de ideias e ações que serve a interesses econômicos, políticos, sociais e culturais muito mais que a interesses religiosos –, o ideal ‘doar a própria vida em favor dos outros’ sequer é ao menos lembrado. Tudo indica que seus líderes e seguidores que, em geral, decoraram essa ou aquela passagem de sua vida, não se lembram da mais importante – e revolucionária – mensagem.

Há algo mais perverso, por exemplo, do que justificar a escravidão de milhões de negros durante séculos no Brasil? De dizer que, como não tinham alma, era permitido que fossem espoliados, maltratados e mortos? E os inúmeros casos de pedofilia comprovadamente praticados pelos padres e congêneres? E a mercantilização das igrejas atuais, que vivem de vender missas, batizados, bençãos, cd’s, shows e outros serviços? O que, afinal, coisas como essas têm a ver com o nascimento do Jesus?

É inevitável constatar mas, a rigor, não há sentido algum comemorar o natal. Sei que é pesado dizer isto mas, a não ser pra reunir a família e os amigos – o que, a princípio, é sempre bom e saudável – pra que serve essa ‘festa’ se, de fato, não há o que comemorar? Comer, beber, atualizar fofocas e lembrar ‘coisas engraçadas’ que aconteceram preferencialmente com os outros, em especial, os que eles se deram mal – é isto o que tem pra ser comemorado?

Infelizmente, ainda estamos longe da real possibilidade de fazer de nossas vidas um serviço a quem quer seja. Ainda olhamos, pensamos e agimos muito em função do que esperam e querem de nós mesmos – o que, certamente, não tem nada a ver com o que pensamos e queremos pra nós mesmos.

Em outros tempos, e assim como em outras culturas, celebrar o mito era e é uma forma de cada um se fortalecer e, ao mesmo tempo, fortalecer o outro pra que, juntos, dessem e dêem conta da força e da coragem que tinham e têm pra serem senhores de si mesmos para, então, caso fosse ou seja necessário, doar a própria vida pra que o outro viva.

10/11/2016

E sua vocação, qual é?

La aurora, 1885 by Camille Claudel
Vocação quer dizer chamado; vem do latim 'vox', o mesmo que voz, grito, fala. Mas não chamado de alguém, como deus, família, 'sociedade' ou mercado. Vocação não é chamado de fora pra dentro. Não tem a ver com profissão e nem com fazer algo para o outro, a fim de favorecê-lo ou 'ajudá-lo'.

Esta ideia equivocada, aliás, é uma daquelas que serve, isto sim, para a pessoa fugir do que, inevitavelmente, todos nós ouvimos de nós mesmos desde a mais tenra idade: 'por quê e pra quê você nasceu?', 'o que você está fazendo aqui?', 'que sentido tem a sua vida?'.

Vocação tem a ver com chamado interior, de mim para mim, de você para você. É o mesmo que ouvir-se e prestar atenção em si mesmo. Atender a esse chamado é dar conta de uma necessidade interna, isto é, dar atenção a uma carência [algo que falta] que é somente minha, sua, de cada um. Ou seja: ouvir o chamado interior é atender a uma necessidade individual, é atender a um chamado de dentro pra fora. Somente assim será possível, então, ouvir e atender aos apelos do outro, seja ele quem for.

Caso você e eu não atendamos à nossa vocação, podemos até ganhar dinheiro, fama, reconhecimento... mas nas poucas vezes em que nos encontrarmos conosco mesmos, é bem possível que não seja algo bom. Sim, porque atender ao que os outros querem, responder ao que eles perguntam, servir aos interesses deles, seguramente, deixa qualquer um aparentemente realizado, rico, famoso... mas simplesmente insuportável na convivência diária justamente com quem, supomos, sejam as pessoas que mais amamos. E o que é pior: profundamente infeliz.

***

A leitura, compreensão e interpretação do mapa astral dá pistas pontuais sobre quem somos, de onde viemos e, se quisermos, pra onde podemos ir. Indica áreas da vida em que somos potencialmente fortes pra agir e outras nem tanto. Sugere o que pensar e como abordar o mais desconhecido de todos os seres: este que cada um de nós imagina que é.

01/11/2016

Apresentando-me

Olá! Meu nome é Donizete Soares. Moro na cidade de São Paulo. Sou professor de filosofia e co-responsável pelo INSTITUTO GENS.

Fiz graduação em filosofia na segunda metade dos anos de 1970. Desde então, trabalho com Educação e Filosofia. Fui professor em vários colégios, faculdades e universidades. Ultimamente, tenho atuado em educação não formal.

Decidi trabalhar com Filosofia e Astrologia. Isto mesmo! Juntei duas áreas de conhecimento, em geral, apresentadas como diferentes e até mesmo contraditórias. Optei por entender, diferente dos 'acadêmicos', que Mito não antecede Razão: o primeiro não é menos que o segundo; ambos expressam a capacidade humana de inventar e alterar o mundo. Dessa junção, resultou o que chamo e entendo por Astrofilosofia. Contei o desenrolar desse processo aqui.

Penso que distanciar áreas do conhecimento é mais uma das tantas bobagens de gente que, de tão fora de si mesma, ocupa-se mais em dividir do que somar, separar do que juntar, trapacear do que esclarecer... coisas de um tempo em que as pessoas, em geral tão necessitadas de acumular coisas e ideias, esquecem-se que viver é o tempo de conhecer, de saber de si, do outro, do mundo. Sobretudo, é tempo de compreender por que nasceu, o que está fazendo aqui e o que pode fazer.

Dessas coisas me ocupo. É com isso que trabalho. Ideias como essas habitam minha cabeça. Com elas vivo, e disseminá-las é o meu propósito: divulgar essa real possibilidade como estética da existência é o que me interessa nos anos que me restam. Entendo que colar pensamento e vida é o grande desafio!

Caso tenha interesse neste tipo de conversa, que não é outra coisa senão iniciar e/ou aprofundar processos de conhecimento de si mesmo [ou de individuação, como diz Jung], me disponho a, juntos, fazermos Leitura, Compreensão e Interpretação de sua carta natal [ou mapa astral] e ministrar aulas particulares, encontros e cursos de filosofia para pequenos grupos.

Um dos temas que considero especialmente interessante é Os trabalhos de Héracles – uma relação entre a trajetória do herói grego e os doze signos. Outro é estudar cada um dos pré, socráticos e pós do período grego sem desconsiderar, é claro, tantos outros que antes de nós teceram memoráveis considerações sobre eles. Mergulhar nas representações da Lua sobre a formação e manutenção da nossa personalidade, assim como em cada um dos corpos celestes é, sem dúvida, muito gratificante.

Enfim, o que quero é fazer filosofia, isto é, tratar temas como esses de modo racional e crítico e, assim, contribuir para que cada um descubra em si mesmo o ser que quer, pode e consegue ser.

É isto!

ET: leia também Pra ler o mapa do céu

20/10/2016

Educação não é educação escolar

Educação e educação escolar são coisas distintas. Uma não tem nada a ver com a outra.   

Educação é fenômeno social, isto é, expressão das necessidades e sonhos de cada um dos inúmeros e diferentes grupos humanos espalhados no planeta.

Tem a ver com  adultos e jovens recuperando, inventando, traçando e seguindo caminhos que lhes permitam viver do jeito que querem. Nada parecido, portanto, com algo normatizado, regido e avaliado. Educação é muito mais do que, equivocadamente, é chamado de educação escolar.

Escola ou skholé foi mais uma invenção interessantíssima dos gregos antigos. Era um lugar pra 'não fazer nada', espaço de lazer, de bater papo, de longas conversas. Lugar de encontro de homens livres ocupados com questões mais importantes do que comer, beber, dormir, cagar... e comprar. A skholé era lugar pra pensar a vida e os modos de viver. Lugar de fazer filosofia. Nada parecido, portanto, com a escola atual, que se confunde com espaço destinado a prender, vigiar e controlar – em especial, crianças, adolescentes jovens – para que não conversem, que façam silêncio, que sejam 'comportados' e, sobretudo, que não pensem por si próprios.

Ora, reduzir Educação à educação escolar é participar de um jogo perverso. É não perceber que os sistemas de ensino – longe de estarem ocupados com o que dizem estar e mais distantes ainda do que a maioria das pessoas imagina e acredita – atendem a interesses de apenas um grupo social. É não entender que a educação escolar – independemente desse ou daquele governo, ou dessa ou daquela pedagogia, ou desse professor e daquela professora – forma pessoas adequadas a um único modo de viver que, assim como a vida, não deve ser questionado. É não compreender que a escola atual – qualquer que seja sua orientação ideológica – tem compromisso não com a formação de indivíduos, mas de técnicos seguidores de manuais preparados por 'especialistas' tão controlados quanto eles. Ilusão pensar que a educação escolar forma cidadãos!

Ora, ora, sem filosofia, isto é, sem exercício racional e crítico sobre a vida e os modos de viver, não há Educação.

 
Em tempo


Penso que é importante fazermos essa distinção entre Educação e educação escolar. Compreendê-la pode alterar significativamente o modo lidamos conosco mesmos e com os jovens, em especial os que nos são mais próximos. O que nos faz acreditar que um mesmo tipo de educação seja indicado e válido para todos e cada um de nós? Quem disse que a educação escolar é a redentora da sociedade? O que significa afirmar que, em nosso contexto, somente a 'educação' pode levar o país ao desenvolvimento?

Sei o quanto é chato constatar que a educação escolar não tem o menor compromisso com o desenvolvimento individual das pessoas, embora sejam muitos os professores e as professoras que, inadvertidamente, afirmem ser essa sua intenção. Pior ainda é constatar que as escolas, incluindo recursos materiais e humanos pagos com dinheiro da população, servem apenas para manter e dar sustentação aos interesses de um grupo social.

Contudo, se ainda não nos demos conta disso, e nem sabemos como alterar esse quadro, sei também que são reais as possibilidades que, juntos, retomarmos o princípio da skholé enquanto espaço de conversa. Desde que não façamos o jogo perverso da pedagogia tecnicista, que ensina fazer coisas mas não pensar sobre elas, tanto a casa como a escola podem, se quisermos, ser espaços de conversação sobre a vida e os modos de viver. Mais: de fazer filosofia porque, sem ela, não há Educação.

15/10/2016

Sem noção

'Ganhar' 1, 3, 5, 10 ou mais salários mínimos não faz ninguém mais ou menos 'rico' ou 'pobre'. Faz piões ou meros auxiliares de quem, aí sim, ganha às suas custas.

Do mesmo modo, ser 'proprietário' de terra, comércio, fábrica ou algum tipo de serviço – e nunca ter sentado à mesa com quem decide os rumos da economia – não faz ninguém 'empreendedor' ou 'empresário'. Faz, isto sim, algo parecido com mola propulsora que sustenta e impulsiona quem ocupa lugares que jamais serão dele.

Como ainda não percebem que são surrupiados na divisão da riqueza coletivamente produzida, 'piões' e 'molas' tomam a desastratada decisão de remedar os que faturam com a sua ignorância. E porque ainda não entendem os 'lances do jogo', acreditam que imitar os 'vencedores' faz com que se aproximem ou sejam iguais a eles.

Ostentar carro, joia, casa, roupa ou qualquer objeto de luxo, isto é, mostrar-se como 'rico' quando na real é 'pião' ou 'empreendedor/empresário' é fazer um papel ridículo.

Querer ser ou parecer ser o que de fato não é, ou seja, exibir-se à espera de elogio e reconhecimento é sentir/pensar/agir feito baba-ovo, puxa-saco, lambe-botas, bobo-alegre.

É sobretudo reconhecer e valorizar o papel de mero auxiliar ou peça da máquina que sustenta, impulsiona e garante os lugares dos poucos que decidem quem deve ser 'pobre' ou quem deve ser 'rico'.

28/09/2016

Futebol e Democracia


Muito antes do nosso tempo, o futebol já existia. Há mais de 2 mil anos, chineses e japoneses, gregos e romanos já batiam uma bola.

Democracia também: quem a inventou foi um grupo de comerciantes insatisfeitos por serem impedidos de participar das decisões sobre a cidade de Atenas, atual Grécia. Tal grupo fez e aconteceu e, de fato, a governou por algum tempo.

Séculos e séculos mais tarde, a burguesia, outro grupo igualmente insatisfeito por não governar a cidade, destronou reis e assumiu o controle da economia, da cultura, da política. E, de fato, desde então, há pouco mais de 200 anos, é quem dita as regras. Dona dos meios de produção e da riqueza socialmente produzida, é ela quem define os rumos da política entendida como condução da vida coletiva.

***

Isto foi e continua sendo possível graças a pelo menos dois feitos importantes apoiados em sustentação teórica amplamente reconhecida e, claro, muito investimento. O primeiro tem a ver com a recuperação e adaptação da invenção dos atenienses, acrescentando 'representativa' ao termo 'democracia'. Assim, ela faz parecer que é o povo quem comanda a política e, ao mesmo tempo, diminui drasticamente o número de quem efetivamente decide. Diferente dos 10% cidadãos da antiga Atenas, que não garantiram a continuidade da 'democracia', e apostando em eleições regadas com dinheiro público e privado, a burguesia tem se mantido no governo das cidades através da 'democracia representativa'.

O segundo tem a ver com esporte que, além de receber novas regras e procedimentos, tem a missão de ensinar e reforçar o seu mais importante valor: a competição. Tal como o processo eleitoral que, longe de distração, diversão ou jogo, especialmente o futebol, deve ser visto e tratado como negócio no sentido mais forte do termo: negação total do ócio. Investir em corpos e mentes, a fim de que promovam retorno de bilhões de reais, dólares, euros ou outra moeda qualquer é o grande negócio.

Não é por acaso, portanto, que milhões de pessoas se encantem com a bola em campo. Nem que diversos campeonatos aconteçam o tempo todo nos mais diferentes lugares. Nem que as torcidas chorem, vibrem, briguem, matem-se, façam festas e emocionem até mesmo quem se recusa aceitar jogadas admiráveis de uns e outros escolhidos a dedo pra se tornarem astros.

Ao contrário, ações como estas são profundamente educativas e altamente rentáveis. Por isso mesmo, o que não falta é dinheiro – muito dinheiro! – envolvido nisso tudo. Ilusão acreditar no 'que vença o melhor' ou pensar que 'o jogo acaba quando termina'. O ato de jogar, o lugar no pódium, a taça ou a medalha são apenas alguns momentos dos vários jogos que começam muito antes e terminam muito depois da hora marcada. Negócio é negócio!

Como os resultados desse investimento foram e continuam sendo muito positivos em todos os sentidos, particularmente o financeiro, o esporte serve como modelo educacional do tipo de relações humanas e sociais que interessa. Nada mais efetivo, então, do que promover competições, fazer com que uns e outros se posicionem frontalmente o tempo todo. É fundamental que atletas, assim como eleitores, se esforçem ao máximo na disputa de cada lance na arena e na vida e que, finalmente, apenas alguns sejam vencedores.

Assim, quanto mais ações competitivas ou pedagógicas, quanto mais enfrentamento pautado em técnicas educacionais, tanto mais retorno econômico positivo pra uns e aprendizagem efetiva da população quanto aos modos como se deve pensar e agir. No mínimo, estas ações ensinam que somente uns poucos nasceram para vencer, que a maioria das pessoas é incompetente e que o sucesso não é pra qualquer um.

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E a democracia? Para a burguesia atual – algo como 1% da população – é o melhor negócio de todos os tempos, tendo em vista que a maior parte de toda riqueza produzida no mundo está em suas mãos. Ela simplesmente pode tudo e o mundo todo – economicamente, ao menos –, depende dela. Como tem quem a justifique e sustente, é ela quem decide e determina, de acordo com seus interesses, quem, onde e como devem viver os povos, o que cada um deles pode ou não produzir e consumir e quem deve governá-los. Exagero? Bom seria se fosse! 

Abaixo estão os que diretamente dependem dela e, portanto, não fazem nada sem o seu consentimento e aprovação. Como acalentam o sonho de integrar o seleto grupo, esforçam-se para se parecer com o grupo que ocupa o topo da pirâmide e, tanto quanto podem e conseguem, buscam imitá-lo. Não medem esforços pra se aproximar dele, mesmo sabendo que corporações são um tipo de instituição que não tem rosto; com elas, não há com quem falar, mas somente o que negociar. E é justamente o que fazem, seja lá o que isso significa e o custo que tenha. A fim de garantir seus lugares o mais próximo possível dos 'donos do mundo', esses grupos, chamados de média e pequena burguesia, não poupam esforços tanto para imitar quem os inspira, quanto para que a absoluta maioria das pessoas, seus eleitores, também os imitem.

Mais abaixo e até à base da pirâmide estão os e as responsáveis pelas condições econômicas de bilhões de seres humanos na atualidade. São eles que, conscientemente ou não, permitem a concentração das riquezas coletivamente produzidas. São eles que, sabendo ou não, acatam as decisões e determinações do topo da pirâmide. São eles que, gostando ou não, balançam os berços dos segundos, fazendo todos os seus gostos. São eles que, sem se darem conta, tratam a si mesmos como inimigos que brigam e se perseguem... e se matam. São eles que, longe de si mesmos, pensam e agem de acordo com o que querem que pensem e ajam, que justifiquem e sustentem o tipo de convivência social e política que atende aos interesses de uma minoria.

***

Negar o ócio era algo inadmissível para os inventores da democracia. Para fazer política ou 'cuidar da cidade', diziam, era preciso ter tempo livre e, de fato, dispunham, já que o que não faltava era escravo pra se ocupar do sustento e da manutenção de suas vidas. Os jogos, por sua vez, teriam sido uma invenção dos deuses. Por isso, de tempos em tempos, os humanos, em especial os cidadãos atenienses, faziam festas religiosas e as dedicavam a Zeus.

Muito tempo depois, quando a burguesia decide ser o que eram os atenienses na antiguidade, ela recupera e atualiza o futebol e a democracia. Pautada pelo seu valor maior, a competição, faz deles a motivação e o modelo do tipo de convivência social conveniente pra ela. Investe milhões e milhões de dinheiros e tem retornos admiráveis. Conta com o apoio da média e pequena burguesia e, sobretudo, com a conivência da maioria da população que lota estádios, dá créditos aos meios de informação e acredita que, votando em seus representantes, melhora a vida.

15/09/2016

Coisa de moleque

Quando eu era moleque, quase não tinha bola de futebol. Ao contrário de hoje, havia muitos campinhos, ruas e praças eram espaços livres, mas bola mesmo, de couro ou mesmo de plástico, bem poucos tinham. Quando aparecia alguma de capotão, ainda que muito usada e mal costurada, era uma festa.

Então, se quisesse jogar 'futebol de verdade', com bola boa, a gente teria que ser amigo do dono da bola – um dos presentes mais aguardados no natal ou no aniversário. Era ele quem decidia como tudo devia acontecer: quem jogava com e contra quem, qual lado seria desse ou daquele time, quem iniciava o jogo etc. Claro que ele chamava pro seu time os que jogavam melhor, decidia qual equipe jogava com ou sem camisa e também quais seriam as regras da partida.

Por estas e outras, todos o 'respeitavam'…  Já que o que mais importava era jogar bola, valia a pena deixá-lo pensar que ele era o cara…

Mas quando o outro time, seu adversário, estava ganhando a partida, acontecia o que todos já sabiam: ele pegava a bola e acabava o jogo. Não queria brincar mais. Incorfomado, chateado e puto da vida, o garoto decidia que não tinha mais jogo.

Não menos chateados e putos da vida, os outros lamentavam o ocorrido, trocavam ofensas entre si, chamavam o dono da bola de filhinho-de-papai e iam fazer outra coisa. Não raro, um monte de camiseta enrolada e amarrada com barbante virava alguma coisa parecida com a bola, e o jogo continuava.

Esta história me vem à cabeça toda vez que leio, ouço e vejo o que ocorreu nas últimas eleições presidenciais.