28/09/16

Futebol e Democracia


Muito antes do nosso tempo, o futebol já existia. Há mais de 2 mil anos, chineses e japoneses, gregos e romanos já batiam uma bola.

Democracia também: quem a inventou foi um grupo de comerciantes insatisfeitos por serem impedidos de participar das decisões sobre a cidade de Atenas, atual Grécia. Tal grupo fez e aconteceu e, de fato, a governou por algum tempo.

Séculos e séculos mais tarde, a burguesia, outro grupo igualmente insatisfeito por não governar a cidade, destronou reis e assumiu o controle da economia, da cultura, da política. E, de fato, desde então, há pouco mais de 200 anos, é quem dita as regras. Dona dos meios de produção e da riqueza socialmente produzida, é ela quem define os rumos da política entendida como condução da vida coletiva.

***

Isto foi e continua sendo possível graças a pelo menos dois feitos importantes apoiados em sustentação teórica amplamente reconhecida e, claro, muito investimento. O primeiro tem a ver com a recuperação e adaptação da invenção dos atenienses, acrescentando 'representativa' ao termo 'democracia'. Assim, ela faz parecer que é o povo quem comanda a política e, ao mesmo tempo, diminui drasticamente o número de quem efetivamente decide. Diferente dos 10% cidadãos da antiga Atenas, que não garantiram a continuidade da 'democracia', e apostando em eleições regadas com dinheiro público e privado, a burguesia tem se mantido no governo das cidades através da 'democracia representativa'.

O segundo tem a ver com esporte que, além de receber novas regras e procedimentos, tem a missão de ensinar e reforçar o seu mais importante valor: a competição. Tal como o processo eleitoral que, longe de distração, diversão ou jogo, especialmente o futebol, deve ser visto e tratado como negócio no sentido mais forte do termo: negação total do ócio. Investir em corpos e mentes, a fim de que promovam retorno de bilhões de reais, dólares, euros ou outra moeda qualquer é o grande negócio.

Não é por acaso, portanto, que milhões de pessoas se encantem com a bola em campo. Nem que diversos campeonatos aconteçam o tempo todo nos mais diferentes lugares. Nem que as torcidas chorem, vibrem, briguem, matem-se, façam festas e emocionem até mesmo quem se recusa aceitar jogadas admiráveis de uns e outros escolhidos a dedo pra se tornarem astros.

Ao contrário, ações como estas são profundamente educativas e altamente rentáveis. Por isso mesmo, o que não falta é dinheiro – muito dinheiro! – envolvido nisso tudo. Ilusão acreditar no 'que vença o melhor' ou pensar que 'o jogo acaba quando termina'. O ato de jogar, o lugar no pódium, a taça ou a medalha são apenas alguns momentos dos vários jogos que começam muito antes e terminam muito depois da hora marcada. Negócio é negócio!

Como os resultados desse investismento foram e continuam sendo muito positivos em todos os sentidos, particularmente o financeiro, o esporte serve como modelo educacional do tipo de relações humanas e sociais que interessa. Nada mais efetivo, então, do que promover competições, fazer com que uns e outros se posicionem frontalmente o tempo todo. É fundamental que atletas, assim como eleitores, se esforçem ao máximo na disputa de cada lance na arena e na vida e que, finalmente, apenas alguns sejam vencedores.

Assim, quanto mais ações competitivas ou pedagógicas, quanto mais enfrentamento pautado em técnicas educacionais, tanto mais retorno econômico positivo pra uns e aprendizagem efetiva da população quanto aos modos como se deve pensar e agir. No mínimo, estas ações ensinam que somente uns poucos nasceram para vencer, que a maioria das pessoas é incompetente e que o sucesso não é pra qualquer um.


***

E a democracia? Para a burguesia atual – algo como 1% da população – é o melhor negócio de todos os tempos, tendo em vista que a maior parte de toda riqueza produzida no mundo está em suas mãos. Ela simplesmente pode tudo e o mundo todo – economicamente, ao menos –, depende dela. Como tem quem a justifique e sustente, é ela quem decide e determina, de acordo com seus interesses, quem, onde e como devem viver os povos, o que cada um deles pode ou não produzir e consumir e quem deve governá-los. Exagero? Bom seria se fosse! 

Abaixo estão os que diretamente dependem dela e, portanto, não fazem nada sem o seu consentimento e aprovação. Como acalentam o sonho de integrar o seleto grupo, esforçam-se para se parecer com o grupo que ocupar o topo da pirâmide e, tanto quanto podem e conseguem, buscam imitá-lo. Não medem esforços pra se aproximar dele, mesmo sabendo que corporações são um tipo de instituição que não tem rosto; com elas, não há com quem falar, mas somente o que negociar. E é justamente o que fazem, seja lá o que isso significa e o custo que tenha. A fim de garantir seus lugares o mais próximo possível dos 'donos do mundo', esses grupos, chamados de média e pequena burguesia, não poupam esforços tanto para imitar quem os inspira, quanto para que a absoluta maioria das pessoas, seus eleitores, também os imitem.

Mais abaixo e até à base da pirâmide estão os e as responsáveis pelas condições econômicas de bilhões de seres humanos na atualidade. São eles que, conscientemente ou não, permitem a concentração das riquezas coletivamente produzidas. São eles que, sabendo ou não, acatam as decisões e determinações do topo da pirâmide. São eles que, gostando ou não, balançam os berços dos segundos, fazendo todos os seus gostos. São eles que, sem se darem conta, tratam a si mesmos como inimigos que brigam e se perseguem... e se matam. São eles que, longe de si mesmos, pensam e agem de acordo com o que querem que pensem e ajam, que justifiquem e sustentem o tipo de convivência social e política que atende aos interesses de uma minoria.

***

Negar o ócio era algo inadmissível para os inventores da democracia. Para fazer política ou 'cuidar da cidade', diziam, era preciso ter tempo livre e, de fato, dispunham, já que o que não faltava era escravo pra se ocupar do sustento e da manutenção de suas vidas. Os jogos, por sua vez, teriam sido uma invenção dos deuses. Por isso, de tempos em tempos, os humanos, em especial os cidadãos atenienses, faziam festas religiosas e as dedicavam a Zeus.

Muito tempo depois, quando a burguesia decide ser o que eram os atenienses na antiguidade, ela recupera e atualiza o futebol e a democracia. Pautada pelo seu valor maior, a competição, faz deles a motivação e o modelo do tipo de convivência social conveniente pra ela. Investe milhões e milhões de dinheiros e tem retornos admiráveis. Conta com o apoio da média e pequena burguesia e, sobretudo, com a conivência da maioria da população que lota estádios, dá créditos aos meios de informação e acredita que, votando em seus representantes, melhora a vida.

15/09/16

Coisa de moleque

Quando eu era moleque, quase não tinha bola de futebol. Ao contrário de hoje, havia muitos campinhos, ruas e praças eram espaços livres, mas bola mesmo, de couro ou mesmo de plástico, bem poucos tinham. Quando aparecia alguma de capotão, ainda que muito usada e mal costurada, era uma festa.

Então, se quisesse jogar 'futebol de verdade', com bola boa, a gente teria que ser amigo do dono da bola – um dos presentes mais aguardados no natal ou no aniversário. Era ele quem decidia como tudo devia acontecer: quem jogava com e contra quem, qual lado seria desse ou daquele time, quem iniciava o jogo etc. Claro que ele chamava pro seu time os que jogavam melhor, decidia qual equipe jogava com ou sem camisa e também quais seriam as regras da partida.

Por estas e outras, todos o 'respeitavam'…  Já que o que mais importava era jogar bola, valia a pena deixá-lo pensar que ele era o cara…

Mas quando o outro time, seu adversário, estava ganhando a partida, acontecia o que todos já sabiam: ele pegava a bola e acabava o jogo. Não queria brincar mais. Incorfomado, chateado e puto da vida, o garoto decidia que não tinha mais jogo.

Não menos chateados e putos da vida, os outros lamentavam o ocorrido, trocavam ofensas entre si, chamavam o dono da bola de filhinho-de-papai e iam fazer outra coisa. Não raro, um monte de camiseta enrolada e amarrada com barbante virava alguma coisa parecida com a bola, e o jogo continuava.

Esta história me vem à cabeça toda vez que leio, ouço e vejo o que ocorreu nas últimas eleições presidenciais.

31/08/16

Cabeças cortadas

Em todos os sentidos, os últimos séculos são os piores na vida de milhares de habitantes das terras de américa e áfrica: natureza devastada, culturas dilapidadas, vidas devassadas, corpos esfoliados e milhões de mortos.

No entanto, embora muitos sintam na carne, poucos ocupam-se em compreender os motivos e os desdobramentos desses acontecimentos. Falta informação, pesquisa, investigação e divulgação. 

Falta, sobretudo, seriedade e compromisso com a veracidade do que, de fato, aconteceu. Como a história oficial – registrada, estudada e divulgada –  é a que relata a versão dos vencedores, a maioria de nós sabe, quando muito, o que dizem os livros escolares e os meios de informação. Os outros lados da história, os outros pontos de vista vão se perdendo no tempo.

Para os que, em geral, se julgam entendidos e ilustrados, o que é próprio das culturas locais é 'pobre', 'fraco', 'inferior'... portanto, não merece atenção. Ou seja, degradação da natureza, eliminação de culturas e mortes de seres humanos são temas de menor importância diante do enorme desenvolvimento econômico, industrial e tecnológico dos tempos atuais.

Para outros – igualmente no auge da ignorância –, o que vem de índios e negros tem a ver com o que há de mais 'primitivo', 'antigo', 'atrasado'... portanto, deve ser extirpado. Ou seja, ignorância gera preconceito que gera mais ignorância que destroi, humilha, machuca e mata.

Violência e Educação

São personagens desse drama, além dos perdedores, certo grupo de homens que há tempos atribuiu a si o papel de definidor não só de quem deve ou não deve viver mas como deve viver e outros homens e mulheres convencidos por aquele grupo de que deviam acatar e fazer cumprir suas ordens. Quais? Matar os que não os aceitam como detentores de tal poder e educar os sobreviventes para que duvidem de suas crenças – já que não são 'verdadeiras', que neguem seus jeitos de viver – já que não são 'bons', e que não questionem a nova ordem estabelecida – já que ela faz parte do que é 'justo'.  

Ou seja, uma vez mais, violência física e educação foram utilizadas pra fazer valer os interesses de um grupo social. E graças a elas, foi possível a realização dos seus mais nobres ideais: invadir terras, assassinar milhões de indígenas, escravizar milhões de negros e explorar milhões de conterrâneos, forçando-os a migrar pra terras longínquas. Afinal, nada pode ser mais 'verdadeiro', 'bom' e 'justo' do que eliminar qualquer outro que ouse ameaçar ou impedir suas ações.

Quer um exemplo? A fim de enfraquecer e amedrontar os habitantes locais em luta, era comum os invasores mandarem decapitar crianças e mulheres das tribos. Sim, porque nada é mais conveniente do que eliminar o novo e, mais ainda, impedir que o novo fosse gerado.

Ora, é impossível lidar com a covardia dos que não admitem que possa haver modos de ser e de viver diferentes dos seus. Como escapar dos atos covardes dessa gente inescrupulosa, desonesta e desumana? Como encarar e lutar com um grupo essencialmente medroso e, portanto, capaz de fazer qualquer coisa para não colocar em risco seu suposto poder?

O fato é que assim era no passado, e assim é no presente. Cortar cabeças – real e simbolicamente – continua sendo o modo mais eficiente e eficaz de desmerecer e desconsiderar o que é 'pobre', 'fraco', 'inferior' como para extirpar o que é 'primitivo', 'antigo', 'atrasado'.

E controlar os conteúdos curriculares, construir narrativas convenientes – o que, em geral, fazem a escola e os meios de informação – não é o mesmo que impedir o novo? Definir e determinar o que deve ser escrito e lido, falado e ouvido, exibido e visto não é continuar atribuindo a si o direito de dizer quem e como se deve viver?

15/08/16

Semente e Gente

Lançada à terra, a semente se mistura com água, ar e fogo [luz do sol] e, juntos, fazem nascer uma nova vida. Pra baixo, crescem raízes e pra cima, caule, primeiras folhas e – em seguida e a seu tempo – tronco, galhos, flores e frutos.

Claro que isto é um breve resumo do complexo nascimento e crescimento da árvore. Mas o suficiente pra dizer que o futuro tem a ver com o presente. O vir a ser da árvore depende do ambiente em que foi gerada: se favorável, adequado, protetor, tudo indica que ela vingou; caso contrário, ou desaparece ou cresce sem viço.

Vale dizer: sem condições propícias, a semente não consegue cumprir o seu destino. 

Com gente não é diferente. Não por acaso, o termo humano vem de húmus, o mesmo que matéria orgânica ou restos de  animais e plantas processados, entre outros, pela minhoca... Cada um de nós é uma das possíveis misturas de fogo, ar, terra e água.

Brotamos da terra. Nascemos do chão habitado pelos que vieram antes de nós. Crescemos e nos reproduzimos graças às mesmas forças que forjaram nosso nascimento. E morremos, pra junto com outros seres, gerar novas vidas. Da terra surgimos e na terra desaparecemos. Não viemos do além e nem vamos pro além.

Vale dizer: se o ambiente em que fomos gerados, assim como o ambiente em que geramos não for favorável, adequado e, sobretudo, protetor, o que podemos esperar de nós e dos que, através de nós, são gerados?

***

Diferente dos outros seres vivos que – não sofrendo intereferência humana –  surgem e desaparecem conforme um 'cronograma previsto', nós, os humanos, temos a faculdade de ser livres, de escolher nosso destino.

Ou melhor: ainda que a previsibilidade seja nada mais do que algo que os humanos atribuem aos outros seres, o fato é que sobre eles é impossível fazer qualquer afirmação. Certo ou incerto é 'tão somente' o que chamamos de certo e/ou incerto. O que afirmamos ser o mundo não necessariamente é ou pode ser o mundo.

Todavia, ao que parece, nascer, crescer, reproduzir e morrer são partes de uma grande trama, da qual ninguém, além de nós, são os autores, os diretores e os atores. Escrevemos, dirigimos e atuamos cada uma das narrrativas dessa trama. E porque somos livres, individual e coletivamente, somos os únicos responsáveis pelos enredos que dão rumo à nossa história. Nós decidimos o que queremos, podemos e conseguimos ser.

Então, inventamos ou adotamos personagens que dificultam e/ou, não raro, impedem que cumpramos o nosso destino, isto é, a possíbilidade de que tenhamos nascido para viver e morrer com a consciência de que, diferente dos outros seres, cada um saiba o seu próprio valor e, portanto, possa ser autor da própria história.

A liberdade de escolher o que fazer conosco e com os outros, entretanto, inconscientemente ou não, tem nos levado a cometer equívocos que, de fato, alteram o complexo nascimento e crescimento da semente e de todos os seres vivos, incluindo o humano.

Longe de criar um ambiente favorável, adequado e protetor – portanto, propício para a manutenção da vida –, o que estamos fazendo da gente tem contribuído para que plantas e animais, incluindo o humano, ou desapareçam ou cresçam sem viço.

07/08/16

Desde Olímpia

De acordo com certa historiografia, há cerca de 2500 anos, na ilha de Samos, Grécia, viveu um sujeito chamado Pitágoras.

Sobre sua vida e obra sabemos muito pouco: apenas fragmentos encontrados em textos escritos muitos séculos depois de sua morte.

A Pitágoras são atribuídas 'invenções' interessantes, dentre elas, a ciência Matemática e o termo Filósofo. Também seria dele uma consideração particularmente interessante: três tipos de pessoas compareciam aos Jogos Olímpicos sediados na ainda hoje famosa cidade grega Olímpia.

Além dos torcedores, compradores e admiradores dos outros iam à festa, diz ele, os comerciantes – que tinham interesse em fazer negócios, trocar informações etc, os atletas e artistas – lá estavam para competir e/ou pra se mostrar, exibir seus corpos, talentos, habilidades, apresentar suas pessoas e os filósofos – que pra lá se dirigiam com a intenção de assistir, observar e julgar, isto é, elaborar conceitos e emitir parecer racional e crítico sobre as coisas, as ações, as pessoas, os acontecimentos, a vida.

A maioria das pessoas comparecia aos jogos para comprar, torcer, admirar, competir e se exibir, mas alguns lá estavam movidos por outro interesse: saber o que significava tudo aquilo. Enquanto a maioria comparecia aos jogos pra negociar, se expor e se mostrar, alguns iam pra observar e dizer algo sobre o que viu.

***

Desde Olímpia [e certamente muito antes dela], são poucos os que efetivamente se envolvem com o 'espírito olímpico'. Raros são os que se dispõem a celebrar ou comemorar, isto é, atender a um dos objetivos da festa: trazer à mente os feitos dos deuses para inspirar os homens. Se lembrarmos que os deuses nada mais são do que projeções do quanto podem ser 'perfeitos' os humanos, então os jogos seriam o grande momento do ocupar-se consigo mesmo.   

A história dos jogos desde Olímpia, todavia, mostra que estamos bem longe disso. Ainda hoje, o que faz a maioria das pessoas quando vai ao evento? O que, em geral, pretendem os que competem e exibem suas pessoas? Que sentido tem ser o vencedor desse ou daquele jogo?

Seguramente, são outras as motivações...

Negócios, competição, culto à personalidade, medalhas, fama etc fortalecem e enaltecem pessoas. Somados às muitas capas e máscaras acumuladas nos corpos e nas mentes, esses valores contribuem para enfraquecer e diminuir indivíduos. Ilusões, artifícios, enfeites etc são muito úteis para o cultivo da personalidade, mas quase fatais para a busca da individualidade. E o que era pra ser fonte de inspiração para os humanos, na realidade, leva pessoas a acreditarem que são mais e melhores que os outros.

Tinha e continua tendo razão o sujeito da ilha de Samos: a única coisa que nos diferencia, inclusive dos que são iguais a nós, é o exercício intelectual que possibilita – a cada um do seu jeito – entender, compreender e interpretar o mundo.

01/08/16

Boicote

Nem você, nem eu, nem o joão, nem a maria e nem o mané. Nenhum de nós consegue boicotar seja lá quem for.

Mesmo com toda vontade, interesse e disposição, ninguém boicota o outro. Por quê? Porque não é preciso. O pior e mais grave boicote já aconteceu.

Conforme os dicionários, boicote é uma ação ou um efeito. Exemplos: suspender os negócios ante alguma situação que desagrada – nas relações comerciais; não participar de atos públicos – em política; recusar o convite de alguém não comparecendo a um encontro ou evento – quando se trata das relações pessoais. Vale acrescentar que um dos sinônimos de boicotar é sabotar. Quem sabota o parceiro de negócios ou a manifestação pública ou os mais próximos tem interesse em dificultar, prejudicar ou danificar o outro.

Quando a pessoa escolhe/prefere/aceita sentir/pensar/fazer não o que quer/ consegue/pode, mas o que esperam/querem/cobram dela; quando a pessoa, tão frágil e distante de si própria, busca satisfazer e atender não as suas necessidades e sonhos, mas as necessidades e os sonhos dos outros; quando a pessoa se deixa levar não pelos seus próprios objetivos, interesses e rumos, mas pelos estabelecidos por qualquer outro... então, definitivamente, não é preciso que ninguém a boicote.

Muito antes de alguém 'fazer o serviço', ela já tomou todas as providências...

Em astrologia, aprendemos que lá onde está o Sol no mapa de nascimento de cada um de nós – o que nos faz acreditar que nascemos leoninos ou capricornianos ou geminianos ou escorpianos ou... – está a força que a natureza nos deu para nascer, viver, reproduzir e morrer com dignidade. É a área da vida em que cada um pode brilhar com a mesma intensidade da estrela.

Pode brilhar – observe bem – desde que, decididamente, cada um queira brilhar!

Ora, se a pessoa se boicota ou se sabota, isto é, se age contra si mesma, tudo o que faz é dificultar, prejudicar e danificar não o outro, mas a si própria. Ela impede vir à tona sua força e grandeza. Ela se desvaloriza. Ela se vê e se trata como algo sem importância, como alguém que não merece atenção e respeito. Não confia em si mesma. Despreza o brilho que nasceu com ela. Não aceita desafios...

Então, se a pessoa – tão desatenta e tão insegura – sente, pensa e age de modo oposto ao de quem cultiva a dignidade, isto é, tem consciência do próprio valor e, portanto, reconhece em si a capacidade de ser autor e diretor de sua própria história, tudo indica que ninguém, mais do que ela, é capaz de fazer algo pior e mais grave pra ela mesma.

Vale dizer: o que ela faz é exatamente o que faz o cara da foto que ilustra este texto.

24/07/16

Ignorância

Há algo que, realmente, nos caracteriza. Seu nome é ignorância.

[Caracteriza é o mesmo que distingue, define, torna único. Ignorância tem a ver com condição, estado ou comportamento da pessoa que carece de algo tão importante que a impede de ser humano.]

Mesmo sabendo que somos humanos – portanto, diferentes dos animais porque dotados de razão, isto é, capazes de somar 1+1 e entender que tudo tem antes, durante e depois – são muitos os que evitam e/ou não consideram o ato de pensar, principalmente o ato de pensar com a própria cabeça – ou seja, o mesmo que pesar, ponderar, raciocinar, portanto, ação individual, introspectiva e crítica.

Ou é por acaso que muita gente pensa e age conforme os outros dizem? Não percebe que se desrespeita, quando reproduz falas que atendem às necessidades e sonhos deles? Não se dá conta de que trai a si mesma, quando valoriza algo que pode conflitar ou até ser avesso às suas próprias carências e projetos?

Contribue para esse equívoco, tão comum e recorrente, toda e qualquer instituição que, mesmo quando [supostamente] bem intencionada, prioriza a pessoa e não o indivíduo.

Como assim?

Em geral, instituições como família, escola, mundo corporativo, mídia, igreja... estão pré-ocupadas com quem, para sobreviver, se veste e se apresenta com capas e máscaras a fim de atender os seus interesses. Então, pegam pesado, exigem, cobram, dificultam, proibem, penalizam ou simplesmente excluem quem busca mover-se por conta própria. Exemplos não faltam, e qualquer um de nós tem muito o que dizer sobre isso.

Convém lembrar, todavia, que contribuir não é determinar ou definir. Exemplo: não é porque a mídia atua 24 horas por dia 'fazendo a cabeça' da população que ela tem o poder de decidir a vida de milhões de habitantes. Ela influencia, insiste, convence etc., mas quem decide aceitar e comprar o que ela oferece é quem, antes, já se ofereceu a ela como comprador.

Vale dizer: qualquer instituição contribui, mas não determina. Até porque, como sabemos, qualquer contribuição, no fundo, revela algum interesse quem apoia quer algo em troca, afinal, contribuir não é outra coisa senão manter tudo como está. Por outro lado, aceitar alguma 'ajuda' não significa, necessariamente, submeter-se ao zeloso dispensador de apoio aos mais fragilizados.

Somente você e eu decidimos
o queremos, podemos e conseguimos ser. 

Ninguém, a não ser o eu, define o que quer para si mesmo. A ninguém, a não ser o eu, pode ser atribuída a responsabilidade sobre a minha ou a sua condição existencial e social.

Dos aspectos da ignorância, o que me parece mais interessante, sério e comprometedor é justamente o comportamento da pessoa, porque ele expressa, torna público e viraliza o que resulta de uma decisão interior: entre ignorar ou saber de si, a pessoa resolve não se distinguir, não se definir, não tornar-se único. Ela se recusa a pensar e agir pela própria cabeça. Ela se desrespeita e trai a si mesma. Ela se des-humaniza e, mais que isso, se des-hominiza.

21/07/16

Animal político

É de Aristóteles a ideia de que todos os animais são dotados de voz e expressam sentimentos como dor e prazer, mas que os humanos, diferentemente deles, falam. Dotados da palavra, além de expressar sentimentos, elaboram pensamentos e dizem o que pensam. E porque pensam e falam, são animais políticos: conseguem pensar e dizer e defender ideias sobre o que querem para si mesmos e para os outros – tanto é  que inventaram a cidade, um jeito de viver juntos e, portanto, juntos decidirem os seus destinos.

Ou seja, porque pensam e falam, e porque são políticos, ninguém [deuses ou algo que o valha], a não ser eles próprios, é responsável pelo tipo de vida que levam.  

E o que é ser animal político? É ser capaz de viver de modo coletivo – apesar das diferenças individuais que, como bem sabemos, não são poucas. É ser capaz de evitar todo e qualquer tipo de violência, uma vez que fazer uso da capacidade de falar torna injustificável qualquer forma de agressão física, por exemplo – diferentemente, portanto, dos outros animais que, não podendo falar, latem, rosnam, arranham, picam, mordem... e, se necessário, matam. Ser animal político é usar a razão em vez da força bruta. 

Usar a razão é exercitar a palavra, isto é, pensar antes de dizer, isto é, ponderar e raciocinar sobre o que vai ser dito, isto é, considerar os possíveis efeitos e desdobramentos de algo que, até ser tornado público, é totalmente uma questão interna do indivíduo. Fazer uso da razão é o que, efetivamente, nos diferencia dos outros animais. Graças a ela, cada um de nós é o que quer ser, pode entender-se e entender o outro e consegue conviver até mesmo enfrentando situações difíceis. Sem o exercício da palavra, seríamos qualquer outra coisa, menos humanos e políticos.

Bem boa a ideia de Aristóteles: engrandeceu o humano, colocando-o num lugar privilegiado no reino animal! Legal mesmo ele afirmar que os animais humanos são políticos porque conseguem expressar o que sentem e falar o que pensam e o que querem!

O que faltou – e continua faltando – é os humanos saberem disto, já que uma significativa parte deles age como quem nada tem a ver com humanidade e nem com política: recusa-se a pensar com a própria cabeça, repetindo o que qualquer outro mandou e utiliza-se da força bruta para impor o que bem entende, atacando e matando mesmo sem necessidade.

Vale dizer: dotado de voz, quando muito, expressa alguma dor e algum prazer; dotado de fala, quase sempre fere e mata sem dizer; sente e pensa, mas dificilmente assume a responsabilidade pela vida individual e coletiva.

Animal político esquisito, não?

18/07/16

Ideias de jirico

Ideias como 'sociedade' e 'cultura' superior ou melhor ou mais forte que outras são demasiado comuns em nosso meio e, não raro, encabeçadas por experts em remedar os 'mais cultos'.

Na melhor das hipóteses, este é mais um equívoco de alegrinho - gente que não pensa com sua própria cabeça e se contenta em reproduzir as ideias dos colonizadores antigos e atuais. Na real, é ignorância e submissão à ousadia e à violência de quem impõe sua visão de mundo.

Ora, falar em 'cultura' e 'sociedade', entre outros, é abordar termos vazios que, a rigor, não existem. O que existe são modos de ser, de sentir, de pensar e de agir essencialmente diferentes entre si. O que existe são grupos sociais reais vivendo nos mais distintos lugares e indivíduos reais partilhando seus variados modos de viver nos grupos que integram.

Esses indivíduos e grupos podem apresentar traços biológicos/psicológicos/sociais parecidos, podem habitar espaços comuns e até falar a mesma língua mas, definitivamente, não são iguais. Não a ponto de uns e outros afirmarem que há, por exemplo, 'identidade cultural' americana, africana ou seja lá qual for. Ou então defenderem a ideia de 'sociedade' brasileira, chinesa, egípcia, guatemalteca e outras. A não ser do ponto de vista 'político' – termo que, na prática, como bem sabemos, significa interesses específicos de grupos igualmente específicos – que sentido tem falar em 'sociedade'? Quem de nós se associou com quem?

O que somos, isto sim, são inúmeros indivíduos e grupos passíveis de convivência social. Passível quer dizer capaz de estabelecer relações com outros indivíduos e grupos, de co-laborar com eles, de com-partilhar a existência, de trocar informações, ideias, serviços e produtos – o que não quer dizer que esse ou aquele grupo ou indivíduo precisa ou queira ou deva conviver com quaisquer outros.

Afirmar, então, a ideia de 'cultura' ou é, imbecilmente, ignorar a diversidade que nos caracteriza ou, docilmente, submeter-se a quem se diz superior ou melhor ou mais forte. Do mesmo modo, afirmar a ideia de 'sociedade' ou é, passivamente, aceitar quem se impõe pela violência ou, estupidamente, ignorar que 2 é igual a 1 mais 1.

03/07/16

Dois pontos

Expressar o que sente e pensa é direito humano: não depende da aprovação desse ou daquele indivíduo, grupo social ou instituição.

Mas isto não quer dizer que é dever humano dar atenção a quem quer se expressar: direito de um não implica dever do outro.

Convém, então, exercitar o diálogo e estabelecer relações que favoreçam a convivência social: divergir não é discordar.