24/07/16

Ignorância

Há algo que, realmente, nos caracteriza. Seu nome é ignorância.

[Caracteriza é o mesmo que distingue, define, torna único. Ignorância tem a ver com condição, estado ou comportamento da pessoa que carece de algo tão importante que a impede de ser humano.]

Mesmo sabendo que somos humanos – portanto, diferentes dos animais porque dotados de razão, isto é, capazes de somar 1+1 e entender que tudo tem antes, durante e depois – são muitos os que evitam e/ou não consideram o ato de pensar, principalmente o ato de pensar com a própria cabeça – ou seja, o mesmo que pesar, ponderar, raciocinar, portanto, ação individual, introspectiva e crítica.

Ou é por acaso que muita gente pensa e age conforme os outros dizem? Não percebe que se desrespeita, quando reproduz falas que atendem às necessidades e sonhos deles? Não se dá conta de que trai a si mesma, quando valoriza algo que pode conflitar ou até ser avesso às suas próprias carências e projetos?

Contribue para esse equívoco, tão comum e recorrente, toda e qualquer instituição que, mesmo quando [supostamente] bem intencionada, prioriza a pessoa e não o indivíduo.

Como assim?

Em geral, instituições como família, escola, mundo corporativo, mídia, igreja... estão pré-ocupadas com quem, para sobreviver, se veste e se apresenta com capas e máscaras a fim de atender os seus interesses. Então, pegam pesado, exigem, cobram, dificultam, proibem, penalizam ou simplesmente excluem quem busca mover-se por conta própria. Exemplos não faltam, e qualquer um de nós tem muito o que dizer sobre isso.

Convém lembrar, todavia, que contribuir não é determinar ou definir. Exemplo: não é porque a mídia atua 24 horas por dia 'fazendo a cabeça' da população que ela tem o poder de decidir a vida de milhões de habitantes. Ela influencia, insiste, convence etc., mas quem decide aceitar e comprar o que ela oferece é quem, antes, já se ofereceu a ela como comprador.

Vale dizer: qualquer instituição contribui, mas não determina. Até porque, como sabemos, qualquer contribuição, no fundo, revela algum interesse quem apoia quer algo em troca, afinal, contribuir não é outra coisa senão manter tudo como está. Por outro lado, aceitar alguma 'ajuda' não significa, necessariamente, submeter-se ao zeloso dispensador de apoio aos mais fragilizados.

Somente você e eu decidimos
o queremos, podemos e conseguimos ser. 

Ninguém, a não ser o eu, define o que quer para si mesmo. A ninguém, a não ser o eu, pode ser atribuída a responsabilidade sobre a minha ou a sua condição existencial e social.

Dos aspectos da ignorância, o que me parece mais interessante, sério e comprometedor é justamente o comportamento da pessoa, porque ele expressa, torna público e viraliza o que resulta de uma decisão interior: entre ignorar ou saber de si, a pessoa resolve não se distinguir, não se definir, não tornar-se único. Ela se recusa a pensar e agir pela própria cabeça. Ela se desrespeita e trai a si mesma. Ela se des-humaniza e, mais que isso, se des-hominiza.

21/07/16

Animal político

É de Aristóteles a ideia de que todos os animais são dotados de voz e expressam sentimentos como dor e prazer, mas que os humanos, diferentemente deles, falam. Dotados da palavra, além de expressar sentimentos, elaboram pensamentos e dizem o que pensam. E porque pensam e falam, são animais políticos: conseguem pensar e dizer e defender ideias sobre o que querem para si mesmos e para os outros – tanto é  que inventaram a cidade, um jeito de viver juntos e, portanto, juntos decidirem os seus destinos.

Ou seja, porque pensam e falam, e porque são políticos, ninguém [deuses ou algo que o valha], a não ser eles próprios, é responsável pelo tipo de vida que levam.  

E o que é ser animal político? É ser capaz de viver de modo coletivo – apesar das diferenças individuais que, como bem sabemos, não são poucas. É ser capaz de evitar todo e qualquer tipo de violência, uma vez que fazer uso da capacidade de falar torna injustificável qualquer forma de agressão física, por exemplo – diferentemente, portanto, dos outros animais que, não podendo falar, latem, rosnam, arranham, picam, mordem... e, se necessário, matam. Ser animal político é usar a razão em vez da força bruta. 

Usar a razão é exercitar a palavra, isto é, pensar antes de dizer, isto é, ponderar e raciocinar sobre o que vai ser dito, isto é, considerar os possíveis efeitos e desdobramentos de algo que, até ser tornado público, é totalmente uma questão interna do indivíduo. Fazer uso da razão é o que, efetivamente, nos diferencia dos outros animais. Graças a ela, cada um de nós é o que quer ser, pode entender-se e entender o outro e consegue conviver até mesmo enfrentando situações difíceis. Sem o exercício da palavra, seríamos qualquer outra coisa, menos humanos e políticos.

Bem boa a ideia de Aristóteles: engrandeceu o humano, colocando-o num lugar privilegiado no reino animal! Legal mesmo ele afirmar que os animais humanos são políticos porque conseguem expressar o que sentem e falar o que pensam e o que querem!

O que faltou – e continua faltando – é os humanos saberem disto, já que uma significativa parte deles age como quem nada tem a ver com humanidade e nem com política: recusa-se a pensar com a própria cabeça, repetindo o que qualquer outro mandou e utiliza-se da força bruta para impor o que bem entende, atacando e matando mesmo sem necessidade.

Vale dizer: dotado de voz, quando muito, expressa alguma dor e algum prazer; dotado de fala, quase sempre fere e mata sem dizer; sente e pensa, mas dificilmente assume a responsabilidade pela vida individual e coletiva.

Animal político esquisito, não?

18/07/16

Ideias de jirico

Ideias como 'sociedade' e 'cultura' superior ou melhor ou mais forte que outras são demasiado comuns em nosso meio e, não raro, encabeçadas por experts em remedar os 'mais cultos'.

Na melhor das hipóteses, este é mais um equívoco de alegrinho - gente que não pensa com sua própria cabeça e se contenta em reproduzir as ideias dos colonizadores antigos e atuais. Na real, é ignorância e submissão à ousadia e à violência de quem impõe sua visão de mundo.

Ora, falar em 'cultura' e 'sociedade', entre outros, é abordar termos vazios que, a rigor, não existem. O que existe são modos de ser, de sentir, de pensar e de agir essencialmente diferentes entre si. O que existe são grupos sociais reais vivendo nos mais distintos lugares e indivíduos reais partilhando seus variados modos de viver nos grupos que integram.

Esses indivíduos e grupos podem apresentar traços biológicos/psicológicos/sociais parecidos, podem habitar espaços comuns e até falar a mesma língua mas, definitivamente, não são iguais. Não a ponto de uns e outros afirmarem que há, por exemplo, 'identidade cultural' americana, africana ou seja lá qual for. Ou então defenderem a ideia de 'sociedade' brasileira, chinesa, egípcia, guatemalteca e outras. A não ser do ponto de vista 'político' – termo que, na prática, como bem sabemos, significa interesses específicos de grupos igualmente específicos – que sentido tem falar em 'sociedade'? Quem de nós se associou com quem?

O que somos, isto sim, são inúmeros indivíduos e grupos passíveis de convivência social. Passível quer dizer capaz de estabelecer relações com outros indivíduos e grupos, de co-laborar com eles, de com-partilhar a existência, de trocar informações, ideias, serviços e produtos – o que não quer dizer que esse ou aquele grupo ou indivíduo precisa ou queira ou deva conviver com quaisquer outros.

Afirmar, então, a ideia de 'cultura' ou é, imbecilmente, ignorar a diversidade que nos caracteriza ou, docilmente, submeter-se a quem se diz superior ou melhor ou mais forte. Do mesmo modo, afirmar a ideia de 'sociedade' ou é, passivamente, aceitar quem se impõe pela violência ou, estupidamente, ignorar que 2 é igual a 1 mais 1.

03/07/16

Dois pontos

Expressar o que sente e pensa é direito humano: não depende da aprovação desse ou daquele indivíduo, grupo social ou instituição.

Mas isto não quer dizer que é dever humano dar atenção a quem quer se expressar: direito de um não implica dever do outro.

Convém, então, exercitar o diálogo e estabelecer relações que favoreçam a convivência social: divergir não é discordar.

23/06/16

Lidar com a vida

De fato, estamos longe da vida boa, bela e justa, há milênios sonhada e fartamente apregoada no mundo ocidental.

De fato, não sabemos lidar nem com a vida em geral, nem com a vida dos outros - sobretudo os mais próximos e, em especial, os que dizemos que amamos -  e, menos ainda, com a nossa vida individual. 

Ora, se a pessoa não sabe e nem procura saber dela mesma; não se conhece e nem buscar se conhecer; não cuida de si, isto é, não se respeita [respeitar é prestar atenção] e não se ama [amar é gostar de estar perto]... então, como ela consegue saber, conhecer, respeitar e amar o outro?

Ora, se o outro não é visto e tratado como o 'outro que é', mas como complemento ou inferior ou superior ou competidor, portanto, como continuação, falta, menos ou mais do que a pessoa sente e pensa de si mesma... então, como ela e o 'outro dela' vão lidar com o social, a economia, o político?

Ora, se elementos como sociedade, economia e política são importantes para a vida coletiva mas, como se vê, resultam de relações tão ruins entre pessoas que se veem e se tratam como inimigos... então, é claro que este tipo de convivência social que mantemos não faz bem a ninguém.

Tudo indica que a vida – pra ser boa, bela e justa – exige que você e eu aprendamos a lidar com ela não com sonhos e discursos, mas com intensidade e alegria – o que, de fato, só se consegue quando deixamos de ser pessoas [personagens] e optamos por ser indivíduos [seres únicos e indivisíveis], ou seja, exatamente o contrário do que interessa a este tipo de convivência social que insistimos em manter.

19/06/16

As 12 casas

Para a astrologia, o mapa do céu é dividido em 12 casas. Cada uma delas diz respeito a uma área da vida.

O desafio [desfiar os fios e os nós] é entender uma por uma, as relações entre elas e delas com os signos e os planetas, assim como as relações entre eles nessa e/ou naquela casa.

Nada fácil e simples mas, justamente por isso, chama tanto a nossa atenção.

De que tratam?

  • casa 1 - o Eu que se mostra
  • casa 2 - ganhos e coisas materiais
  • casa 3 - comunicação e relações próximas
  • casa 4 - o passado na mochila
  • casa 5 - criatividade, prazer e alegria
  • casa 6 - o trabalho, o dia a dia e a saúde física e mental
  • casa 7 - tipos de parceria
  • casa 8 - perdas, sexo e morte
  • casa 9 - ideias e longas viagens
  • casa 10 - profissão e desafios futuros
  • casa 11 - o outros na vida, amigos e conhecidos
  • casa 12 - o Eu interior

Modalidades

  • casas 1, 4, 7 e 10 formam a cruz da vida, essencialmente marcada pelos signos Cardinais Áries, Câncer, Libra, Capricórnio; regidas por Marte, Lua, Vênus, Saturno, representam os elementos Fogo, Água, Ar e Terra; chamadas de 'casas angulares', têm a ver com a energia vital empregada pra cada um sobreviver, crescer e seguir adiante na empreitada da vida
  • casas 2, 5, 8, 11 falam da estabilidade dos enraizamentos dos signos Fixos Touro, Leão, Escorpião, Aquário, que são regidos por Vênus, Sol, Plutão, Urano, representando Terra, Fogo, Água e Ar; são chamadas de 'casas sucedentes'
  • casas 3, 6, 9, 12: como 'casas cadentes', enfraquecem a ação iniciada nas 'cardinais' e fortalecida nas 'sucedentes'; são dos signos Mutáveis Gêmeos, Virgem, Sagitário, Peixes, regidas por Mercúrio, Mercúrio/Kíron, Júpiter, Netuno e representam Ar, Terra, Fogo e Água

Elementos

  • casas 1, 3 e 9 - corpo, alma, mente/espírito: Fogo
  • casas 2, 6 e 10 - posses, ocupação, reconhecimento público: Terra
  • casas 3, 7 e 11 - irmãos/parentes/vizinhos, associações/relacionamentos íntimos, amigos/relacionamentos sociais: Ar
  • casas 4, 8 e 12 - morte física, transformação morte/vida, fim do que escolhemos sentir, pensar e agir: Água

Ativas e Passivas

  • chamadas Ativas, as casas  1, 3, 5, 7, 9, 11 nos lançam pro mundo
  • chamadas Passivas, as casas 2, 4, 6, 8, 10, 12 dizem da nossa participação nas ações dos outros

Dia e noite

  • casas 1, 2, 3, 4, 5 e 6 são consideradas Noturnas: como o Sol [individualidade] não está visível, são a base para, mais tarde, ele brilhar; de uso pessoal e privado, baseiam-se nas emoções e nos sentimentos
  • casas 7, 8, 9, 10, 11 e 12 são consideradas Diurnas: de uso social e público, têm a ver com mundo do trabalho, carreira e status; têm como base interesses sociais e profissionais

Não por acaso, a astrologia é uma das mais antigas formas de conhecimento que o homem inventou e, há milênios, vem elaborando. Também não por acaso,  há algum tempo, eu também venho mergulhando nesta invenção.

13/06/16

Uma pergunta

Tendo em vista o cenário – certamente construído por quem veio antes de nós, mas mantido e atualizado por nós – no qual atuamos como personagens de tantas histórias – certamente não inventadas por nós e nem por nós dirigidas – que somente recebem os aplausos do público se cumprirem direitinho o roteiro escrito, aprovado, testado e comprovado;


considerando que a platéia é formada sobretudo por crianças – que, como tal, precisam ver e aprender conosco o modo como sentimos, pensamos e agimos para, então, decidirem o que farão com suas vidas – é urgente e necessário fazer uma pergunta: 

é possível ser humano num sistema regido pelo
signo do deus-cifrão?


Observe

Grande parte das pessoas é, de fato, ignorante, isto é, ainda não tem informação suficiente sobre o modelo econômico que sustenta esse tipo de convivência social. Não entende e nem busca entender, por exemplo, o que faz com alguns sejam tão ricos enquanto a maioria é pobre. Não consegue ligar os pontos: se há riqueza, então há pobreza; se há miséria, então há luxo; se há quem acumula algo, há quem fica sem parte dele... 

  • A ignorância, além da falta de informação, é uma forma de comodismo. Comportar-se de modo a deixar tudo como sempre esteve, afastar-se e não assumir qualquer responsabilidade é uma estratégia sempre certeira, tanto para o ignorante quanto para o 'ilustrado'.

Outra parte, devidamente informada sobre como as coisas funcionam, aceita fazer parte do jogo – mesmo sabendo de antemão quem é vencedor e quem é perdedor. Parece convencida, por conveniência, de que não vale a pena qualquer alteração no modelo. Egoísta, não quer correr o risco de perder o pouco que acha ter conseguido submetendo-se, por exemplo, a um emprego que, ainda que lhe renda salário, não lhe dá nenhuma satisfação pessoal, profissional e... econômica.

Alguns tentam não entrar no campo de jogo – e, não raro, pagam caro. Não aderem às regras do mercado de trabalho, evitam o consumismo, buscam o que se convenciou chamar 'vida simples'. E pagam caro porque tentam viver no mesmo espaço em que a maioria está munida de instrumentos e técnicas que primam por não aceitá-lo e respeitá-lo, mas vencê-lo. É o caso, por exemplo, de alguém que se recusa a  vestir-se como todos do seu grupo, ir aos mesmos lugares que eles, ouvir a mesma música que ouvem, enfim, evita sentir e pensar e agir como os que lhe são próximos sentem, pensam e agem.

Sendo assim

Querendo ou não, conscientes ou não, gostando ou não, o fato é que mantemos um jeito de convivência social em que ser humano tem pouco ou nenhum valor. O que realmente importa é que você e eu sejamos alunos, estagiários, funcionários, empregados, crentes, pacientes, clientes, destinatários, profissionais, sócios, consumidores, cidadãos.

Pra isso somos preparados, aguardados, reconhecidos e remunerados. Se formos coisas-que-fazem-coisas, tarefeiros que obedecem ou mandam, objetos de uso e de troca seremos, então, somos aplaudidos. Caso contrário, somos algo que definitivamente não convém.

A família gera, a escola prepara, a midia incentiva, e empresa enriquece, a igreja abençoa e o estado agradece. 


Mas quem está ocupado em ser humano?

04/06/16

Coxinha & Mortadela


chamar o outro e/ou aceitar ser chamado de coxinha e/ou de mortadela é, antes e sobretudo, despotencializar o humano


Há quem diga que a famosa coxinha surgiu na cidade de São Paulo, durante a industrialização do século 19, como alternativa às coxas de frango vendidas aos operários nos portões de fábrica.

Desde então, farinha e recheio [pedacinhos] de frango temperados e fritos compõem o salgadinho que 'mata' a fome de meio mundo.  

Já a mortadela, de origem italiana, teria sido trazida pelos imigrantes no começo do século 20. Pedaços de carne de boi, de porco, de galinha, além de gordura e pimenta, formam o embutido. Mas há quem diga que era feita da parte que o boi leva a pancada ou martelada de morte no abatedouro. Com ou sem pão, a mortadela igualmente 'sacia' outros tantos.

Atualmente, sabedeus de quê e como são feitas!!! Sabedeus de quê e como são feitos os produtos industrializados em nossas cozinhas e em nossos pratos!!! Sabedeus como estão nossos corpos e nossas cabeças!!!
 

Bem, o fato é que coxinha & mortadela são muito apreciadas por gente de todo lado...

duas observações

A primeira é que coxinha & mortadela são feitas de pedaços ou aproveitamento de carne e otras cositas. São imitação ou substituição barata de alimentação. Foram inventadas para dar lucro a alguns e enganar o estômago, o corpo e as ideias de muitos outros. São, portanto, pura enganação.

A segunda tem a ver com a infeliz associação da mortadela e da coxinha a posicionamentos político-partidários de pessoas a favor ou contra esse ou aquele governo. Infeliz, porque é mais desastrosa do que engraçada.


Associar o ser humano a algo que, se bem manipulado, gera altos ganhos pra uns e grandes perdas pra maioria é coisificá-lo.
É transformá-lo em massa de manobra.
É enfraquecê-lo.

26/05/16

Para ler o mapa do céu

Antes de anotar os dados e traçar sua carta natal, penso que é fundamental prestar atenção a duas situações – difíceis, sem dúvida, mas necessárias. Caso não consigamos dar conta delas, convém encaminhá-las, dada a importância que têm no que chamo astrofilosofia.


A primeira:
  • o que faz você supor que os milenares saberes da astrologia têm algo a dizer sobre seu modo de ser e de agir? 
  • que sentido tem pra você a interpretação de símbolos portadores de múltiplos significados?
  • o que você espera do exercício de leitura, compreensão e interpretação do texto denominado mapa astral?
Se as respostas levarem ao campo da curiosidade, há um caminho interessante a percorrer. Enveredar pelas tramas das narrativas míticas é uma coisa muito gratificante. Diga-se o mesmo das interpretações possíveis das relações entre os corpos celestes. Saber das coisas é fundamental para conhecer o mundo.

Se as respostas levarem ao domínio do conhecimento de si mesmo, os caminhos são mais complexos, pois trilhar as veredas do eu, além de gratificante, é surpreendente. Tomar a si mesmo como objeto de conhecimento é o mesmo que moldar a argila e, ao mesmo tempo, perceber-se como algo já moldado. Para saber de si mesmo é necessário mergulhar na própria história.


A segunda tem a ver comigo:
  • expor com clareza o que pretendo
  • o tipo de abordagem que faço e 
  • como posso colaborar com você, trazendo informações sobre sua carta natal.
Tenho como objetivo contribuir com as pessoas para o conhecimento de si mesmas. Vejo e trato os saberes milenares de modo astrofilosófico, isto é, como produções humanas e racionais – bem distante, portanto, das interpretações históricas da filosofia que consideram, por exemplo, o mítico como pré ou anterior ao conhecimento filosófico. Entendo que estudar e 'ler o mapa astral' de alguém é apresentá-lo como um texto racional e crítico, que pode contribuir pra que a gente se perceba como indivíduo [único e indivisível] capaz de tornar-se sujeito da própria história. 

Então, caso tenha interesse em 'fazer filosofia', como bem pontua Kant, e queira tomar como referência o oráculo de Delfos no templo de Apolo – 'conhece-te a ti mesmo' –, esteja certo de que, para mim, será um prazer navegar pelas anotações, há milênios coletadas, sobre nossas florestas, campos, jardins, montanhas, mares e oceanos interiores e, assim, trazer à tona informações que, se a gente quiser, podem alterar substancialmente nosso presente. Afinal, é isto que vale: o momento presente. 

Meu endereço é donizetesoares@gmail.com

25/05/16

Música popular ou de 'entretenimento'

Quando pensamos e nos posicionamos de modo crítico, quando colocamos sob suspeita ou em dúvida a fala, a idéia, a música... então, qualquer conversa fica diferente da que estamos acostumados.

Não somente olhamos, falamos e ouvimos de outra maneira, mas nos posicionamos tanto frente a nós próprios como frente ao mundo de outra maneira: mudamos o ponto e, então, mudamos a vista.

 
Sobre a música popular ou de 'entretenimento', por exemplo, há muito que pensar e dizer. Num tipo de convivência social como o nosso, em que tudo gira em torno do deus cifrão, o que pretendem os negociantes de algo que agrada a maioria das pessoas? O que há ou pode haver de tão interessante – leia-se lucrativo – na atual produção e comércio dos cantadores de samba, rock, gospel, sertanejo, musiquinha de corno etc?
 
Vale ler o que escreveu Theodor Adorno, filósofo alemão que viveu no século passado, em meio às duas guerras e o nazismo de Hitler:

  • Ao invés de entreter, parece que tal música contribui ainda mais para o emudecimento dos homens, para a morte da linguagem como expressão, para a incapacidade de comunicação. A música de entretenimento preenche os vazios do silêncio que se instalam entre as pessoas deformadas pelo medo, pelo cansaço e pela docilidade de escravos sem exigências.(...) A música de entretenimento serve ainda — e apenas — como fundo. Se ninguém mais é capaz de falar realmente, é óbvio também que já ninguém é capaz de ouvir.[*]

A grande maioria dos hitizinhos que rolam por aí, nacionais ou internacionais, não é somente um gênero musical; vai muito além: simboliza um processo de comercialização de atitudes, idéias e comportamentos. São práticas que realizam ideias extremamente favoráveis a um grupo social. Fazem parte do que pode ser chamado 'indústria cultural'.
 
Ou seja, assim como a indústria cria e fabrica bens materiais, tipo roupas, comidas, remédios, carros e tantas quinquilharias altamente rentáveis, a indústria cultural  preserva ou cria bens simbólicos ou imateriais. Esses bens, igualmente rentáveis, representam coisas que, atendendo necessidades ou carências e sonhos ou fantasias, servem justamente para escravizar as pessoas.
 
Não por acaso, a lógica da produção dos dois tipos de indústria é a mesma: se produzir milhares de carros com a mesma estrutura e apenas mudar a lanterna, a maçaneta e o painel significa baratear a produção e aumentar o lucro das montadoras, o mesmo acontece com a indústria da música popular: a indústria cultural definiu a estrutura: letra + música, duração, tipos de instrumentos, temas a serem explorados, timbre de voz mais adequado, 'artistas' que devem se apresentar dessa ou daquela maneira... e pronto! Quem não estiver de acordo, fica fora. Quem fizer o que 'o mestre mandou', faz sucesso. E, claro, o lucro aumenta.

Vale dizer: o que importa mesmo é que os hitizinhos cumpram o seu papel: fazer circular os bens simbólicos que convém aos que não querem saber de posicionamento crítico algum.

[*] In: O fetichismo na música e a regressão da audição. Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1980