Astrofilosofia

 

Esboço de uma trajetória 

[da filosofia e astrologia à astrofilosofia]

Donizete Soares

 

Era início de 1976, quando entrei na faculdade de filosofia. Numa das primeiras aulas, ouvi algo que me deixou perplexo: 'a astrologia é uma das primeiras formas de conhecimento que o homem criou'... Astrologia? Forma de conhecimento?

Claro que tudo o que eu sabia naquela altura da vida sobre qualquer coisa era quase nada, e tudo o que até então ouvira falar de filosofia e astrologia é o que, geralmente, se fala nos jornais e revistas. Astrologia num curso de filosofia?

Terminei a graduação em 1979 sem nunca, jamais, qualquer outro professor ter tocado neste assunto. Estudei tópicos e participei de seminários sobre filosofia antiga, medieval, moderna e contemporânea; nada, contudo, lembrava astrologia. Mas aquela informação dos primeiros dias de aula nunca mais saiu da minha cabeça. Infelizmente, não consigo me lembrar o nome daquele professor. No entanto, é incrível como agora, ao recordar daquele momento, ainda o vejo falando!

Inseguro quanto aos desdobramentos daquela primeira informação, e frequentando ambientes não raro hostis à astrologia, tratei de ler e pesquisar e procurar quem dela falasse algo mais do que o senso comum e do que eu sabia até então.

Em 1987 – não me lembro exatamente como isto aconteceu –, estava eu no antigo Instituto de Artes do Planalto, da UNESP, no bairro Ipiranga, cidade de São Paulo, matriculado no curso 'A astrologia como forma de comunicação', ministrado por Raul Varela, engenheiro e professor daquela universidade.

Aprendi a traçar mapa astral, consultando efemérides e fazendo vários cálculos [não havia computador e software, menos ainda]. Ouvi muita coisa nova e confirmei outras que sabia. Nunca mais vi o professor Raul, a não ser recentemente 'por acaso', quando soube do seu falecimento. “Organizado, metódico, ávido leitor de novas propostas teóricas e sem qualquer pudor de experimentar métodos transgressivos, Raul chegou aos anos noventa como um dos mais idosos e, paradoxalmente, mais modernos astrólogos brasileiros.” – como bem disse Fernando Fernandes.  

Nos anos seguintes, conheci outras duas pessoas que, além do Raul, muito contribuíram pra que eu pudesse compreender que 'a astrologia é uma das primeiras formas de conhecimento que o homem criou'. Também foi 'por acaso' que, andando pela cidade, encontrei um lugar em que havia uma série de palestras sobre mitologia, com o professor e pesquisador Cid Marcus. Foi um memorável reencontro com as aulas sobre mitos no curso de filosofia, e mais do que interessante rever o conceito e as narrativas fantásticas! O mito deixou de ser coisa do passado ou anterior à filosofia, como diziam e/ou insistem dizer,  especialmente, certos intelectuais ligados a instituições acadêmicas. Saber alguns dos incontáveis mitos de tantos lugares diferentes é revivê-los. Ler as narrativas é torná-las atuais, é reconhecê-las presentes nas ações humanas.

Conheci também uma escritora alemã, Ilse Maria Spath, que logo no início da conversa disse algo mais ou menos assim: 'todos nós deveríamos viver um tempo da vida no hemisfério oposto ao que a gente nasceu'. Por isso, elaestava no Brasil. Contou que vivera na Alemanha nazista, que estudou filosofia e que fora aluna do Heidegger. E avançou dizendo que concentrava seus estudos na antiguidade e que buscava entender e explorar as relações entre astrologia, filosofia e psicologia. E mais ainda: que havia escrito e publicado textos sobre Astro-Filosofia e Astro-Psicologia. Nossa!!! Este único encontro com a Ilse, que durou pouco mais de uma hora,  me deixou fascinado. Ela me fez ver a real possibilidade de aproximação entre os dois modos de conhecer o mundo.

Com mais intensidade, voltei a traçar e interpretar mapas da familiares, amigos, gente famosa, desconhecidos, eventos... Olhava cada um deles durante horas, dias, semanas, buscando relacionar signos, planetas, cúspides, graus, aspectos, desenhos que se formavam... Consultava livros e lia interpretações de outros mapas. Meu objetivo era treinar para trabalhar profissionalmente com astrologia. A vontade era falar em Astrofilosofia, mas não me sentia suficientemente preparado para tanto. O fato é que tracei [à mão] e fiz a leitura de vários mapas natais.

Nessa época, por conta das minhas filhas ainda serem crianças, consultávamos regularmente uma médica homeopata que, ao saber que eu 'fazia mapas', encomendou o dela. Antes, porém, disse que tinha ouvido alguém falar das relações entre homeopatia e astrologia, e perguntou o que eu sabia a respeito. Sim, eu já havia lido alguma coisa, mas não tinha dado a atenção que merecia.

Pronto! Mais pesquisa, mais estudo... e mais mapas. Ela me passava o dia, a hora e o local de nascimento dos seus pacientes com doenças graves. Eu 'fazia o mapa' e a leitura pra ela, destacando os aspectos relacionados ao ascendente, signo solar, casa 6 e lua. Com esses dados, ela buscava o 'remédio de fundo' para o paciente. Foi bem interessante. Aprendi muito.

Os resultados, tanto deste – que a médica, depois de ouvir a leitura dos mapas, inclusive o dela, afirmava ser mais fácil compreender e identificar o remédio do paciente – quanto dos outros atendimentos, foram muito gratificantes.

Contudo, depois de um tempo, decidi que não faria leitura e interpretação de mapas, primeiro, para quem não tivesse mais de 30 anos, por conta da passagem de Saturno, e depois, de mais ninguém. E não faria porque uma série de fatores me fez ficar convicto de que cada um – se realmente tem interesse por astrologia – deve interpretar seu mapa. E, para tanto, deve estudar – o que seria uma excelente oportunidade de praticar o “epimeleia heautou”, ou “cuidado de si”, dos gregos. Como lembra Foucault, as práticas de si compõem-se de exercícios com o corpo, atividade de leitura e escrita, meditação e até consulta a um 'diretor de alma'. Ou seja, entendi – continuo entendendo – que o ato de ler e interpretar o próprio mapa integra o conjunto de ações que levam ao “conhece-te a ti mesmo” socrático.

Certo de que, assim, contribuiria muito mais com as pessoas do que 'simplesmente' ler mapa astral, preparei aulas e cursos para que pudessem servir de referências aos interessados em compreender, eles próprios, a enorme quantidade, complexidade e densidade de informações contidas numa 'simples' carta natal. Com algumas pessoas tratei, individualmente, de 'os doze trabalhos de Héracles', por exemplo. Fiz o mesmo, ainda que parcialmente, com um grupo de 12 pessoas.

 

Tem sido bem interessante! Ao mesmo tempo, tem feito rever minha decisão de não mais ler e interpretar mapas natais, inclusive de quem tem menos de 30 anos. Pensando bem, foi excesso de zelo 'y outras cositas mas' [próprias de virgem + capricórnio] que me fizeram, por um tempo, pensar e agir assim. Cuidar e proteger demais a vida [minha e a dos outros], pode [e quase sempre é isto que acontece] dificultar a vida. Nem sempre proteção é sinônimo de cuidado. Não raro, é medo de viver e medo da vida do outro. É muito Apolo e pouco Dionísio, parafraseando Nietzsche.  

A partir de agora – quando revivo o encontro com Saturno pela segunda vez – volto não a traçar mapas, já que se pode solicitar via internet, mas a ler e interpretar mapa astral de pessoas de todas as idades. Volto mais tranquilo quanto à quantidade e complexidade das informações a serem passadas. Também não espero e/ou pretendo que entendam de astrologia. Quero 'somente' colaborar para que as pessoas, na medida do possível, encontrem, a partir da minha leitura e interpretação, elementos que contribuam para o seu autoconhecimento. Penso que depois de tantos anos, agora posso e consigo falar de Astrofilosofia.


2 comentários:

  1. Que Legal hein Donizete, ta liberado pra quem tem 29 anos né rsrs

    Estou me aproximando desses outros sentidos, unindo uns com os outros, parece que existem coisas que são nossas, que faremos, não importa quantas vezes desviamos o caminho ou deixamos para depois, passa um tempo e como um chamado, estão lá lembrentes dessas coisas.

    Boa sorte e eu quero o meu.
    Forte abraço

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  2. Hola,

    No se como llegué aquí, pero me fascinó tu definición de Astrofilosofía!

    A tu "receta" le incorporo otros ingredientes.
    Escribo ficción y me interesa definir el comportamiento de mis personajes para que sean más verosímiles, para eso empecé a estudiar la astrología china, que combino con el zodíaco, siguiendo tu visión yo soy Aries+Virgo (muy contrapuestos, no?) y le agrego mi signo chino Rata, así que para usos prácticos soy Aries+Rata (1° signo en cada sistema). En el afán de ver como funciona ese sistema, empecé a clasificar cientos de personalidades famosas de diversos sectores, inclusive llegué a incorporar a los protagonistas de la Guerra Farroupilha para analizar las tensiones de ese proceso.

    Pero no conforme con este entramado, mis preocupaciones espirituales me llevaron, nuevamente con la intervención de la Divina Providencia, a leer el libro Lilah, el Juego del Autoconocimiento de Harish Johari. Si no lo conoces, permíteme contarte que el libro te ayuda a trazar un mapa del estado actual de tu progreso espiritual. Reflexionando su lectura uno entiende que aspectos debe abandonar y cuales adquirir para proseguir avanzando. Las peores características que debemos abandonar, y que el libro define como vicios o pasiones son: el orgullo, la ira, la envidia, la avaricia, el engaño y la lujuria.
    En inglés se llama "Leela - the Game of Self-Knowledge" o "The Yoga of Snakes and Arrows: The Leela of ..."
    También hay videos:
    https://youtu.be/WU9cdop2KX8 Part 1/3
    https://www.youtube.com/watch?v=fEqZr3G1jqs Part 2/3
    https://www.youtube.com/watch?v=HoqIhjuLUPM Part 3/3

    Si quieres contactar conmigo:
    carlos.dcastelar @ gmail
    Ojalá lo utilices.

    Por mi parte hago la carta natal pero me quedan muchas dudas.

    Saludos

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