Cuidar de si

Ética e o cuidado de si


"O cuidado de si constituiu, no mundo greco-romano, o modo pelo qual a liberdade Individual ou a liberdade cívica, até certo ponto foi pensada como ética. Se se considerar toda uma série de textos desde os primeiros diálogos platônicos até [p.268] os grandes textos do estoicismo tardio Epícteto, Marco Aurélio… , ver-se-á que esse tema do cuidado de si atravessou verdadeiramente todo o pensamento moral.

É interessante ver que, pelo contrário, em nossas sociedades, a parar de um certo momento e é muito difícil saber quando isso aconteceu o cuidado de si se tornou alguma coisa um tanto suspeita. Ocupar-se de si foi, a partir de um certo momento, denunciado de boa vontade como uma forma de amor a si mesmo, uma forma de egoísmo ou de interesse individual em contradição com o interesse que é necessário ter em relação aos outros ou com o necessário sacrifício de si mesmo.

Tudo isso ocorreu durante o cristianismo, mas não diria que foi pura e simplesmente fruto do cristianismo. A questão é multo mais complexa, pois no cristianismo buscar sua salvação é também uma maneira de cuidar de si. Mas a salvação no cristianismo é realizada através da renúncia a si mesmo. Há um paradoxo no cuidado de si no cristianismo, mas este é um outro problema.

Para voltar à questão da qual o senhor falava, acredito que, nos gregos e romanos sobretudo nos gregos, para se conduzir bem, para praticar adequadamente a liberdade, era necessário se ocupar de si mesmo, cuidar de si, ao mesmo tempo para se conhecer – eis o aspecto familiar do gnôthi seauton e para se formar, superar-se a si mesmo, para dominar em si os apetites que poderiam arrebatá-lo.

Para os gregos a liberdade individual era alguma coisa muito importante contrariamente ao que diz o lugar-comum, mais ou menos derivado de Hegel, segundo o qual a liberdade do indivíduo não teria nenhuma importância diante da bela totalidade da cidade: não ser escravo (de uma outra cidade, daqueles que o cercam, daqueles que o governam, de suas próprias paixões) era um tema absolutamente fundamental; a preocupação com a liberdade foi um problema essencial, permanente, durante os oito grandes séculos da cultura antiga.

Nela temos toda uma ética que girou em torno do cuidado de si e que confere à ética antiga sua forma tão particular. Não digo que a ética seja o cuidado de si, mas que, na Antiguidade, a ética como prática racional da liberdade girou em torno desse imperativo fundamentai: “cuida-te de ti mesmo”."

In: entrevista com Michel Foucault

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