06/12/2006

A violência começa em casa


Vivêssemos num tempo em que a marca maior não fosse o individualismo, certamente teríamos uma outra relação com o outro, em especial com o outro mais próximo – os filhos, por exemplo.

Dias desses, vi uma cena comum no estacionamento de um supermercado, envolvendo dois jovens adultos e duas crianças: pai, mãe e filhos, um menino e uma menina; crianças pequenas, com idades que não ultrapassam 4 anos.

Enquanto os adultos guardavam as compras no porta-malas do carro, as crianças foram colocadas no carrinho do supermercado. Vai pra lá, vem pra cá e o previsível aconteceu: tombaram e foram pro chão com o carrinho por cima.

Os choros de susto e de dor das crianças nada valeram para aqueles a quem se convencionou chamar de pai e de mãe. Pura convenção, porque o que se viu foi uma sessão de tortura: as crianças foram erguidas por aquela mulher e literalmente jogadas no banco traseiro do carro em meio a tapas, em especial na cabeça, e palavrões; enquanto isso, aquele homem ria e falava coisas supostamente engraçadas somente para um bruto. Como se isso não bastasse, a mãe continuou a surrar as crianças agora presas no interior do veículo.

Não passou pelas cabeças daqueles adultos, naquele momento de visível raiva da mãe e descompromisso do pai, que as crianças pudessem ter se machucado. Não lhes ocorreu saber o que, de fato, aconteceu com os pequenos ali ao lado deles. Nada! As únicas reações foram distribuir palmadas raivosas e tirar sarro da desgraça dos outros. Quais outros? Ora, dos próprios filhos, há pouco saídos das fraldas...

Pesquisas divulgadas durante esta semana apontam um aumento nos índices de violência no Brasil. Nada de novo, já que situação como a descrita acima não deixa evidentes pelo menos alguns dos motivos da violência.

É claro que este fenômeno tem a ver com os modelos de sociedade, de economia, de cultura etc, que temos adotado no decorrer da história. Exatamente por isso, é na família, ou melhor, no núcleo familiar, que ele se manifesta com toda sua magnitude. A violência nasce aí e é justamente aí que ela deixa, em profundidade, suas marcas cravadas.

“Presenciar cenas de violência doméstica pode ter um sério impacto numa criança, que, por vezes, fica marcada para toda a vida. Estima-se que 275 milhões de crianças assistam por ano a cenas de violência, em todo o mundo.” – afirma um dos documentos.

Uma criança que, desde a mais tenra idade, convive com a violência, ora como vítima, ora como expectadora – mas também como personagem de uma história que não tem nada de entretenimento – aos 7 anos já viu e viveu tanta coisa, que encher de porrada o colega na escola ou na rua é algo absolutamente normal.

Daí pra frente – e a continuar vivendo em espaços em que não se cultiva o diálogo e o bom senso e, portanto, o outro é tão importante quanto o eu – bater e matar e morrer seja lá quem for são verbos que se conjugam sem nenhuma dificuldade em qualquer tempo e em qualquer lugar.


2 comentários:

  1. Esses dias estava conversando com amigos sobre este assunto. Fiquei bem injuriado porque não conseguia por em palavras o que eu pensava sobre o assunto.

    Tivesse lido esse seu post, não teria passado por isso. Tá tudo aí!

    Abraço

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  2. Anônimo13:22

    Quando a violência se torna tão explícita, a ponto de ser praticada com direito a platéia, é porque entre as quatro paredes do lar já alcançou proporções ainda mais graves, já que não haverá qualquer testemunha
    Essas crianças que, hoje são as vítimas, amanhã se não se tornarem adultos violentos, pois a violência é uma constante em suas vidas e poderá parecer-lhes algo natural, certamente serão pessoas com dificuldades de relacionamento, reprimidas, que lotarão os consultórios dos analistas, pois toda vítima de violência traz em si uma ferida que não se cicatriza por inteiro!
    Ana Paula Offenstein Teles

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