05/01/2007

Quem nasceu para carneiro não se espante quando é comido!


- Você sabe quem falou isso ai?

- Nem imagino.

- Foi o Bocarra.

- Bocarra?

- Sim, o P.P. Bocarra.

- Quem é esse cara?

- O Pedro Paulo Bocarra, o Rei da Carne de Chicago.

- Nunca ouvi esse nome.

- É um personagem de A Santa Joana dos Matadouros, do Brecht.

- Conheço pouco o Brecht... uma e outra poesia...

- O pano de fundo dessa peça é a Queda da Bolsa de Nova Iorque, em 1929, que foi, segundo dizem,
a primeira e maior crise do capitalismo. Os donos do dinheiro produziram muito, mas não tinha quem comprasse os seus produtos. Havia mais oferta que procura. Então, a quebradeira foi geral. Os endinheirados, inclusive os do Brasil, que na época eram os fazendeiros do café, se ferraram... e o povo também, conseqüentemente...

- E o que é que Santa Joana tem a ver com isso?

- Negociando carne, o Bocarra era o maior poderoso em Chicago. Ele controlava o mercado. Comprava e vendia do jeito que bem entendia, de modo que todos os outros braços do negócio, tipo criadores, transportadores, investidores, industriais etc. dependiam dele, quer dizer, do dinheiro dele.

- ... E a Santa Joana?

- Acontece que quem mais dependia do homem eram os trabalhadores que, embora perdessem suor e sangue e vida nos matadouros de bois, porcos, carneiros e outros animais... recebiam salários baixíssimos e viviam em condições miseráveis. Joana era uma dessas desgraçadas e, para compor o belo quadro da exploração, fazia parte de um grupo religioso que, como sempre, cumpre muito bem o seu papel de domesticar os homens, amansá-los, prometendo vida boa e felicidade em outro tempo (depois da morte) e lugar (o que chamam de céu).

- Joana, então, faz parte do jogo, ao lado de Bocarra...

- Não. Ela enfrentou o Bocarra. Por várias vezes, frente a frente, disse ser ele o responsável pela miséria daquela gente toda. Falou em nome dos famintos... Cobrou dele outras atitudes... O cara, por sua vez, até que ouviu a menina (ela tinha cerca de 20 anos), chegou a dizer que admirava a coragem e ousadia dela e coisa e tal, mas absolutamente nada alterou o seu jeito burguês de ser e de viver e de viver da exploração do outro, ou melhor, de todos os outros. Joana, por essas e por outras, passou a ser reconhecida e respeitada pelos miseráveis.

- E ela virou santa por causa disso?

- Mais ou menos. No momento mais crítico da quebradeira, em que as condições tendiam somente a piorar, em que o Bocarra e seus braços estavam aparentemente na pior, em que uma multidão de famintos, a qualquer momento, como o gado, podia estourar, em que uma possível greve geral poderia paralisar de vez os negócios do rei da carne e, aí sim, complicar a vida dos homens do dinheiro, em que a polícia fazia o seu papel a favor de uns e contra outros...

- E daí?

- Bem, aí é que Joana, mais uma vez, enfrenta os poderosos, dizendo coisas que eles sabiam muito bem serem verdadeiras, mas não queriam que os outros ouvissem, porque simplesmente não convém que esses outros, sempre muitos outros, ouçam e saibam de coisas que possam vir a complicar os que sabem muito bem o que significa a separação entre uns e outros...

- ... E a Joana?

- Passa um tempo, ela é perseguida, de algum modo é ferida e trazida pra morrer diante de Bocarra e seus braços. Aí, então, ela vira santa. Ou melhor, os endinheirados fazem dela uma santa. Colocam bandeiras sobre o seu corpo e, junto com os miseráveis, na frente e ao lado deles, velam a Santa Joana dos Matadouros.

- Caramba!!!

- Muito espertamente, os endinheirados perceberam que a morte de Joana era um momento excelente, um fato primoroso que não podia deixar de ser capitalizado. Se ficassem ali e fizessem as honras fúnebres ao corpo da menina guerreira, que em vida teve a petulância de se dirigir a eles, os poderosos, e desafiá-los em favor dos miseráveis e famintos como sempre; se eles permanecessem ali por algum tempo, certamente aqueles desgraçados não os veriam e os tratariam como, de fato, eles mereceriam ser vistos e tratados, mas, ao contrário, como pessoas boas, tão humanas a ponto de elegerem a brava e defunta lutadora como A Santa Joana dos Matadouros...

- Sacanagem!!! Muita sacanagem!!!

- Pois é, agora que você sabe quem é o tal do Bocarra, entende o que ele falou? Entende que Quem nasceu para carneiro não se espante quando é comido! é bem mais que uma frase de efeito? Que um cara como ele – rico porque vive da miséria de muitos, e vivo porque se nutre do sangue dos animais e do sangue dos homens que matam os animais – não joga uma palavra fora e nem brinca em serviço? Entende que para ele, assim como para seus iguais, há um matadouro – um lugar cuja única razão de existir é acabar com a vida do outro – separando as pessoas?

- Entendo, sim. E, cá entre nós, não há novidade alguma nessa história. Não conhecia esse Bocarra, mas bocarras não faltam; estão estrategicamente espalhados por aí, e interpretando, cada vez melhor, os seus papéis. Os miseráveis também; pra não mexer no cenário, basta um prato de sopa e uma promessa qualquer. E para que o espetáculo continue, é preciso que Joana exista; que ela fale, que grite, que corra e que morra... assim... sofrendo muito... até ser transformada em santa... Você conhece matadouros sem santos e santas? Depois de Joana, virão outras e, muito provavelmente, passarão por situações parecidas com as que ela passou. E, assim como a Joana de Brecht, talvez sejam transformadas em santas também...

Um comentário:

  1. Mariana Moura15:25

    Hummm... esse texto é seu, né? vc leu a peça toda agora?
    Achei que, nesse seu texto, quase que vc simpatiza com a Joana. Ela deve ser olhado com a mesma crítica que olhamos o Bocarra, ambos tão imprecidíveis a essa forma de organização social. Não dá para limpar a barra de ninguém... Conscientes ou não (isso é, na minha opinião o que mais difere Joana de Bocarra) ambos são peças da engrenagem e atuam para mante-la funcionando, sem grandes percalços.
    Vemos Joanas transformadas em tantas outras formas hj em dia... Religião é o modo mais ordinário... mas são tantos os outros formatos.
    Sem ingenuidade e vigilantes para não sermos peça de nada. Nem sempre boa vontade resulta boa coisa.
    Não se pode dormir no ponto!!
    E viva o Brecht... que escreve bem pra dedéu!!!

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