02/02/2007

O irmão de Bentham


Nem Foucault sabia o nome dele. Apenas diz que foi o irmão de Bentham quem teve a idéia e fez a sugestão.

Bentham era um ilustre jurista desconhecido, que viveu na Inglaterra, lá pelos anos de 1700, até ser descoberto pelo filósofo quando pesquisava a arquitetura hospitalar na segunda metade do século XVIII.

Foucault queria saber como havia se institucionalizado o olhar médico, já que o hospital era, ao mesmo tempo, o suporte e o efeito do novo olhar que se constituía na sociedade disciplinar, onde vigiar os corpos é absolutamente fundamental. Pesquisando as prisões, Foucault encontra nos textos dos juristas, além das mesmas preocupações dos médicos, referências ao tal Bentham, ou mais exatamente, ao Jeremy Bentham.

Diz Foucault que o inglês descobriu um tipo de ovo de Colombo na ordem da política.

Visitando a Escola Militar de Paris, por volta de 1750, o irmão de Bentham encantou-se com a disposição das celas envidraçadas em que os alunos eram colocados. Embora os meninos estivessem uns ao lado dos outros, não tinham nenhum contato entre si e, ao mesmo tempo, eram vistos e vigiados o tempo todo. Foi quando ele pensou e propôs o Panopticon.

Bentham tomou a idéia e a tornou material. Criou, então, o modelo assim descrito por Foucault:

O princípio é: na periferia, uma construção em anel; no centro, uma torre; esta possui grandes janelas que se abrem para a parte interior do anel. A construção periférica é dividida em celas, cada uma ocupando toda a largura da construção. Estas celas têm duas janelas: uma abrindo-se para o interior, correspondendo às janelas da torre; outra, dando para o exterior, permite que a luz atravesse a cela de um lado a outro. Basta então colocar um vigia na torre central e em cada cela trancafiar um louco, um doente, um condenado, um operário ou um estudante. Devido ao efeito da contraluz, pode-se perceber da torre, recortando-se na luminosidade, as pequenas silhuetas prisioneiras nas celas da periferia. Em suma, inverte-se o princípio da masmorra; a luz e o olhar de um vigia captam melhor que o escuro que, no fundo, protegia. (Microfísica do Poder)

Bela idéia, não? Tão simples como colocar em pé um ovo, não é?

Mais que simples, a sugestão trazida pelo irmão de Bentham – mas formulada e batizada pelo inglês, como frisa Foucault – virou a grande invenção para o bom e fácil exercício do poder. Algo politicamente correto e totalmente viável economicamente...

É que o jurista captou a real necessidade de médicos, industriais, juizes, educadores... preocupados com tantos corpos espalhados por aí, correndo o risco de se tornarem autônomos e sujeitos da própria história... É fundamental torná-los dóceis e obedientes... Como diz Foucault, Bentham descobriu uma tecnologia de poder própria para resolver os problemas de vigilância.

Se deu certo?

Olhe pra você, pra nós, pras nossas sociedades e observe o quantum de razão tinha o irmão de Bentham.

É ou não é?


3 comentários:

  1. Diego14:44

    Aê, Donizete, você não para quieto com o layout do blog, hein? Cada vez que eu entro aqui tá diferente... :)

    Quanto ao texto, doces corpos...

    Abraço

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  2. Mariana - nana18:16

    Ê Donizete, li o texto e em seguinda vi uma tirinha dessa mafalda esperta. Tá aqui ó:
    http://www.mafalda.net/pt/comic3.php
    é a segunda, se não me engano.

    abraços saudosos

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  3. Oi, Nana!
    Se ele não patenteou, não patenteia mais. Há muito, nós nos ocupamos disso!

    Adorei ver você por aqui!

    Beijo!

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