10/04/2009

Um pouquinho da nossa história

Donizete Soares

Dos pouco mais de 500 anos de história do nosso país, quase 400 foram de escravidão. Escravidão mesmo. Da brava.

Milhões de africanos foram trazidos para cá para viver e trabalhar em condições absolutamente subumanas. Mais: sequer eram vistos e tratados como humanos. Para os colonizadores, os negros eram coisas para o trabalho. Qualquer trabalho. Patrocinando a empreitada colonizadora, a Igreja Católica estava convencida de que eles podiam ser esfoliados tanto quanto os brancos quisessem, afinal, como dizia, os negros não tinham alma mesmo…

Durante esse período – nada menos que 322 longos anos – o Brasil foi colônia de Portugal e de outros países da Europa. Colônia, como sabemos, é o nome dado a um território ocupado e administrado por gente de fora dele, contra a vontade de seus habitantes.

De repente, como num passe de mágica, a Colônia virou Império. Tal como em outros países da Europa, por aqui também teve rei. Ou melhor: dois reis e, claro!, os amigos dos reis. As terras brasileiras deixaram de ser de Portugal e se tornaram propriedades do imperador – principal representante do poder de mando na sociedade – evidentemente sustentado por escravos misturados com a gente nascida pobre por aqui.

Primeiro e Segundo Reinado duraram nada menos que 67 anos. Somados aos 322 anos de Colônia, temos aí a bagatela de 389 anos de total submissão do povo brasileiro aos interesses de outros povos. E com um detalhe: jamais faltou a água benta da Igreja Católica…

Novamente, outro passe de mágica: o Brasil, de um dia para o outro, deixa de ser Império e vira República. Da noite pro dia, o rei caiu do trono. Era chegada a hora de derrubar e desmontar o castelo. Era chegado o momento de atender a outros interesses. Afinal, a Europa industrial precisava de um outro Brasil.

Como sabemos, a palavra República vem do grego e quer dizer Coisa Pública, Coisa de Todos, Bem Comum. Ou seja, o que era do rei – as terras, os bens, as riquezas… – passa a ser de todos. E a forma de fazer a gestão da República recebeu o nome de Democracia, outra palavra que também vem do grego e quer dizer Governo do Povo ou o Poder nas mãos de Todos.

Todos? Claro que não! É só um modo de dizer. Afinal, somente alguns eram amigos do rei e, portanto, somente eles teriam direito às terras, bens e riquezas antes concentradas nas mãos do imperador. A diferença, agora, era que ele não mandava mais. Quer dizer: o espaço do rei seria ocupado pelos antigos amigos e, para que isto fosse verdadeiro, ou melhor, para que eles tivessem alguma autoridade, o povo, além de manter economicamente os iguais aos mesmos de antes, teria também que votar, isto é, botar fé neste ou naquele que, teoricamente, defenderiam seus interesses…

De lá pra cá, são 108 anos.

Logo no início, governaram os militares. Depois, os fazendeiros de São Paulo e Minas Gerais. O primeiro período foi chamado de República da Espada e o segundo, República do Café com Leite. Tempo bom para os amigos, os filhos dos amigos e os amigos dos amigos do antigo rei. Momento de formar os grandes latifúndios, enormes quantidades de terras nas mãos de meia dúzia dos Homens Bons, como eram chamados os fazendeiros que decidiam e definiam, através do voto de cabresto, quem deveria ocupar os poderes executivo, legislativo e judiciário.

Chega 1930 e os fazendeiros perdem o poder pra Getúlio Vargas, político de carreira, vindo do Sul do país. Ficou nada menos que 15 anos governando o Brasil. Em 1937 criou o chamado Estado Novo, quer dizer, acabou com os poderes legislativo e judiciário e implantou a Ditadura. E assim, o que era, mal e mal, poder de todos, passou a ser poder de um. Melhor: Getúlio Vargas passa a representar unicamente os interesses de uma minoria que não concordava mais com a minoria governante. Com ou sem cabresto, ninguém mais podia votar.

Ditadura da brava. Ai de quem não concordasse ou ousasse discordar da minoria da minoria! Perseguição, prisão, tortura e morte era o trajeto previamente desenhado para os opocionistas, em especial aos comunistas e anarquistas. Aos que sequer sabiam se podiam ou se deviam se opor ao novo regime – ao povão, como costumamos dizer – pão e circo junto com alguns direitos, particularmente aos novos escravos e servos, agora denominados Trabalhadores.

Fim da guerra mundial e fim da ditadura Vargas. Por 19 anos, o Brasil entra no clima da democratização. Voltam as eleições. Avanços sociais importantes se dão aqui e ali. Porém, grupos de trabalhadores e estudantes se organizam e discutem os caminhos do Brasil, desagradando, assim, amigos dos amigos dos amigos.

Chega 1964 e, por cerca de 20 anos, muitos brasileiros conhecerão de perto o mesmo trajeto dos que se opunham ao Estado Novo. Outra ditadura. Da brava. A palavra ditadura também vem do latim, mas em português brasileiro ela se tornou um termo com significado bem especial, como se pode ver no Dicionário Houaiss: governo autoritário exercido por uma pessoa ou um grupo de pessoas, que tomam o poder desrespeitando as leis em vigor… poder legislativo inexistente ou enfraquecido e subordinado ao poder do(s) ditador(es), o mesmo acontecendo com o judiciário… não há estado de direito, imprensa livre, liberdade de associação, de expressão, nem eleições livres e regras claras de sucessão. E por aí vai…

De 1985 até hoje, período de redemocratização, certamente importantíssimo se nós quisermos construir uma grande nação. Se quisermos, sobretudo, nos constituir em um povo que se faz respeitar, tanto interna como externamente.

Enfim, fechando as contas: 389 de escravidão mais 39 de ditadura é igual a 428 anos de quase nenhuma participação do povo nas decisões sobre os rumos do Braasil. Vale dizer: embora seja co-responsável por cem por cento de sua história, o povo brasileiro somente se fez ouvir e teve alguma participação no governo durante menos de vinte por cento desse tempo todo.

E aí? O que você pensa sobre tudo isso?

2 comentários:

  1. Tá na hora de mudar né?!!!!
    Vamos ver se agora vai, ou netão racha de vez...rs. Ao menos um de nós chegou a presidencia, e o próximo (a), será que continuaremos sendo representados lá, ou os "regressistas" assumiram?!!!

    ResponderExcluir
  2. Lúcia00:09

    Que precisamos aprender a ouvir e ler a nossa história, é por falta de informação e de interesse nosso que ela se repete.
    Ou melhor, preparar os pequeninos desde o berçário. Só precisa preparar os profissionais.

    ResponderExcluir