23/08/2010

Democracia Representativa

No começo do fim do mundo grego, os atenienses inventaram a democracia como forma de governo: nada de rei, nada de um legislador, nada de um mandar e os outros obedecerem. O governo, diziam, deve ser de todo o povo; o poder deve estar distribuído na sociedade.

Na época, cerca de 2500 anos atrás, entendia-se por sociedade o grupo dos senhores (homens adultos) que não precisava trabalhar para sobreviver. Quem os mantinha vivos eram os escravos, 1/3 da população, que girava em torno de 300 mil habitantes.

Como se vê, uma situação bastante confortável para 10% dos habitantes que podiam discutir e decidir sobre os rumos da sociedade. Tinham plenos poderes políticos e não representavam ninguém, a não ser a si próprios. Para manter seus interesses, utilizavam-se de discursos muito bem elaborados e, dessa forma, convenciam (ou não) os outros cidadãos.

Essa forma de governar inspirou os burgueses de há pouco mais de 200 anos, quando conseguiram tirar os poderes da igreja católica e dos reis. Diziam que não era justo todos terem de acatar as ordens de alguém que herdou poderes simplesmente porque era filho ou neto ou bisneto de alguém que, outrora, foi reconhecido como todo poderoso. Ou então que tais poderes tinham origem na vontade divina.

Estavam certos de que a forma de governo ideal era a que os gregos haviam inventado. Muito boa essa ideia de “governo do povo, pelo povo e para o povo”, diziam e continuam dizendo. O povo é soberano, sabe o que quer, é sábio; a voz do povo é a voz de Deus – não se cansavam e não se cansam de repetir.

Mas como eram e são outros os tempos, e considerando o fato de que há coisas que mudam e coisas que não mudam, a forma de governo, embora devesse e deva ser a mesma, não podia e não pode ser exatamente igual. Era e é preciso manter e, ao mesmo tempo, mudar: manter o discurso, mas mudar a prática que decorre do discurso. Em muitos aspectos, precisava e precisa ser bem diferente.

O mais importante desses aspectos, quer dizer, aquele que garante a alteração de todos os outros, é que os membros das sociedades atuais não podem, eles mesmos, defender seus interesses. Não pode ser possível, não daria certo – afirmavam e ainda afirmam. Por quê? Ora, porque nem todos possuem as condições necessárias para discutir e decidir sobre o que é mais importante para a vida social. Além de despossuída, a maioria é desqualificada, ou melhor, incapacitada para o exercício do poder que exige, sobretudo, espírito público. Nem todos estão preparados para uma ação tão nobre e desprendida, ação que tem como objetivo principal lutar pelo bem de todos...

Filósofos, políticos, escritores etc. trataram de escrever milhares de teses, artigos e discursos pra dizer que você e eu somos incompetentes pra discutir e decidir sobre as nossas vidas. Mais: que nós devemos escolher pessoas mais aptas, mais corretas, mais justas e mais sábias, a fim de que elas, com o nosso consentimento, digam o que podemos e devemos fazer conosco mesmos.

Foi assim que nasceu a tal “democracia representativa”. O discurso é o mesmo, mas a prática decorrente dele é outra coisa: através do voto, o sujeito escolhe (em alguns lugares, como no Brasil, escolhe obrigatoriamente) alguém para, com a sua autorização, discutir e decidir o que é melhor para todos. Mais: embora o faça secretamente junto a urna que afirmam ser inviolável, o sujeito deixa claro, publicamente, que ele próprio é desqualificado e incapaz de discutir e decidir sobre o presente e o futuro de todos os membros da sociedade.

Um comentário:

  1. muito bom, parabens.

    http://danbrandao.blogspot.com

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