21/01/2011

Não fosse a solidariedade...

Quem de nós já não passou por momentos difíceis na vida? Quantas vezes vivenciamos situações que pareciam não deixar nenhuma saída? Felizmente, a maioria de nós consegue, de alguma forma, se livrar dessas encruzilhadas, se equilibrar e seguir adiante. Nem todos, contudo, podem dizer o mesmo. Há os que chegam ao fundo do poço, e por muito pouco não sucumbem...

Embora os meios de comunicação social prefiram fazer shows com a miséria humana, escrevendo, falando e mostrando o que há de mais baixo, tacanho e enfadonho que pode chegar um ser humano, há pessoas generosas que não medem esforços no sentido de amenizar o sofrimento de muita gente. Conseguindo olhar além de si mesmas, dos seus próprios umbigos, essas pessoas verdadeiramente salvam (nada a ver com o discurso igrejeiro) a vida de seus iguais.

Não falo, evidentemente, dos que exploram o trabalho de seus funcionários e não pagam impostos sobre suas riquezas, por exemplo, e depois, para aliviar a consciência, praticam a tal caridade cristã. Também não me refiro aos que, para se mostrarem bonzinhos, fazem doações (vultuosas ou não) para instituições de caridade ou ONG's que acalmam – para não dizer reprimem – as possíveis reações dos que vivem em situações miseráveis, quase sempre provocadas justamente por eles. Seguramente, a miséria social e econômica a que milhares de seres humanos estão submetidos não é menor que o nível de miséria humana almejado e sustentado por quem consegue pegar para si próprio a riqueza que é produzida pela grande maioria...

Mas, voltando aos solidários, o que os mobiliza? Que sentimento é esse que faz com que alguém deixe de lado os próprios interesses para se interessar pelos outros, não importando, sobretudo, quem são esses outros? O que o leva a deixar de “ganhar dinheiro” com suas habilidades e seu profissionalismo, e dedicar parte do seu tempo ao outro sem pensar e querer nada em troca?

A resposta é uma só e tem a ver com o sentimento mais antigo que o homem desenvolveu: o apoio mútuo, o que há de verdadeiramente nobre na história da humanidade, a razão pela qual o ser humano conseguiu sobreviver durante tanto tempo na terra. Se desde o princípio tivéssemos que enfrentar o tipo de sociedade que hoje mantemos, muito provavelmente a espécie não existiria.

Enganam-se, pois, os que afirmam que a competição é a mola mestra da sociedade – interpretação tendenciosa da teoria da evolução do Darwin. São, no mínimo, falaciosas as afirmações de que a vida em sociedade é uma contínua competição, que somente os “melhores” vencem, que o mercado é o campo ideal pra vencer na vida... Enganados, destratados e dilacerados por dentro, não são poucos os que repetem, sem pensar, afirmações como estas.

Faz sentido, isto sim, a o que disse o geógrafo Kropotkin: nenhuma espécie sobreviveria – a humana, inclusive – se, a princípio, os iguais não se juntassem e, assim, se fortalecessem. Não fosse o sentimento de estar junto, de uns apoiarem os outros, a necessidade de ser gregário, isto é, de viver em grupo e coletivamente enfrentar as adversidades naturais e os animais muito mais fortes e maiores que os humanos, certamente não habitaríamos a face da terra há muito tempo.

Um comentário:

  1. Diego09:04

    gostei do "interpretação tendenciosa". textos como esse muitas vezes põem direto na conta da teoria da evolução por seleção natural a existência do individualismo destrutivo.

    mas é curioso observar que, em última análise, se uma interpretação tendenciosa de Darwin justifica o assassinato, uma do Kropotkin justifica o genocídio.

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