09/04/2011

Tragédia na tela da tevê

Observe como a mídia oficial/comercial trata as tragédias... Em especial as tevês, o que buscam e mostram? Esbanjam cenas carregadas de dor e da tristeza dos outros – os protagonistas de suas esperadas e, mais que isto, aguardadas narrativas.

Quem está mais abatido? Quem está sofrendo mais? Qual o melhor ângulo, o melhor enquadramento? E as coisas, os lugares destruídos, as pessoas – especialmente as pessoas? Onde elas estão concentradas? É fundamental que elas apareçam chorando e desesperadas. [quanto mais, melhor!] Tem alguém revoltado e bravo?...

Há reporter que tem a pachorra de perguntar às vítimas o que sentiram na hora trágica. Embarga a voz e – não importando se são crianças, jovens ou velhas – pede que falem sobre o que elas pensam em fazer daí pra frente... E continua a entrevista emocionada até o momento em que ouve “não há o que fazer”, “é assim mesmo” e “é vontade de deus”... [O máximo! - exatamente o que esperava.] Em seguida, com ar sério e algo preocupado, falam os apresentadores ou âncoras que, em geral, dizem o mesmo que já foi dito e mostrado. Então, tecem alguma consideração que, a rigor, nada acrescenta, para, logo depois, abrirem um sorriso para anunciar a próxima notícia...

É claro que este modo de tratar as desgraças humanas não é uma novidade inventada pela mídia oficial/comercial. Em particular, os jornais televisivos deixam muito a desejar em matéria de... matérias jornalísticas. Por conta do modelo adotado – que, certamente, “vende bem”; caso contrário, seria outro modelo –, quem nele trabalha aceita, concorda, sustenta e mostra a própria cara no que há de pior em termos de tratamento da informação.

Muito antes dos negócios mídia oficial/comercial, a igreja católica tratou de “capitalizar” as tragédias e as inevitáveis dores humanas; e não somente ela, mas todas as outras que aparecem a todo momento nas ruas, praças e becos do país. Afinal, com escola tão boa e eficiente, como não aprender? Com exemplos tão edificantes, como não se tornar especialista na cada vez menos sorrateira capacidade de explorar o outro, sobretudo quando ele mais precisa da solidariedade dos seus iguais? Você conhece alguma igreja que, mesmo pregando o tempo todo a preocupação com o homem, não explora justamente a fragilidade humana, em especial a dor provocada pela tragédia? Não dizem elas que o céu não é pra qualquer um, mas somente para os que sofrem sem deixar de frequentá-las e, claro, contribuir com a tal 'obra do criador'? [O que não dizem e fazem para encher a sacolinha?!]

Mas o que pretendem as empresas que controlam a mídia oficial/comercial? Seguramente, nada que tenha a ver com solidariedade – termo, aliás, que não cabe no vocabulário empresarial. Ao contrário, o que sustenta o sistema econômico que, juntos, mantemos é justamente a exploração do homem pelo homem. No máximo, falamos em 'ajudar' o outro, nos moldes do que a igreja católica difundiu como 'caridade'. Nada mais que isto! Ora, como são empresas [nos tempos mais recentes, as igrejas também funcionam como empresas], ou seja, são formas de investimento de dinheiro, isto é, capital – e capital, se não for transfomado em mais capital, isto é, em lucro, simplesmente desaparece –, a única coisa que interessa é o lucro, o aumento do capital. Portanto, tudo vale. Vale tudo! [A dor é um grande negócio!!!]

Há muito, sabemos o quanto a dor e a desgraça do outro nos chamam a atenção. É dura e triste essa constatação, mas há como dizer o contrário? Geralmente, as expressões de alegria e felicidade incomodam e geram reações contrárias às expressões de dor e tristeza. Gostamos de festa, mas o que nos envolve e comove mesmo é o luto... Quantos de nós, gratuitamente, nos alegramos com a alegria do outro? O mesmo não ocorre com relação à sua dor; não raro, sofremos com os seus sofrimentos, choramos com ele, não importando se é alguém próximo ou não. Aprendemos a ser solidários na tristeza.

O fato é que tanto as igrejas como as empresas de mídia sacaram bem essa nossa fragilidade. Mas, sobretudo, contaram e contam com o consentimento da sociedade para operarem dessa maneira. Não fosse assim, as segundas não teriam aprendido tão bem como aprenderam as lições das primeiras e, ambas, não alcançariam o sucesso que se renova a cada dia. São muito parecidas tanto nos propósitos quanto nos resultados... Não partilham os mesmos espaços, buscando o mesmo público? Não vendem as mesmas ideias, produtos e serviços? Não disputam a tapa os mesmos consumidores? Direta e indiretamente, não visam e obtém lucros?

Há quem diga que a gente se vê na tela da tevê. É possível, já que na tela da tevê muitos se deixam (ou fazem questão de) mostrar, expondo os efeitos da tragédia que resulta da nossa dificuldade de ver a nós próprios como meros consumidores de ideias e valores. Tão embaçadas de água benta, nossas vistas se contentam em contemplar as tragédias na tela da tevê...

3 comentários:

  1. Também escrevi sobre isso, no dia do acontecido.

    http://soudonodaminhavoz.blogspot.com/2011/04/sobre-cobertura-de-realengo_07.html

    Dá muita RAIVA, isso sim. Muita.

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  2. Isso me lembra muito nossas discussões na faculdade sobre senso comum e de como a sociedade é manipulada e se deixa manipular pela mídia e imprensa corrosiva.

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  3. isso me lembra muito nossas dicussões sobre senso comum na faculdade, de como a sociedade é manipulada e se deixa manipular pela mídia. simplesmente é triste.

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