07/09/2011

Não somos nada disso

É ilusória, deturpada e falsa a ideia de que somos americanos, europeus, asiáticos, africanos ou oceânicos. É enganosa – mais que isso, danosa – a série de divisões e subdivisões geográfico políticas autoritariamente imposta a todos nós. Não somos brasileiros, mexicanos, bolivianos, canadenses, guatemaltecos... Não somos paulistas, cariocas, baianos, acrianos, mineiros, catarinenses... Não somos nada disso.

América, Ásia, Europa, África e Oceania – assim como brasileiros, mexicanos, bolivianos... e paulistas, cariocas, baianos... – são termos convencionalmente criados para denominar milhares de gentes diferentes e únicas. São mais uma tentativa – vitoriosa, sem dúvida – de acabar com a diversidade que nos caracteriza e de nos fazer aceitar realidades que não nossas. Mais que isso: são mais uma tentativa de apagamento das nossas origens mais antigas. Mesmo assim, não dizendo nada que tenha a ver com essas milhares de gentes diferentes e únicas, são termos que estão aí há séculos, conseguindo fazer o maior estrago.

Não somos o que aprendemos na escola e o que os meios de comunicação social fazem questão de enfatizar. Escola e mídia, em geral, divulgam apenas o tipo de ciência bancada por interesses específicos, aliás, bem distantes de nossa história mais profunda. Espalham e defendem saberes que têm a ver, isto sim, com um suposto direito de alguns em delimitar territórios, escolher quem pode ou não pode habitar esse ou aquele território, impor uma língua e um jeito de falar, definir qual deve ser sua principal característica cultural...

Os milhares de grupos humanos espalhados pela terra são essencialmente marcados por particularidades e especificidades que nada têm em comum com aquelas divisões e subdivisões arbitrárias. Cada um desses grupos, por conta da língua e de alguns costumes comuns, tem histórias, trajetórias, objetivos e interesses igualmente diferentes e únicos. Não se parecem – por que teriam que se parecer? Não querem contatos com outros povos – por que teriam que querer? Não se interessam pelas mesmas coisas – por que teriam que se interessar?

Ora, por que, então, há quem se interesse tanto em juntá-los, nomeá-los, defini-los e classificá-los?

A ideia de que somos isso ou aquilo é mais uma das tantas mentiras que, desde crianças, ouvimos e somos levados a acreditar. Infelizmente – e sem pensar – a maioria de nós apenas repete o que aprendeu. E assim, de tanto ouvir e falar, o que foi e é insistentemente dito e repetido fica sendo verdade. Os mapas políticos descrevem pouco ou nada do que realmente tem a ver com as origens dos povos. São apenas e tão somente a expressão de vontades e interesses que, por sua vez, não são as vontades e interesses dos que efetivamente ali nasceram e vivem.

Procure investigar como cada um dos continentes, inclusive a Antártida, recebeu o nome que tem. Observe quem são, de onde são e por quê deram tais nomes a essas terras. Busque saber os porquês dessa divisão e da série de subdivisões. Por que elas são algo assim tão importante? Ou melhor: para quem são importantes essas denominações?

Graças aos discursos dos ignorantes e/ou dos quem se vendem para ludibriar as pessoas, não faltam teses e matérias audiovisuais e impressas visando impor somente um jeito de nos vermos e nos tratarmos. Até quando vamos admitir como verdade um punhado de coisas que, de tanto serem ditas, parecem ser o que, de fato, não são? Por que não duvidamos do que nos é dito? Mais: por que ao menos não suspeitamos do que insistentemente muita gente quer nos dizer e nos convencer?

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