14/03/2015

Apavora... mas não saber ver a hora no relógio

Dia desses, assim que entrei numa padaria próxima daqui, ouvi uma fala parecida com a que serve de título deste texto. Dois homens, adultos, conversavam junto ao balcão e um deles contava os últimos acontecimentos do local onde trabalha.

Enquanto aguardava o leito e o pão, fiquei sabendo que, há muito, ele é professor de educação física numa unidade da Febem de São Paulo, e que a situação desta instituição estadual só piora em todos os sentidos.

Dizia ele que o problema não são os meninos; é do maior, não do menor –  como se tratava a criança e o adolescente antes do ECA; é a politicagem dos adultos a responsável pelo fracasso da instituição ao lidar com os mais jovens em desacordo com a lei...

Lembrou que uma de suas lutas foi conseguir um relógio de parede para os meninos acompanharem o tempo dos jogos que ele promove durante as aulas. Demorou muito pra conseguir... Foi quando entendeu os motivos que fizeram a direção da unidade dificultar uma coisa, para nós, tão simples: é que nos sistemas de reclusão, esta é uma das formas de fazer o indivíduo perder a noção do tempo que ele está ali...
Sacanagem! – pensei comigo. Entrei na conversa e pedi a ele que falasse mais sobre o Apavora, mas não saber ver a hora no relógio. Ah!, sim – disse ele. Quantas vezes, durante os jogos – continuou – os meninos perguntam: Senhor (é assim que os internos chamam qualquer outro ou outra que não seja um deles...), quanto tempo falta pra acabar o jogo? Daí, eu falo: olha o relógio... ainda tem 20 minutos... olha lá...

O professor deu uma pausa, tomou um gole de cerveja e falou: quantos deles aqui fora são uns monstros, capazes de fazer qualquer coisa que a gente imaginar e lá dentro, por medo dos outros, são temidos e  respeitados... não são mais crianças, muitos deles são grandes, altos e fortes... trabalho numa unidade de infratores reincidentes... alguns já aprontaram muito por aí... eles apavoram, mas, como eu disse, não sabem ver a hora no relógio...



Quer dizer – comentei –, a sociedade sabe muito bem condenar, prender, punir... mas quantas crianças têm a oportunidade de contar com alguém que lhes ensinem o básico como, por exemplo, ver a hora no relógio? Pai, mãe, escola, poder público, igrejas, meios de comunicação... quem são os responsáveis por essa situação?

Penso que nós todos temos a ver com esse problema. Educação é um problema nosso, sem dúvida. Mas estou certo também que os homens e as mulheres que ocupam os poderes executivo, legislativo e judiciário, que vivem – e vivem muito bem! – dos impostos que nós pagamos, têm não somente a responsabilidade, mas a obrigação de atender integralmente a população e, mais ainda, as nossas crianças e adolescentes. É um absurdo aceitarmos as péssimas condições físicas das nossas escolas e a deprimente qualidade de ensino praticada por boa parte dos profissionais de educação do nosso país. O que dizer, então, do que há anos vem acontecendo na Febem???

Cansado e meio desanimado, disse o professor que toda vez que aquele tipo de coisa acontece – o que é mais freqüente do que a gente pode imaginar –, depois que o jogo termina, ele chama o garoto sozinho e explica como funcionam os ponteiros do relógio. Não houve uma vez, lembra o professor, que ele não tivesse ouvido, como todas as letras: Obrigado, Senhor!

Paguei minha conta no caixa e fui embora... [2006]

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