14/03/2015

Num bairro 'nobre' da cidade

Duas cenas ocorridas num mesmo local de um dos bairros nobres de São Paulo. Corriqueiras, dirão alguns, mas reveladoras de um tempo que consegue superar o homo homini lupus, do Hobbes. Certamente, nenhum lobo faria tanto estrago...

Em geral, habitam e freqüentam esses poucos espaços diferenciados da cidade, entre outras, pessoas estudadas em colégios e faculdades de nome, como se diz. Um bairro chique, sem dúvida, e como se verá, muito bom pra veterinários...

  
1] Três crianças; irmãos certamente. O mais velho – sete anos talvez, acompanhado por outro de não mais que cinco e a irmã, quatro, se tanto – chorava de modo desesperado ao ver e sentir o olhar e o peso da mão do 'distinto' senhor de corpo vergado sobre ele. O homem tanto falava alto quanto chacoalhava o corpo do pequeno engraxate que ainda não tinha lustrado nenhum sapato caro. E já era perto de 4 da tarde.

Não dava pra entender o que o homem dizia pro garoto vindo sabe Deus de onde. Do ônibus, disputando com o barulho do motor ao lado do motorista, só era possível ouvir os berros enfurecidos e ver três pares de olhos sem piscar. O que dava pra entender era que ele estava muito bravo... Por quê? Impossível saber...

Encerrada a sessão pública de tortura, e ainda espumando de raiva, o brutamonte soltou o menino e tomou sua caixa de brincar e trabalhar. Nela havia uma latinha de cera, uma velha e esgarçada escova de dente e um pedaço de pano usado, assim meio preto meio marrom..., além, é claro, de um carrinho e uma bola de plástico vagabundo. O 'distinto' senhor, então, fez com a caixa o que gostaria de fazer – e faria – com o menino, não fosse, obviamente, a educação religiosa que, há anos, recebera nas escolas de nome que freqüentara.

Com a bravura de homens sérios e profundamente indignados com a atual situação do nosso país, convencido de que efetivamente ele não tem nada a ver com esse estado de coisas, não só jogou ao chão a caixa de engraxate do garoto como, violentamente, pisou sobre ela com seu sapato de couro fino, destruindo-a completamente.

E as crianças? Ora, as três crianças fizeram a única coisa que podiam fazer: correr, correr e correr. E o estudado senhor? Em meio à inevitável roda de curiosos, falava e gesticulava muito. Sobre o quê? Claro, sobre sua enorme capacidade de prender e sacolejar um moleque de 7 anos...


2] Dias depois, no mesmo lugar, esquina de duas ruas famosas do bairro, outra cena animou os transeuntes locais. Dessa vez, o personagem principal era nada mais que um cachorro, ou melhor, um desses cachorrinhos que levam seus donos pra onde eles (os quadrúpedes) querem. Deixam-se prender por uma coleira, mas são eles que ditam os caminhos pra quem os têm teoricamente presos em suas mãos. São os filhinhos-da-mamãe-e-do-papai, não-faz-assim-com-a-amiguinha-não, seja-educadinho-senão-mamãe-vai-ficar-triste...

Nada contra os animais, em especial ao caseiro au au. Mas tem certos donos de cachorro que ai! ai!...

É o caso da distinta senhora da cena dois, passeando pelas ruas do bairro nobre com seu cachorrinho. Um passeio bastante comum, aliás, naquele pedaço da cidade que, dizem, concentra uma população considerável de cães de variadas raças e diversos tamanhos morando com seus donos em caros apartamentos.

Muitos deles (os donos), de tão cansados de tudo que aí está, já não carregam o saquinho de supermercado pra recolher os dejetos que seus cães vão depositando na via pública. Já houve até distribuição de folhetos chamando a atenção dos 'distintos cidadãos' pra conversarem com seus cãezinhos sobre atos tão nocivos ao olfato dos transeuntes, sem falar dos incômodos decorrentes das pisadas com sapatos de couro fino em troços espalhados pelas calçadas...

Bem, o fato é que, por alguma razão, um rapaz reclama à 'distinta' senhora do fato do seu cão ter avançado sobre ele, fazendo o conhecido escarcéu que sempre faz esse tipo de quatro pernas. O rapaz teria dito algo como 'vê se toma conta desse animal'...

Foi o suficiente para que a distinta-raivosa-cansada senhora, em meio a tantos impropérios, gritasse aos quatro cantos que denunciaria o rapaz ao delegado e, depois, o levaria aos tribunais. Aquilo era demais! Seu cãozinho de estimação fora vítima de uma ofensa inadmissível e imperdoável... Muito brava, não parava de dizer animal não, ele tem nome... [2010]

Nenhum comentário:

Postar um comentário