19/08/2015

'capital humano' – que horror! *

O capitalismo é um jeito de viver que alimenta e mantém o capital. E o que é o capital? É o resultado da riqueza coletivamente produzida, mas apropriada e acumulada por um grupo de pessoas que compra horas de trabalho de gente disposta a produzir riqueza... e permitir sua acumulação.
 
Depois do 'escravismo' e do 'feudalismo' – outros jeitos de viver –, o 'capitalismo' se instituiu como modalidade de existência social nos últimos 5 séculos, e tem sido convincente para um grande número de pessoas e extremamente favorável para bem poucas.
 
Que o diga o Relatório da Oxfam: 1% concentra mais riqueza do que 99% da população mundial; dentre os 99%, que detém 52% dos recursos totais, 56% estão nas mãos de cerca de 1/5 da população. Ou seja: 99% da população conta com apenas 5,5% das riquezas do planeta. No Brasil, de acordo com a Receita Federal, menos de 1% dos contribuintes concentram nada menos que 30% de toda a riqueza declarada em bens e ativos financeiros ['declarada', observe bem], algo em torno de R$ 17 milhões por pessoa.

Mas como e por que um jeito de viver assim teria – e tem – convencido tanta gente? Como é possível que um número significativo de pessoas aceite essa situação? Ora, se a riqueza é produzida coletivamente, por que apenas 1% dos produtores dessa riqueza consegue se apropriar da maior parte dela?

Ocorre que há pessoas que, sem perceber [ou fingindo não perceber], dedicam suas vidas a defender tanto o objetivo do capitalismo como os que mais se beneficiam dele. E sem perceber [ou fingindo não perceber], fazem por eles o papel de convencer a todos de que esse jeito de viver é o mais adequado.

Como assim? Bem simples: em troca de alguma remuneração, elaboram projetos, programas, discursos, pregações; ministram aulas e divulgam teorias; praticam ciências e forjam técnicas e tecnologias; fazem e aprovam leis; noticiam, reportam, documentam e publicam por todos os meios de comunicação; criam modelos de divulgação e marketing; inventam conceitos e os carimbam como verdadeiros… certos de que, assim, contribuem para... 'melhorar' a humanidade.

Um desses conceitos – tão perverso quanto tantos outros –  é justamente 'capital humano'.  Por que perverso? Porque é algo que corrompe – exatamente como é a etimologia da palavra latina pervertere: per [totalmente] + vertere [virar]: perverso é o que leva ao caminho inverso.

Ou seja: o conceito 'capital humano', porque supõe que o ser humano – especialmente na forma de educação e saúde – seja visto como alguém que alimenta e mantém o capital em si mesmo, faz a própria pessoa ser capital. 

 

Observe o que diz um dos seus formuladores: “ao investirem em si mesmas, as pessoas podem ampliar o raio de escolha posto à disposição. Esta é uma das maneiras por que os homens livres podem aumentar o seu bem-estar.” Grandioso, não?! O conceito é apresentado com ares de 'liberdade' e de 'bem-estar'. Mas é desmascarado, quando o mesmo ideólogo afirma: “[...] o esclarecimento do conceito de capital humano e a sua identificação mobilizaram as coisas para uma especificação mais completa de mensuração e acumulação de capital moderno. Fez, também, com que nos tornássemos mais conscientes das mudanças que se registraram na qualidade do capital material. Desta forma, o fato de tratar a educação como capital humano nada mais é senão um passo à frente rumo a uma captação consciente de todo o capital.” [SCHULTZ, Theodore W. O capital humano. Investimentos em educação e pesquisa. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1973]

Assim, o ser humano inteiro [cabeça, tronco e membros] é capital. Homem educado e saudável é, ele próprio, nada menos que alimentador/mantenedor do processo de apropriação/acumulação da riqueza coletiva. Para esse jeito de viver nos dias atuais, não bastam as 'horas de trabalho' do contratado. O capital necessita dos corpos inteiros das pessoas.
 
Assim, para o 'capital humano', educação não é mais um meio de acesso aos saberes que durante milênios a humanidade desenvolveu. Conhecer as diferentes culturas dos diferentes povos não tem importância alguma. Escolas e profissionais da educação devem ser instrutores, uma vez que não há nada a ensinar; o professor que pode levar o aluno a descobrir sua 'sina' não pode e não deve existir.

Do mesmo modo, saúde não é mais um direito primordial do ser humano. Buscar nutrir o corpo e atuar sobre si mesmo, tendo em vista “o completo estado de bem-estar físico, mental e social, e não simplesmente a ausência de enfermidade”, conforme a Organização Mundial da Saúde, é algo que não faz sentido. Por outro lado, o 'culto ao corpo' nas academias e a compra de remédios nas farmácias servem para cuidar e tratar o corpo como 'capital humano' e transformá-lo inteiramente em instrumento para o sucesso dos negócios.

Entende por que o conceito 'capital humano' é perverso? Entende por que 'liberdade' e 'bem-estar' significam formação e controle de cabeças e corpos para aumentar o capital?  Entende por que um grande número de pessoas é convencida a apoiar e manter esse jeito de viver? Entende por que ele é extremamente vantajoso somente para uns poucos? Entende por que algumas pessoas aceitam e divulgam o conceito 'capital humano' não percebendo [ou fingindo não perceber] que servem apenas e tão somente para alimentar, expandir e manter o capital?

Entende por que 'capital humano' é um horror?

[*] este texto integra a série 'Quem precisa de líder'

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