14/10/2015

Ouvir e Falar


Paralelamente ao fundamental direito de dizer o que sente e pensa, há o dever igualmente fundamental de ouvir o que ou outro sente e pensa.

Ou seja: fale o que quer e ouça inclusive o que não quer – o que é justo, afinal, seria muito fácil falar o que bem entende e, na hora de ouvir, simplesmente cair fora.

Ocorre que dizer o que sente e pensa e ouvir o que o outro sente e pensa não é algo simples, fácil e rápido. Ninguém nasce sabendo. É preciso aprender – o que também não é algo simples, fácil e rápido. Trata-se de um aprendizado que dura a vida toda. Precisamos de anos e anos pra aprender uma série de coisas… dentre elas, ouvir e falar. Não por acaso, a infância dos humanos é longa. Nenhum outro animal precisa de tanto tempo pra começar a ser minimamente independente da mãe ou dos mais próximos.

Também não por acaso, o primeiro sentido que desenvolvemos [e talvez o último que perdemos] seja a audição. Somente depois de ouvirmos muito é que começamos a ensaiar as primeiras palavras. Inicialmente confusas e engraçadas, aos poucos vão se tornando claras e objetivas. E depois de muito tempo conseguimos articular com alguma segurança essas mesmas palavras que fomos aprendendo.

Como outros animais, os humanos ouvem e, diferentemente deles, ouvem e, então, falam; ouvir e falar não são ações que ocorrem ao mesmo tempo. E dizem porque aprenderam a falar com outros animais humanos. Assim é que a qualidade da fala e da escuta de cada indivíduo humano depende, basicamente, do que ele ouviu dos que com ele conviveram desde a mais tenra idade, mas também do que ele, a seu modo, fez com o que ouviu.

O fundamental direito de falar, assim como o fundamental dever de ouvir supõem, portanto, o que o indivíduo fez com o que ouviu desde sempre. O que cada um fala está diretamente relacionado com o que cada um sente e pensa. E o que cada um sente e pensa vai do grandioso ao estúpido, do construtivo ao totalmente destrutivo, do humanizante ao extremamente desumanizante…

Penso que a cada um de nós convém, sempre, re-ver e re-visitar as palavras que nos foram ditas – foi e é assim que elaboramos nossa visão de mundo. Ou como digo sempre em forma de pergunta: você pensa o que o que você pensa? Convém também, sempre, cuidar das palavras que dirigimos aos mais jovens, sobretudo crianças na primeira infância.

Não há como exercer o direito fundamental de falar e ouvir sem, antes, exercitar o ato de ouvir e falar. Ouvir a si próprio vem antes de falar seja lá o que for.

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