06/11/2015

Equívoco

Houve um tempo em que a terra era de todos. Viver sem a terra era algo inconcebível. Não cultivar, não ter onde levar os animais para pastar, não ter onde morar... eram ações impensáveis. Naquele tempo, a terra era a morada dos homens e de todos os seres vivos.

Mas isso mudou. E como!!!


Conforme Rousseau, o filósofo, certo dia, apoiado por um grupo de homens armados, alguém chegou em determinado lugar e disse 'isto é meu' e, não encontrando quem o desafiasse, ali se instalou. Em seguida, alguns outros repetiram o gesto do primeiro e também não encontraram resistência.

Pronto! Estava criada a propriedade privada da terra – possivelmente, o ato mais perverso praticado pelo homem contra si mesmo e contra toda a humanidade.


Desde então, a luta pela sobrevivência, que já não era fácil, teve que incluir as proibições de acesso justamente ao que era inerente à existência humana. Desde então, viver e deixar viver é algo que implica negociar com quem se acha no direito de dizer quem pode ou não pode viver. Desde então, alimentar-se e alimentar os filhos depende dos interesses de quem, pela força, se apropriou do que a todos pertence.

Afirmar e admitir que há, supostamente, espertos versus ingênuos, néscios, trouxas, imbecis é estabelecer e manter uma relação consigo mesmo e com os outros fundada na mentira. É ter que inventar argumentos para justificar o inconcebível, o impensável e, diariamente, convencer-se e convencer os outros de que a morada dos homens e dos animais e dos vegetais e minerais não é mais de todos. É viver de mentir pra si mesmo e para os outros.

O fato é que aceitar a propriedade privada da terra [e seus desdobramentos] desominizou o homem. Fez dele um ser apequenado, alienado e, tal como raiz arrancada do solo, levado pelo vento da imundície, da corrupção, da violência.

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