03/12/2015

Padrões de sentimento e pensamento

Desde que começamos a perceber que palavras se referem a coisas e, portanto, servem para atender nossas necessidades, adotamos padrões de sentimento e de pensamento que nada têm a ver com a gente. Querendo ou não, gostando ou não, assumimos modos ou jeitos de sentir e pensar que já existiam, que têm a ver com outros tempos e respondem a perguntas e inquietações de outros.

Mas como precisamos sobreviver, acatamos. E pagamos muito caro por isso, principalmente porque, em nome deles, sacrificamos o único momento da vida em que, realmente, poderíamos ter sido livres.

  • De origem latina, o termo PADRÃO vem de PATRONUS e PATER [pai] e quer dizer “modelo a ser seguido”. Adotar padrões, então, é tornar próprios os modos de sentir e pensar dos outros. É atender a solicitações e exigências de quem entende e julga e faz questão de cobrar determinados modos de sentir e pensar, exigindo que as coisas devam ser tratadas e vistas dessa e não daquela maneira. 

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Ainda muito pequena, a criança é levada a sentir a si própria e o mundo de um jeito conveniente aos espaços em que nasceu: há sempre um onde, como e quando pode ou deve chorar ou rir, fazer festa ou ficar triste, mostrar-se feliz ou infeliz. Igualmente levada a perceber que há sempre um se e quando convém ou não pedir, cobrar ou até mesmo exigir isto ou aquilo, sofre agressões físicas e psicológicas quando arrisca fazer algo proibido, ainda que não tenha a menor ideia do que era ou não permitido fazer. Recebe elogios por ações que, a rigor, não sabe se estão ou não dentro dos padrões. Faz muita coisa e outras tantas deixa de fazer simplesmente porque é impedida, proibida, cerceada, reprimida. O que não falta é aperto na garganta, muito choro engolido, muita lágrima.

Quando começa a compreender e relacionar as coisas e ver que, de fato, elas dizem outras coisas, nota que suas primeiras reações [chutar a canela ou sair correndo ou simplesmente chorar] não mais garantem a sobrevivência. Observa que já não é mais 'novidade' e nem mais a 'engraçadinha' que chamava a atenção dos mais velhos. Descobre que cresceu – ao menos de altura e largura. Percebe que outro momento da vida chegou e exige dela outro comportamento: agora tem que falar, argumentar, justificar, debater... pensar. Quase que forçosamente diz 'estou aqui', já que tem de assumir responsabilidades sobre o que disse e fez. Entende que afirmar ou negar isso ou aquilo deixou de ser 'brincadeira' e transformou-se em caso de vida e morte. Negar o que foi dito e afirmar o que não foi dito passou a ter sentidos muito diversos do que tinham até então. Mentir, por exemplo, deixou de ser o contrário de verdade, pois se nem sempre a verdade convém, nem sempre a mentira também.
 

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Adultos, percebemos que pensar e falar, embora sejam atos tão livres quanto o voo dos pássaros, em geral, são também o tempo e o espaço fechado da gaiola. Notamos que estes são verbos quase sempre não conjugáveis, a não ser quando se trata do pensado e dito, admitido, conhecido e reconhecido, aprovado e permitido. Entendemos que convém pensar muito antes de falar e nem sempre falar o que pensa. Entendemos, sobretudo, que pensar e dizer não combinam com liberdade.

Com relação aos sentimentos - muito embora nem sempre percebamos e continuemos a não saber o que fazer com eles - estão presentes como base de cada uma de nossas ações. Permanecem latentes, pulsantes, formando um amontoado de ideias e sensações que geram medo, insegurança, agressividade, violência... prontos pra explodir a qualquer momento. E vêm à tona, com mais ou menos intensidade, nas reações que apresentamos ante a qualquer ameaça. Não raro, certas reações não se justificam. Nem nós mesmos nos reconhecemos. Não acontece de extrapolarmos ou, então, ficarmos paralisados? Situações assim não são muito comuns?
 

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O fato é que, após longo tempo, compreendemos que os padrões de sentimento e pensamento que forçosamente acatamos dos que vieram antes de nós, também forçosamente impusemos aos que vieram depois de nós. Justamente o que nos fez sofrer é o que fizemos com nossos filhos. O que nos impediu de arriscar, sonhar, realizar é o que impedimos que os que vieram depois de nós arrisquem, sonhem, realizem.

Quando crianças, embora quiséssemos muito, não pudemos e nem conseguimos dar asas à nossa imaginação criadora, ousada, livre – e, ao mesmo tempo, carregada de perigo, acidente e morte. Para nos proteger, fomos obrigados a obedecer e acatar. Mais tarde, por conveniência, muitos e muitos de nós fomos além de manter o que acatamos: adotamos como modelo e procedimento. Sentimos, pensamos e agimos imaginando – há quem acredita-se convencido – que nada temos a ver com aquele tempo, que tudo aquilo é coisa do passado. E assim, tocamos a vida.

Ocorre que sentimentos e pensamentos não se desfazem com a idade. Não desaparecem na vida adulta. Imposição, pressão, aprisionamento não diluem na água ou viram fumaça. Repressão, submissão e sofrimento não somem num passe de mágica. Ou seja, não se desfazem, não desaparecem e não somem!

Ao contrário, continuam mais que presentes em cada um de nós e têm a ver com cada uma das lembranças do sofrimento causado pelo cerceamento à nossa liberdade. Tudo o que sentimos, pensamos, dizemos e fazemos está intimamente ligado ao modo como, desde a infância, processamos a imposição dos modelos que nos foram enfiados goela abaixo. Será mesmo este o nosso jeito de sentir, de pensar, de ser e de viver?

É possível que o tempo de vida de cada um de nós não seja outra coisa senão tentar, de todas as maneiras, conviver com os padrões que nos foram impostos durante os anos iniciais de nossa existência.

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