12/02/2016

Façamos de conta

Isto mesmo! Façamos de conta que você e eu participamos de um grupo e, em dado momento, decidimos ser os representantes desse grupo. Achamos que somos competentes e suficientemente capazes para pensar e fazer pelo grupo, expressar e tornar público o que aquelas pessoas querem, sentem e pensam. Queremos também que elas assim nos reconheçam e nos aceitem como seus 'líderes'. E, para que tudo isso seja 'verdadeiro', estamos certos de que é fundamental que elas votem em nós, que elas nos escolham.

Os membros do grupo, por sua vez, não impedem nossa candidatura. Alguns, é verdade, até torcem o nariz, mas não vão além disso. Outros apoiam e envolvem-se em nossas campanhas. Há também, é claro, quem simplesmente não quer saber; então, resmungam, reclamam, criticam. Mas também não vão além disso.

Dentre os envolvidos, há quem tome o seu discurso e o transforme em verdade. Viram porta-estandarte e gritam e berram e brigam em defesa das 'verdades' que você diz. Muito embora saibam pouco ou nada de sua história, por onde e com quem você andou e o que, realmente, você quer da vida – portanto, não sabem ao certo o que estão falando – emocionam-se e o defendem como se você fosse um pedaço dos seus corpos, dos seus sentimentos e dos seus pensamentos. 

Outros fazem o mesmo comigo: juram fidelidade, vibram com meu discurso, consideram minhas falas mais interessantes que as suas. Muito embora também não saibam nada ou quase nada sobre a minha história e o que eu quero da vida, afirmam que minha capacidade de representá-los é maior e melhor que a sua, que o que eu digo é melhor e mais verdadeiro do que o que você diz.

O fato é que, em pouco tempo, você e eu somos transformados em santos e diabos, homens sérios e falsos, verdadeiros e mentirosos, honestos e desonestos. Ou seja: quisemos representá-los e agora, de fato, somos o que eles querem que sejamos. 

Mas o que interessa neste nosso faz de conta é observar as relações estabelecidas entre os personagens:

  • a não ser o desejo de ser reconhecido e amado, o que quer cada um dos eleitos?
  • a não ser carência, falta, necessidade, o que explica o fato de boa parte das pessoas precisar que alguém cuide delas, aja por elas, diga o que elas devem pensar e sentir e como agir?
  • a não ser insegurança, o que leva essas pessoas rapidamente aceitarem e defenderem, assim como acusarem e condenarem seus 'representantes'? 
  • a não ser quem responda a perguntas que não querem fazer – porque sabem que as respostas são elas mesmas quem deve dar –, o que querem essas pessoas?


***

Em tempo: convém lembrar que necessidade é desejo, que tem a ver com carência, que é falta, privação – características da infância de cada um de nós [do útero até por volta dos 7 anos], período em que mais tivemos de aprender para então, talvez, frequentar o mundo dos adultos. Sem dúvida, um tempo difícil, principalmente porque nos sentíamos, quase sempre, muito inseguros diante de praticamente tudo, mas que, de alguma forma – felizmente! –, conseguimos sobreviver.

Todavia, quantos de nós compreendemos aquele momento e, efetivamente, superamos as carências da infância? Quantos de nós, além de compreender, trabalhamos em nós mesmos o suficiente para não precisarmos mais, na vida adulta, buscar nos outros o 'colinho de mamãe' e/ou 'colinho de papai' na esperança de que esses outros satisfaçam as nossas necessidades? Quantos de nós ainda precisamos de gurus [pai, mãe, marido, mulher, 'líder' religioso ou político etc.] que pensem, sintam, falem e ajam por nós?

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