26/02/2016

Informação não é Comunicação

Chamados de meios de 'comunicação social', na real, não são nem comunicação e nem social. 

São, isto sim, meios de informação e tentativa de imposição dos valores de um grupo de pessoas.

Jornal, revista, rádio, tevê, outdoor, entre outros, são produtos industriais cientificamente elaborados, testados, controlados e estrategicamente disponibilizados nos balcões do grande hiper mercado. São meios de informação de um grupo social interessado em convencer a totalidade das pessoas de que o que ele pensa e sente é o que tod@s devem sentir e pensar.
 
Como assim?

Considere que tanto os objetivos como os fins a que os meios de informação e os meios de comunicação se destinam não são os mesmos. Também não são os mesmos os modos que uma e outra adotam para realizar suas ações. E não são os mesmos, sobretudo, porque resultam de decisões essencialmente diferentes. Essencialmente diferentes porque optar por trabalhar com informação ou comunicação depende de uma escolha de natureza ética: tem a ver com o 'jeito de ser', o ethos de cada um. 

Observe  
  • Jornais e revistas: quantas páginas são 'matérias jornalísticas' e quantas são anúncios de tudo o que se pode imaginar?
  • Emissoras de rádio: tocam músicas pra vender cedês e shows e, quando os locutores falam é pra vender alguma ideia ou produto ou serviço, não é assim?
  • Redes de televisão: você conhece uma programação que não se pareça com um balcão de loja que vende de tudo pra atender todos os gostos?
  • Outdoor ou cartazes espalhados por aí, incluindo rodovias: não são ainda mais agressivos que todos os outros? Sim, porque você e eu somente lemos, vemos e ouvimos o que está nos jornais, revistas, rádio e tevê se a gente decidir ler, ver e ouvir. Mas o outdoor e os milhares de cartazes, não. Eles se nos impõem e nos atingem mesmo que a gente não queira e nem olhe pra eles. E pra que servem? A resposta todos nós sabemos: vender ideias, produtos e serviços.
 
Ou seja

Quem escreve, fala e aparece nos tais 'meios de comunicação social' não está interessado em trocar ideias com ninguém. O que o leitor-ouvinte-telespectador pensa ou tem a dizer a respeito é algo que simplesmente não lhes interessa, a menos que isto signifique algum risco comercial referente ao que foi escrito, lido e mostrado.

O que importa e interessa a esses funcionários – em nome dos seus patrões – é que quem folheia páginas, ouve rádio e vê televisão compre isso, compre aquilo, faça crediário ou, pelo menos, fique desejando o que não pode comprar. E se, com todos esses apelos, ainda não se convencer, tudo bem. Assim que sair na rua, ou mesmo da janela da casa ou do apartamento, um baita cartaz estará invadindo seus olhos.

 
Vale dizer

O que interessa aos meios de informação é criar necessidades. Eles estão aí pra mostrar o último modelo disso ou daquilo, pra dizer que você será mais feliz se comprar esse ou aquele troço, pra convencer a todos que a vida deve ser assim ou assado. E como são empresas – têm como objetivo principal o lucro – somente informam aquilo que, de alguma maneira, significa retorno lucrativo.

Atendendo aos interesses dos patrões, o que seus funcionários escrevem, falam e exibem é dirigido a consumidores de ideias, produtos e serviços convenientes aos interesses da empresa de informação. Seus equipamentos, assim como os profissionais que os operam, funcionam com a certeza de que você e eu – assim como o joão, a maria e o mané – somos meros compradores deles que, por sua vez, são vendedores de balcão de um super mercado que decide o quê, quanto, porquê, quando e como devemos consumir.
 
Então

Informar é o mesmo que modelar. É dizer alguma coisa a alguém de tal modo que esse alguém, uma vez convencido, aceite e também passe a dizer exatamente o que foi dito a ele. É fazer com que o conteúdo da informação torne-se 'verdade', algo que não deve ser questionado, mas aceito. Para tanto, quem informa se utiliza de elementos afetivos para enfiar goela abaixo o conjunto de sentimentos e pensamentos de que é portador, a fim de que resulte em algo que atenda aos interesses de quem a produziu. Informar é induzir, influenciar, conduzir, persuadir, tentando definir modos de pensar e agir. Informar é criar necessidades.

Se informar é uma ação possível de ser realizada de cima pra baixo, o mesmo não se dá com a Comunicação, que ou ela é coletiva – no sentido de 'colher junto' e, junto, trocar informações – ou comunicação não existe. Comunicação é troca, partilha, negociação direta e franca que resulta de intensos diálogos que, bem entendido, não se confundem com consensos. Os objetivos, os fins a que se destinam e os meios utilizados, tanto na concepção como na prática da Comunicação, têm a ver com a compreensão e a certeza de que, apesar das divergências, a convivência social é possível.

Diferentemente da Informação, que precisa da apelação emocional para impor seus valores – não por acaso, prefere sempre 'concordar' ou 'discordar', isto é, ações que têm a ver com o coração –, a Comunicação se faz a partir da relação consistente entre sujeitos sociais, para quem não são somente os sentimentos que devem reger as ações – jeito fácil de convencer pessoas –, mas os pontos de vista que podem ou não 'convergir' ou 'divergir' – ações, portanto, que privilegiam o bom senso e a razão.
 
Enfim

Se comunicação nada tem a ver com informação, convém, além de não confundir os sentidos dos termos, adotar postura crítica frente aos argumentos utilizados pelos vendedores de plantão. Admitir ser tão mal tratado [mero consumidor] e ainda comprar suas ideias, produtos e serviços [ideias e valores de um grupo social] são, no mínimo, atos de desrespeito para consigo mesmo.

Convém também envolver-se em propostas de comunicação social de verdade, ou seja, em ideias e práticas pautadas nos princípios da troca, da partilha, da negociação direta e franca entre sujeitos sociais que, distantes das preocupações que atende os negócios do hiper mercado, ocupam-se com as reais necessidades e sonhos da coletividade.

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