13/03/2016

Convém não esquecer


A seguir, alguns aspectos relevantes da história oficial da terra em que vivemos. São situações especialmente importantes porque imprimem a marca autoritária da sociedade brasileira.
Bem por isso, não podem ser esquecidas. Ao contrário, devem ser pesquisadas, entendidas, compreendidas e discutidas, sobretudo porque cada uma delas, assim como seus desdobramentos, tem a ver comigo, com você, com o joão, a maria e o zé.
Saber de si mesmo e saber da nossa história coletiva são ações fundamentais e, portanto, necessárias, sobretudo quando boa parte do povo brasileiro, felizmente, tem se manifestado de uma forma ou de outra sobre os atuais acontecimentos.

Brasil Colônia
Dos pouco mais de 500 anos de história do Brasil, quase 400 foram de escravidão. Escravidão mesmo. Da brava.
Milhões de africanos foram trazidos para cá para viver e trabalhar em condições absolutamente subumanas. Sequer eram vistos e tratados como humanos. Para os colonizadores, os negros eram coisas para o trabalho. Qualquer trabalho.
Patrocinando a empreitada colonizadora, a Igreja Católica estava convencida de que eles podiam ser esfoliados tanto quanto os brancos quisessem, afinal, como dizia, os negros não tinham alma mesmo.
Durante esse período – nada menos que 322 longos anos – o Brasil foi colônia de Portugal e de outros países da Europa. 
  • [Colônia = território ocupado e administrado por gente de fora dele, contra a vontade de seus habitantes.]

Brasil Império
Não demorou muito e a Colônia virou Império. Tal como em outros lugares da Europa, por aqui também teve rei. Ou melhor: dois reis e, claro!, os amigos dos reis.
As terras brasileiras deixaram de ser de Portugal e se tornaram propriedades do imperador – principal representante do poder de mando – evidentemente sustentado por escravos misturados com a gente nascida pobre por aqui.
Primeiro e Segundo Reinado duraram nada menos que 67 anos. Somados aos 322 anos de Colônia, temos aí a bagatela de 389 anos de total submissão do povo brasileiro aos interesses de outros povos.
E com um detalhe: jamais faltou a água benta da Igreja Católica...

Brasil República
E de repente, o Brasil deixa de ser Império e vira República: o rei caiu do trono. Era chegada a hora de derrubar e desmontar o castelo. Era chegado o momento de atender a outros interesses. Afinal, a Europa industrial precisava de um outro Brasil. Isto se deu em 1889 – há 127 anos, portanto.
  • [República vem do latim e quer dizer Coisa Pública, Coisa de Todos, Bem Comum.] Então, o que era do rei – as terras, os bens, as riquezas... – passaria a ser de todos. [E a forma de fazer a gestão da República recebeu o nome de Democracia, outra palavra que também vem do latim e quer dizer Governo do Povo ou o Poder nas mãos de Todos.]
Todos? Claro que não! É só um modo de dizer. Somente alguns eram amigos do rei e, portanto, somente eles teriam direito às terras, bens e riquezas antes concentradas nas mãos do imperador. A diferença, agora, era que ele não mandava mais. Quer dizer: o espaço do rei seria ocupado pelos antigos amigos e, para que isto fosse verdadeiro, para que eles tivessem alguma autoridade, o povo, além de mantê-los, teria também que votar, isto é, botar fé nos que, teoricamente, defenderiam seus interesses...
  • [Desde então, é preciso acrescentar ao papel sempre atuante da Igreja Católica outra força, que se tornará cada vez mais presente a ponto de, como aquela e suas derivadas, ser definidora dos passos que se seguirão na história: os meios de comunicação.]
De início, governaram os militares. Depois, os fazendeiros de São Paulo e Minas Gerais. O primeiro período foi chamado de República da Espada e o segundo, República do Café com Leite.
Tempo bom para os amigos, os filhos dos amigos e os amigos dos amigos do antigo rei! Momento de formar os grandes latifúndios, enormes quantidades de terras nas mãos de meia dúzia dos homens bons, como eram chamados os fazendeiros que decidiam e definiam, através do voto de cabresto, quem deveria ocupar os poderes executivo, legislativo e judiciário.
Em 1930, os fazendeiros perderam o poder pra Getúlio Vargas, político de carreira, vindo do Sul do país, que foi governado por ele por nada menos que 15 anos. Em 1937, Getúlio criou o Estado Novo, quer dizer, acabou com os poderes legislativo e judiciário e implantou a Ditadura. E assim, o que era, mal e mal, poder de todos, passou a ser poder de um. Getúlio Vargas representou unicamente os interesses de uma minoria que não concordava mais com a minoria governante.
Com ou sem cabresto, ninguém mais podia votar. Mais uma ditadura da brava. Ai de quem não concordasse ou ousasse discordar da minoria da minoria! Perseguição, prisão, tortura e morte era o trajeto previamente desenhado para os opocionistas, em especial aos comunistas e anarquistas. Para os que sequer sabiam se podiam ou se deviam se opor ao novo regime – o povão – pão e circo junto com alguns direitos, particularmente aos novos escravos e servos, agora denominados Trabalhadores.
Com o fim da segunda guerra mundial, em 1945, chegou também o fim da ditadura Vargas. Por 19 anos, o Brasil entra no clima da democratização.
Voltaram as eleições. Avanços sociais importantes se deram aqui e ali. Grupos de trabalhadores e estudantes se organizaram e discutiram os caminhos do Brasil, desagradando, assim, amigos dos amigos dos amigos, até que, em 1964, e por cerca de 20 anos, muitos brasileiros conheceram de perto o mesmo trajeto dos que se opuseram ao Estado Novo: outra ditadura. E da brava também.
  • [A palavra ditadura também vem do latim, mas em português brasileiro ela se tornou um termo com significado bem especial, como se pode ver no Dicionário Houaiss: governo autoritário exercido por uma pessoa ou um grupo de pessoas, que tomam o poder desrespeitando as leis em vigor... poder legislativo inexistente ou enfraquecido e subordinado ao poder do(s) ditador(es), o mesmo acontecendo com o judiciário... não há estado de direito, imprensa livre, liberdade de associação, de expressão, nem eleições livres e regras claras de sucessão.] E por aí vai...
De 1985 até os dias atuais, de novo, período de redemocratização. Tempo de eleições – até agora, foram 6 governos federais eleitos democraticamente – e, novamente, tempo de avanços e de retrocessos. Não faltaram – e nem faltam – manifestações populares. E nem meios de comunicação, não raro, atuais representantes dos mesmos interesses que outrora orientaram – e ainda orientam – certos setores da Igreja.
Enfim, dos 516 anos de nossa história social e política, 322 foram de colônia, 67 de império, 88 de república. São 389 anos de escravidão, 39 de ditadura, 33 de votos de cabresto e 50 de alguma participação democrática.
Vale dizer:
  • aprendermos – e muito bem – ser escravos, isto é, admitir que outros decidam nossas vidas
  • aprendermos – e muito bem – ser servos, isto é, admitir que alguns são melhores que outros
  • aprendermos – e muito bem – ser coniventes, isto é, admitir que, desde que nos tragam alguma vantagem, vale praticar falcatruas e troca de favores
  • aprendemos – e muito bem – ser autoritários, isto é, admitir que, em nome dos interesses de outros, alguns se apropriem do poder da maioria
  • não aprendemos – ou aprendemos muito pouco – ser democráticos, isto é, admitir a divergência [de opiniões e de jeitos de sentir/pensar/agir] e o debate civilizado como fundamentos das relações humanas saudáveis.
Por fim, embora seja co-responsável por 100% da nossa história, o povo brasileiro somente se fez ouvir – e ativamente participou – durante cerca de 10% da história do Brasil.

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