06/03/2016

E a tal da Educomunicação?


Educação, Comunicação e Educomunicação são fenômenos sociais, isto é, expressões das complexas relações estabelecidas por grupos humanos na incessante busca de expressar e atender suas necessidades e anseios. 

Apresentam-se como espaços, campos, áreas de reflexão e ação, portanto, formas de intervenção social e, portanto, modos de experimentação de reais possibilidades de convivência pautadas na horizontalidade das relações, na co-gestão dos processos [divisão de poder], na constituição e construção da autonomia [sem jamais esquecer do outro] e, sobretudo, na alegria de realizar ações coletivamente.
 
A recorrente busca de manter vivas essas e outras expressões, todavia, faz com que os grupos humanos [ou boa parte dos seus membros, conscientemente ou não], se envolvam em situações que, não raro, se voltam contra eles mesmos.
 
Trata-se da cooptação – outro fenômeno social – também expressão das necessidades e anseios dos grupos humanos. 

Tanto a Educação como a Comunicação e, mais recentemente, a Educomunicação, exatamente por serem fenômenos sociais, não escapam da cooptação, não obstante sejam muitos os discursos que fazem questão de afirmar o contrário, mesmo que as práticas os contradigam.

Deu no que era esperado
 
Sim, porque num modo de convivência social como o nosso – inventado pelos que vieram antes de nós, mas por nós mantido e sustentado – absolutamente nada pode ameaçar ou contrariar objetivos pré estabelecidos: acredita-se que tudo deve estar como [supostamente] sempre esteve e assim deve continuar; nada de surpresas; nada de novidade... Qualquer possibilidade ['possível' é tão somente o que 'pode acontecer'] de alteração deve, imediatamente, ou deixar de existir ou se acomodar.
 
É assim que, para que algo deixe de existir – pensam alguns –, basta esquecê-lo ou fazer de conta que não existe ou que nunca existiu.

Os antigos [os que inventaram, entre outras, a polis, a política e também a democracia – ou o poder nas mãos de meia dúzia; em Atenas, eram 10% da população], já praticavam este tipo de esquecimento. Chamavam de ostracismo o ato de esquecer, durante um tempo, alguém cuja presença forte e vigorosa era considerada perigosa. Entendiam que suas ações poderiam ameaçar e comprometer a liberdade política. Estavam certos de que o razoável e o mais conveniente para a vida pública era deixar esse alguém de lado, esquecê-lo.
 
Pois não é que aprendemos bem a lição? Pois não é que, uma vez mais, os ideais daquele povo [naquele momento histórico] nos convenceram? Pois não é que seus ideias se tornaram, para nós, a maior referência de convivência social? Pois não é que sabemos, como eles, muito bem evitar quem, de algum modo, nos incomoda?
 
[O que é uma pena, afinal tivemos e ainda temos a oportunidade de conhecer e adotar outras modalidades de convivência social, como a dos indígenas e africanos... Mas quantos de nós estamos dispostos a sequer conhecê-las? O fato é que 'preferimos' os moldes europeus, ou melhor, de tanto os colonizadores insistirem, foi a cultura que vingou.]

Não são poucas, entre nós, as pessoas e/ou grupos
'colocados na geladeira', deixados de lado, sem apoio, quase impedidos de realizar suas ações. Não são poucos os artistas, jornalistas, escritores, pensadores, líderes de movimentos sociais ou grupos e organizações que ficam enclausurados [em especial, pelos seus pares] durante longos anos.
 
Quando lembramos da escola, quantos são os professores e as professoras que, embora realizem interessantes trabalhos na sala de aula, não conseguem sequer partilhar o que fazem com os colegas porque muitos deles – enciumados, encolerizados e, sobretudo, enfezados [cheios de fezes] – não admitem o próprio fracasso e também não admitem que outros façam o que eles não são capazes? Não é o que também acontece no interior de tantas outras instituições, como a família, a empresa, as organizações não governamentais e governamentais?
 
Muitos entre nós não só aprenderam como esquecer os ameaçadores por algum tempo, mas anulá-los definitivamente. Não só fazem questão de não se lembrar deles como, inclusive e especialmente, de colocá-los numa espécie de limbo ou purgatório.
 
Ou seja, aperfeiçoaram o tipo de esquecimento: se na atenas democrática, mesmo condenado ao ostracismo por uma dezena de anos, o indivíduo não era nem desonrado e nem tinha seus bens confiscados, atualmente, em tempos de moderna democracia, faz-se de tudo para que ele não apareça, criando uma série de dificuldades econômicas e burocráticas para que nem ele nem suas ações sejam vistas. Impede-se, de todas as formas, que tanto ele como o que ele faz tornem-se públicos. Pensa-se e age-se mais ou menos assim: 'admitimos sua existência, mas não encha o nosso saco'.


Outro jeito de lidar com essa situação
ou outra possibilidade de existir nesta sociedade [criada para nós, mas por nós mantida e sustentada] é permitir que a ação [seja ela qual for, mas especialmente as que decorrem das relações entre educação e comunicação] se conforme aos padrões estabelecidos. Tem a ver com atender às exigências de um modo de viver que, por sua vez, responde adequadamente aos objetivos previamente estabelecidos. Significa participar de um jogo cujas regras não foram definidas pelos jogadores e, portanto, atuar como peça jogada ao bel prazer de quem se apresentou [e como tal foi aceito] como dono do tabuleiro. Numa palavra: é fazer o mestre mandou.
 
Um modo de existência certamente seguro e sem risco algum, sobretudo porque nele impera ou a ignorância dos que ainda aceitam o papel de seguidores de mestres ou a vigarice dos oportunistas de plantão. Bem distante dos condenados ao desterro [ostracismo antigo e geladeira atual] – os que ameaçavam e ameaçam a liberdade política – esses, ao contrário, entregam-se e, mais que isto, integram-se aos planos e programas de sustentação e manutenção das coisas como estão para que continuem como devem ser.


E não é que a educomunicação
tem se adaptado e se conformado a essa possibilidade de existência social, transformado-se em algo que, quando muito, ensina técnicas midiáticas [rádio, vídeo, jornal, internet], visando a acalmar crianças e jovens, torná-los mais dóceis e mais facilmente controlados nos jogos dos que só querem democracia pra 10% da população?
 
Que triste!
Que pena!
Que sacanagem!

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