24/03/2016

Pela fresta da janela

Quem é tont@ [no sentido de simplóri@], tont@ é. Não há o que fazer, a menos que el@ se perceba e queira deixar de ser tont@. Caso contrário, conviver é difícil.

Ora, se a pessoa opta por olhar o mundo pela fresta da janela – e acha que o que vê é tudo o que o mundo é – então, não há o que fazer, afinal... ela vê o mundo por uma... fresta. E o mundo, que é muito mais amplo, simplesmente não é percebido por ela. E as coisas do mundo, que são muito mais complexas, são vistas por ela como coisas simples. Sendo assim, ela só deixará de ver o mundo pela fresta se quiser sair do lugar em que está, se mudar de posição, de ponto de vista. Somente então vai entender que mudando o ponto, muda a vista.

Isto vale para todas as circunstâncias e situações da vida. Vale para o modo como a pessoa se vê e trata a si própria, como ela vê e trata o outro, seja el@ quem for. Vale para o modo como ela vê e trata o seu local de trabalho, de estudo, de lazer. Vale para o modo como ela vê e trata os que, ao menos teoricamente, ela mais ama: sua família, seus filhos. E vale também para o modo como ela vê e trata a política, entendida como exercício possível de convivência social.

O fato é que nenhum de nós nasce tont@ ou espert@ [no sentido de acordad@ e atent@], mas, seguramente, cada um de nós, no decorrer da vida, fica tont@ ou espert@. Como assim? Ligar os pontos, relacionar as ideias, tabular as informações e cruzar os dados não são ações que não caem do céu, mas dependem do quanto cada um de nós quer, pode e consegue ser inteligente, isto é, do quanto cada um de nós exercita ou não nossa capacidade racional de ler e compreender o mundo. Ser tont@ ou ser espert@, portanto, é uma questão de escolha.

Consideremos o fato
 

Nos últimos tempos, quem muito contribui para a qualidade do exercício da política é a chamada grande mídia formada por um grupo de empresas que negocia seus interesses e produtos no mercado e, portanto, assim como outras empresas quaisquer, visa lucros. Até aí, tudo bem: faz parte da lógica do sistema. Mas, diferentemente de muitas dessas empresas, que publicam suas intenções, objetivos, metas, produtos e serviços sobretudo na grande mídia, esta se apresenta como neutra e 'somente ocupada com divulgação dos fatos', como faz questão de dizer.

Uma de suas estratégias é, por exemplo, tratar de um mesmo assunto o tempo todo. Não qualquer assunto, mas aqueles que estão de acordo com seus interesses e produtos. Ora, num tipo de convivência social – e exercício da política – como o nosso, o que interessa, e somente isto interessa, é vender. E pra vender é preciso convencer o consumidor. Então, o jornal repete a tevê, que repete o rádio, que repete a revista, que repete o jornal. Uma mídia pauta a outra, os funcionários obedecem seus patrões e, juntos, realizam o massacre total. Instauram e impõem o pensamento único: sobre determinado assunto deve-se falar isto, isto e isto. E somente isto.

E o tont@? 

El@ vê, lê e ouve o que as empresas de comunicação publicam e toma aquilo como real e verdadeiro. Não percebe que, assim como as outras empresas, elas estão competindo e buscando garantir sua permanência no mercado – o que, aliás, cá entre nós, fazem muito bem. Não por acaso, está aí há décadas.

Ao invés de duvidar da repetição, de investigar os motivos da repetição, de buscar outras fontes de informação, de conferir se o que ela fala é aquilo mesmo... o que faz? Simplesmente repete o que leu, ouviu e viu. E mais: sem ao menos ganhar um tostão, vira divulgador e vendedor dos interesses e produtos negociados pelas empresas de comunicação, defendendo ideias e ações que el@ nem entende muito bem mas, de alguma forma, dão vazão à expressão dos seus instintos, inclusive o pior deles, que é o instinto de morte, destruição, violência, ódio, fim de si mesmo e do outro.

Ou seja, incitad@ pela repetição insistente de uma só ideia e, sem perceber, manipulad@ pela grande mídia, a pessoa é vítima e algoz, em primeiro lugar, de si mesma, já que, não usando a razão, perde a dimensão do ser humano que é e, em segundo porque, não se respeitando, não vê motivo algum para, ao menos, perceber a existência do outro. Assim, odiá-lo, violentá-lo, matá-lo é algo tão simples quanto ver o mundo pela fresta da janela.

O tont@, infelizmente, quer acabar, destruir, eliminar o outro. Não qualquer outro, mas o outro que pensa e age diferente del@. Ou melhor, diferente do que el@ acha que pensa, já que o que faz não é senão repetir o que a grande mídia fala. É tont@ porque é simplóri@.

Por isso é difícil conviver com el@. Como não investiga o que ouve, não relaciona os fatos, não pensa racionalmente – e não porque não seja capaz, mas porque optou por não querer – el@ não tem argumentos, não consegue justificar o que fala, não discute. Tudo o que consegue fazer, baseado no que ouviu, é xingar, ofender, ser desaforado, blasfemar. El@ 'resolve' suas pendências internas, agredindo os outros.

É claro
que provocar este tipo de postura não é exclusividade da grande mídia. Outras instituições já cumpriram e ainda cumprem muito bem essa função. Talvez não sejam, digamos assim, tão explícitas quanto as midiáticas, mas estão muito presentes na vida de qualquer um de nós.

Vale dizer: é dífícil admitir, mas o que não falta é gente mal intencionada no mundo. Não falta quem quer poder e/ou dinheiro a qualquer custo, não importanto se muito ou pouco. Não falta quem não tenha o menor escrúpulo em sacanear quem quer seja. Não falta quem quer destruir o outro, seja ele quem for. É difícil aceitar o fato de que, mesmo nos círculos mais íntimos, há pessoas muito pouco interessadas no bem estar dos outros. Mas isto é real e está presente e atuante na vida de cada um de nós. Infelizmente!

Não faltam pastores e suas igrejas, políticos e seus partidos, acadêmicos e suas universidades, professores e suas escolas, esportistas e seus clubes etc. etc. etc. que dedicam suas vidas a espalhar cizânia pelos campos, como diz a parábola, impedindo o nascimento de qualquer planta.

Não falta quem, no alto de sua suposta sabedoria, imagine-se capaz de dizer aos outros o que eles podem ou devem pensar e fazer.

Não falta quem, certo de que tem algo a dizer, o faz com tanta aparente certeza que, sem grande dificuldade, simplesmente convence quem ainda não percebeu que é totalmente capaz de andar com suas próprias pernas e pensar com sua própria cabeça.

E o que essa gente faz? Com muita propriedade, essa gente garante a continuidade de divulgadores e vendedores de ideias, produtos e serviços trabalhando de graça. Com alguma facilidade, já que detém em suas mãos o domínio e o controle da informação e o poder sobre sua divulgação, de tanto insistir, convence os que optam por assumir o papel de tont@s.

Felizmente!

Há outros sentidos para este termo. Tonto pode ser um estado, uma situação, um momento em que qualquer um de nós se percebe desorientado, embaralhado, confuso, atrapalhado... Ora, se pode ser assim, então, felizmente, tudo pode mudar – e, efetivamente, tudo muda – mesmo que a gente não consiga se dar conta.

A menos que a gente não queira, toda confusão pode ser compreendida e desfeita. Tod@s temos capacidade e condições para mudar nosso modo de sentir, pensar e agir. Viver é navegar num mar de possibilidades. Mas é preciso lançar-se ao mar.

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