14/04/2016

Os 'homens de bem' e o homem de Nazaré

Como sempre, as narrativas míticas primam pela sua atualidade. Não se referem a um tempo e um lugar específicos, mas aos modos como o tipo de ser que somos lida com as situações e consigo mesmo. Excelente oportunidade, portanto, de não só sabermos mais de nós, mas como, em geral, tratamos os outros. 

Uma dessas narrativas, encontrada no texto bíblico, pega pesado num tema humano que é sempre atual, em especial, quando vemos acusadores com seus dedos em riste e cheios de razão: falam o que querem, como querem, de quem querem e pra quem querem. Sem o menor cuidado, pensam com a boca e acreditam que falam por si mesmos quando, na real, o que fazem é reproduzir pensamentos pensados.
 
Não raro, autonominam-se 'homens de bem' e atiram pedras em forma de palavras, imagens e sons. Certos de que são seguidores da lei, exímios cumpridores dos seus deveres e legítimos detentores de todos os direitos, pautam-se pelo que mal ouvem, não conferem, não questionam as fontes, não se dão ao trabalho de minimamente re-ver, re-pensar, re-avaliar o que ouviram dizer. O mais comum é vê-los espumando raiva, destilando ódio e desejando sangue. É  possível que reprovem no outro o que, insconscientemente, não suportam em si mesmos.


Bem, a narrativa está lá no capítulo 8 do livro de João:

Os mestres da lei e os fariseus trouxeram-lhe uma mulher surpreendida em adultério.Fizeram-na ficar em pé diante de todos e disseram a Jesus: Mestre, esta mulher foi surpreendida em ato de adultério. Na Lei, Moisés nos ordena apedrejar tais mulheres. E o senhor, que diz? 

Eles estavam usando essa pergunta como armadilha, a fim de terem uma base para acusá-lo. Mas Jesus inclinou-se e começou a escrever no chão com o dedo. 

Visto que continuavam a interrogá-lo, ele se levantou e lhes disse: Se algum de vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar pedra nela”. 

Inclinou-se novamente e continuou escrevendo no chão. Os que o ouviram foram saindo, um de cada vez, começando pelos mais velhos. 

Jesus ficou só, com a mulher em pé diante dele. Então Jesus pôs-se em pé e perguntou-lhe: “Mulher, onde estão eles? Ninguém a condenou?” 

“Ninguém, Senhor”, disse ela. Declarou Jesus: “Eu também não a condeno. Agora vá e abandone sua vida de pecado”.

Cristo e l'adultera, di Pieter Bruegel - 1565

À nossa frente, então, uma cena extremamente simbólica:
  • 'homens de bem' com o dedo em riste
  • mulher acusada de adúltera, a ponto de ser apedrejada
  • homem chamado de Mestre, mas desafiado a se contrapor às leis antigas
  • chão, terra, escrita e pedras
De um lado, os 'homens de bem'. Sedentos de justiça, seguidores de leis impostas e jamais questionadas e discutidas, inteiramente envolvidos com a ideia e a prática de julgar, condenar e matar. Para eles, apedrejar é masculino, coisa de homem macho, de gente boa e cumpridora dos seus deveres. De outro, a adúltera, corrupta, a que destrói, estraga, quebra, parte, arrebenta... Ela, a que adultera o que supostamente é íntegro, é feminina, mulher, frágil, a que não cumpre a lei, gente ruim.
 
E o homem de Nazaré? Por que foi procurado?

É um sujeito que, há algum tempo, vinha colocando em dúvida as ideias que sustentam as falas e as ações dos 'homens de bem'. O que ele dizia e fazia incomodava os 'mestres da lei e os fariseus'. Sua fala e seu jeito de viver, isto é, as teses que apresentava e defendia não somente abriam campo para novas ideias e práticas mas, sobretudo, retiravam e afastavam aqueles homens do cômodo lugar que ocupavam.
 
Isso talvez explique o fato deles chegarem, possivelmente de uma hora pra outra e, assim, de sopetão, colocarem como que uma faca no pescoço do homem de Nazaré,  provocando-o ao chamá-lo de 'mestre'.
 
Pois não é
  • que se ferraram?
  • que apesar da 'sabedoria da tradição' que ostentavam, não tiveram o que responder?
  • que enfiaram o rabinho no meio das pernas e foram embora?
  • que os primeiros a sair foram justamente os mais velhos, justamente os que, de acordo com aqueles homens, são as 'reservas morais da sociedade'?
     
Também não é pra menos!!!
 
De tão simples, clara, evidente, objetiva, a resposta em forma pergunta do homem de Nazaré quebrou e continua quebrando as pernas de quem se contenta em repetir o que ouviu sei lá de quem.
 
Ao escrever no chão, ele fez com que cada um deles olhasse para a terra, portanto, para si mesmo e pensasse e refletisse sobre o que falava. E mais: que percebesse que o erro cometido, longe de ser motivo de condenação, é, por excelência, uma expressão importante do fato de sermos humanos.
 
  • Vale dizer: antes de condenar o outro, convém olhar pra si mesmo porque, não raro, o que você e eu destacamos de não aceitável nele é o que reprovamos em nós mesmos. Ou seja, quando você aponta o indicador para alguém, há 3 dedos da sua própria mão direcionados exatamente para você.

Ao calar a boca de cada um daqueles homens, sem violência alguma, o homem de Nazaré fez com eles deixassem o local quietos e ocupados não mais com a mulher adúltera, mas consigo mesmos. É possível que pelo menos alguns deles tenham entendido que, mais do que falar, é preciso aprender a ouvir.
 
  • Vale dizer: é impossível ouvir com clareza sem calar a boca; se não ficar quieto, não é possível pensar; sem pensar por conta própria, simplesmente não há o que dizer. Ou seja, não é por acaso que a imensa maioria dos humanos nasce com dois ouvidos e apenas uma boca.

Ao falar com a mulher trazida pelos mestres da lei e os fariseus, o homem de Nazaré se levantou e, como se não soubesse o que havia acontecido, perguntou por eles. Vendo que não estavam mais presentes, disse a ela, que permanecera em pé o tempo todo, que não a condenaria, e que fosse embora com a recomendação de não mais repetir o erro.
 
  • Vale dizer: assim como os homens da 'lei de Moisés' [que condena a mulher ao  apedrejamento, mão não o homem], ele também admitiu o possível erro da mulher [talvez reconhecendo algum valor na lei antiga] mas, diferentemente deles [e de acordo com as teses que apresentava e defendia], não apontou a ela o dedo em riste. Ou seja, errar é humano e não há como não admití-lo; o que não se pode admitir é a condenação e a morte de quem errou.

Por quê?
 
Simplesmente porque não condenar quem errou nada tem a ver com perdão – não, pelo menos no sentido igrejeiro do termo. Não condenar e apedrejar quem errou nada tem a ver também com o coração – não, pelo menos no sentido que geralmente se dá ao termo sentimento. Não condenar, não apedrejar e não matar quem errou nada tem a ver com ser 'humanitário' ou coisa que o valha. Tem a ver com inteligência.
 
Ou seja, considerando que
  • impreterivelmente, todos nós erramos
  • frequentemente, esquecemos que falar demais é algo que não nos convém
  • desatentamente, não nos lembramos que apontar os erros dos outros é, ao mesmo tempo, expor os nossos próprios erros
então, pensar e agir como queriam e querem os 'homens de bem' é o mesmo que afirmar que quaisquer outros, inclusive e especialmente os que estão mais próximos de nós, estão autorizados a nos condenar, a nos apedrejar e a nos matar. Equivale, em termos jurídicos, a criar provas contra si mesmo ou, como se diz por aí, a se entregar de bandeja.
 
Por isso, tem a ver com inteligência. Sim, porque não se reconhecer totalmente capaz de cometer todos os tipos de erro e se contentar em falar mal dos outros, julgar, condenar e apedrejar os outros, achando-se portador de todas as virtudes e verdades, é apresentar-se publicamente como portador da pior e mais triste forma de ignorância, que é não saber e não cuidar de si, de não ter o menor respeito pelo tipo de ser que é.
 
Ignorar-se é não reconhecer o que pode ser, que tem tudo pra ser e, se quiser, realmente ser o que pode ser, isto é, um indivíduo a caminho de se constituir sujeito [e não personagem dirigido por alguém], autônomo, isto é, que cria suas próprias leis sem jamais esquecer o outro [e não peça de uma engrenagem ou parte da massa de manobra, sempre a serviço de alguém] e, portanto, autor, diretor e ator das narrativas que pode inventar.

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