06/04/2016

Submissão e tirania

  • Alguns galhos secos, uns pedaços de madeira, uma faísca e pronto: eis a fogueira. Quanto mais madeira, mais ela aumenta. Se alargar a área, jogando mais madeira, ela cresce mais ainda.
  • O fogo aumenta quanto mais consome, mas se consome quando deixa de ser alimentado. Se jogar água, ele apaga; se não, ele se apaga.
  • O mesmo vale para um tirano qualquer: quanto mais ele rouba, saqueia, exige, mais ele se fortalece e se robustece até aniquilar e destruir tudo. Se nada for dado a ele, se ninguém o obedecer, não é preciso luta nem combate: ele acaba por ficar nu, pobre e sem nada, do mesmo modo que a raíz que, sem umidade e alimento, se torna ramo seco e morto.

Ideias como estas fazem parte de um texto escrito por um rapaz com cerca de 20 anos há nada menos que 5 séculos atrás. Trata-se do Discurso da Servidão Volutária e seu autor, Étienne de La Boétie, um francês que nasceu em 1500 e morreu em 1563, antes de completar 33 anos. 

Claro que o texto só foi publicado depois de sua morte e, claro também, que foi e continua sendo muito pouco divulgado, obviamente porque não interessa que muita gente conheça seu conteúdo. Embora, ao que parece, nunca tenha sido censurado foi, digamos assim, 'esquecido' pelos editores, professores e divulgadores dos saberes. É o tipo de texto que 'não convém' à grande maioria das pessoas.

Sim, porque a imagem do fogo – que só se mantém aceso porque é alimentado, assim como a raiz que seca se não for regada – é claríssima: não há como não entender, e não há quem não consiga entender. E mais: comparar o fogo e a raíz ao tirano – que modernamente é o mesmo que se referir a quem abusa do poder ou de seu suposto poder de mando –, além de extremamente feliz, revela com extrema lucidez o quanto, em geral, as pessoas são submissas. 

Ou seja, enorme é o número de pessoas que adota a submissão como pensamento e modo de viver. Milhões delas adotam, como se fossem suas, ideias do tipo 'alguns são mais que os outros' ou 'uns podem e outros não' ou 'esse ou aquele deve mandar e ser obedecido' etc. De tal forma introjetaram e as calcificaram em suas cabeças, de tal maneira estão certas de que assim é que deve ser, simplesmente porque sempre foi assim, que entendem como algo natural a condição de estar ou ser submisso a alguém. 

Mas não é. E não é porque submissão e tirania são apenas mais duas 'grandiosas' invenções humanas. São criações humanas e, portanto, têm nome, endereço, história e geografia. Como não cairam do céu e nem brotaram do chão, uma vez compreendidas podem deixar de existir. Assim, estar ou ser submisso à tirania é algo cultural. 

Ora, se é cultural – coisa inventada, imposta e aceita por alguns homens e mulheres –, então, é algo que pode ser alterado. Não é porque 'sempre foi assim' que, necessariamente, deve continuar a ser assim. Se foi coisa inventada, também pode ser desinventada e substituída. Assim como foi instituída, imposta e aceita, do mesmo modo, pode ser negada e não mais aceita. 

Vale dizer 

  • Qualquer forma de tirania somente existe porque é sustentada por mentes e corpos submissos. Nenhuma delas sobrevive sem que muitas pessoas optem por mantê-las vivas. 
  • Pra acabar com esse modo de pensar e ser próprios da tirania – muito comuns entre pais, professores, chefes, patrões, governos e meios de 'comunicação' oficial/comercial, por exemplo – basta não mais alimentar o fogo. Basta não mais obedecer e sustentar o tirano. 
  • Assim como a raíz que, sem umidade e alimento torna-se ramo seco e morto, uma vez não nutrida pela submissão, sem qualquer tipo de violência, a tirania deixa de existir. 


Em tempo: 
1] para ler o Discurso da servidão voluntária, clique aqui 
2] para ver o documentário A servidão moderna, clique aqui

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