25/05/2016

Música popular ou de 'entretenimento'

Quando pensamos e nos posicionamos de modo crítico, quando colocamos sob suspeita ou em dúvida a fala, a idéia, a música... então, qualquer conversa fica diferente da que estamos acostumados.

Não somente olhamos, falamos e ouvimos de outra maneira, mas nos posicionamos tanto frente a nós próprios como frente ao mundo de outra maneira: mudamos o ponto e, então, mudamos a vista.

 
Sobre a música popular ou de 'entretenimento', por exemplo, há muito que pensar e dizer. Num tipo de convivência social como o nosso, em que tudo gira em torno do deus cifrão, o que pretendem os negociantes de algo que agrada a maioria das pessoas? O que há ou pode haver de tão interessante – leia-se lucrativo – na atual produção e comércio dos cantadores de samba, rock, gospel, sertanejo, musiquinha de corno etc?
 
Vale ler o que escreveu Theodor Adorno, filósofo alemão que viveu no século passado, em meio às duas guerras e o nazismo de Hitler:

  • Ao invés de entreter, parece que tal música contribui ainda mais para o emudecimento dos homens, para a morte da linguagem como expressão, para a incapacidade de comunicação. A música de entretenimento preenche os vazios do silêncio que se instalam entre as pessoas deformadas pelo medo, pelo cansaço e pela docilidade de escravos sem exigências.(...) A música de entretenimento serve ainda — e apenas — como fundo. Se ninguém mais é capaz de falar realmente, é óbvio também que já ninguém é capaz de ouvir.[*]

A grande maioria dos hitizinhos que rolam por aí, nacionais ou internacionais, não é somente um gênero musical; vai muito além: simboliza um processo de comercialização de atitudes, idéias e comportamentos. São práticas que realizam ideias extremamente favoráveis a um grupo social. Fazem parte do que pode ser chamado 'indústria cultural'.
 
Ou seja, assim como a indústria cria e fabrica bens materiais, tipo roupas, comidas, remédios, carros e tantas quinquilharias altamente rentáveis, a indústria cultural  preserva ou cria bens simbólicos ou imateriais. Esses bens, igualmente rentáveis, representam coisas que, atendendo necessidades ou carências e sonhos ou fantasias, servem justamente para escravizar as pessoas.
 
Não por acaso, a lógica da produção dos dois tipos de indústria é a mesma: se produzir milhares de carros com a mesma estrutura e apenas mudar a lanterna, a maçaneta e o painel significa baratear a produção e aumentar o lucro das montadoras, o mesmo acontece com a indústria da música popular: a indústria cultural definiu a estrutura: letra + música, duração, tipos de instrumentos, temas a serem explorados, timbre de voz mais adequado, 'artistas' que devem se apresentar dessa ou daquela maneira... e pronto! Quem não estiver de acordo, fica fora. Quem fizer o que 'o mestre mandou', faz sucesso. E, claro, o lucro aumenta.

Vale dizer: o que importa mesmo é que os hitizinhos cumpram o seu papel: fazer circular os bens simbólicos que convém aos que não querem saber de posicionamento crítico algum.

[*] In: O fetichismo na música e a regressão da audição. Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1980

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