13/06/2016

Uma pergunta

Tendo em vista o cenário – certamente construído por quem veio antes de nós, mas mantido e atualizado por nós – no qual atuamos como personagens de tantas histórias – certamente não inventadas por nós e nem por nós dirigidas – que somente recebem os aplausos do público se cumprirem direitinho o roteiro escrito, aprovado, testado e comprovado;


considerando que a platéia é formada sobretudo por crianças – que, como tal, precisam ver e aprender conosco o modo como sentimos, pensamos e agimos para, então, decidirem o que farão com suas vidas – é urgente e necessário fazer uma pergunta: 

é possível ser humano num sistema regido pelo
signo do deus-cifrão?


Observe

Grande parte das pessoas é, de fato, ignorante, isto é, ainda não tem informação suficiente sobre o modelo econômico que sustenta esse tipo de convivência social. Não entende e nem busca entender, por exemplo, o que faz com alguns sejam tão ricos enquanto a maioria é pobre. Não consegue ligar os pontos: se há riqueza, então há pobreza; se há miséria, então há luxo; se há quem acumula algo, há quem fica sem parte dele... 

  • A ignorância, além da falta de informação, é uma forma de comodismo. Comportar-se de modo a deixar tudo como sempre esteve, afastar-se e não assumir qualquer responsabilidade é uma estratégia sempre certeira, tanto para o ignorante quanto para o 'ilustrado'.

Outra parte, devidamente informada sobre como as coisas funcionam, aceita fazer parte do jogo – mesmo sabendo de antemão quem é vencedor e quem é perdedor. Parece convencida, por conveniência, de que não vale a pena qualquer alteração no modelo. Egoísta, não quer correr o risco de perder o pouco que acha ter conseguido submetendo-se, por exemplo, a um emprego que, ainda que lhe renda salário, não lhe dá nenhuma satisfação pessoal, profissional e... econômica.

Alguns tentam não entrar no campo de jogo – e, não raro, pagam caro. Não aderem às regras do mercado de trabalho, evitam o consumismo, buscam o que se convenciou chamar 'vida simples'. E pagam caro porque tentam viver no mesmo espaço em que a maioria está munida de instrumentos e técnicas que primam por não aceitá-lo e respeitá-lo, mas vencê-lo. É o caso, por exemplo, de alguém que se recusa a  vestir-se como todos do seu grupo, ir aos mesmos lugares que eles, ouvir a mesma música que ouvem, enfim, evita sentir e pensar e agir como os que lhe são próximos sentem, pensam e agem.

Sendo assim

Querendo ou não, conscientes ou não, gostando ou não, o fato é que mantemos um jeito de convivência social em que ser humano tem pouco ou nenhum valor. O que realmente importa é que você e eu sejamos alunos, estagiários, funcionários, empregados, crentes, pacientes, clientes, destinatários, profissionais, sócios, consumidores, cidadãos.

Pra isso somos preparados, aguardados, reconhecidos e remunerados. Se formos coisas-que-fazem-coisas, tarefeiros que obedecem ou mandam, objetos de uso e de troca seremos, então, somos aplaudidos. Caso contrário, somos algo que definitivamente não convém.

A família gera, a escola prepara, a midia incentiva, e empresa enriquece, a igreja abençoa e o estado agradece. 


Mas quem está ocupado em ser humano?

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