21/07/2016

Animal político

É de Aristóteles a ideia de que todos os animais são dotados de voz e expressam sentimentos como dor e prazer, mas que os humanos, diferentemente deles, falam. Dotados da palavra, além de expressar sentimentos, elaboram pensamentos e dizem o que pensam. E porque pensam e falam, são animais políticos: conseguem pensar e dizer e defender ideias sobre o que querem para si mesmos e para os outros – tanto é  que inventaram a cidade, um jeito de viver juntos e, portanto, juntos decidirem os seus destinos.

Ou seja, porque pensam e falam, e porque são políticos, ninguém [deuses ou algo que o valha], a não ser eles próprios, é responsável pelo tipo de vida que levam.  

E o que é ser animal político? É ser capaz de viver de modo coletivo – apesar das diferenças individuais que, como bem sabemos, não são poucas. É ser capaz de evitar todo e qualquer tipo de violência, uma vez que fazer uso da capacidade de falar torna injustificável qualquer forma de agressão física, por exemplo – diferentemente, portanto, dos outros animais que, não podendo falar, latem, rosnam, arranham, picam, mordem... e, se necessário, matam. Ser animal político é usar a razão em vez da força bruta. 

Usar a razão é exercitar a palavra, isto é, pensar antes de dizer, isto é, ponderar e raciocinar sobre o que vai ser dito, isto é, considerar os possíveis efeitos e desdobramentos de algo que, até ser tornado público, é totalmente uma questão interna do indivíduo. Fazer uso da razão é o que, efetivamente, nos diferencia dos outros animais. Graças a ela, cada um de nós é o que quer ser, pode entender-se e entender o outro e consegue conviver até mesmo enfrentando situações difíceis. Sem o exercício da palavra, seríamos qualquer outra coisa, menos humanos e políticos.

Bem boa a ideia de Aristóteles: engrandeceu o humano, colocando-o num lugar privilegiado no reino animal! Legal mesmo ele afirmar que os animais humanos são políticos porque conseguem expressar o que sentem e falar o que pensam e o que querem!

O que faltou – e continua faltando – é os humanos saberem disto, já que uma significativa parte deles age como quem nada tem a ver com humanidade e nem com política: recusa-se a pensar com a própria cabeça, repetindo o que qualquer outro mandou e utiliza-se da força bruta para impor o que bem entende, atacando e matando mesmo sem necessidade.

Vale dizer: dotado de voz, quando muito, expressa alguma dor e algum prazer; dotado de fala, quase sempre fere e mata sem dizer; sente e pensa, mas dificilmente assume a responsabilidade pela vida individual e coletiva.

Animal político esquisito, não?

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