31/08/2016

Cabeças cortadas

Em todos os sentidos, os últimos séculos são os piores na vida de milhares de habitantes das terras de américa e áfrica: natureza devastada, culturas dilapidadas, vidas devassadas, corpos esfoliados e milhões de mortos.

No entanto, embora muitos sintam na carne, poucos ocupam-se em compreender os motivos e os desdobramentos desses acontecimentos. Falta informação, pesquisa, investigação e divulgação. 

Falta, sobretudo, seriedade e compromisso com a veracidade do que, de fato, aconteceu. Como a história oficial – registrada, estudada e divulgada –  é a que relata a versão dos vencedores, a maioria de nós sabe, quando muito, o que dizem os livros escolares e os meios de informação. Os outros lados da história, os outros pontos de vista vão se perdendo no tempo.

Para os que, em geral, se julgam entendidos e ilustrados, o que é próprio das culturas locais é 'pobre', 'fraco', 'inferior'... portanto, não merece atenção. Ou seja, degradação da natureza, eliminação de culturas e mortes de seres humanos são temas de menor importância diante do enorme desenvolvimento econômico, industrial e tecnológico dos tempos atuais.

Para outros – igualmente no auge da ignorância –, o que vem de índios e negros tem a ver com o que há de mais 'primitivo', 'antigo', 'atrasado'... portanto, deve ser extirpado. Ou seja, ignorância gera preconceito que gera mais ignorância que destroi, humilha, machuca e mata.

Violência e Educação

São personagens desse drama, além dos perdedores, certo grupo de homens que há tempos atribuiu a si o papel de definidor não só de quem deve ou não deve viver mas como deve viver e outros homens e mulheres convencidos por aquele grupo de que deviam acatar e fazer cumprir suas ordens. Quais? Matar os que não os aceitam como detentores de tal poder e educar os sobreviventes para que duvidem de suas crenças – já que não são 'verdadeiras', que neguem seus jeitos de viver – já que não são 'bons', e que não questionem a nova ordem estabelecida – já que ela faz parte do que é 'justo'.  

Ou seja, uma vez mais, violência física e educação foram utilizadas pra fazer valer os interesses de um grupo social. E graças a elas, foi possível a realização dos seus mais nobres ideais: invadir terras, assassinar milhões de indígenas, escravizar milhões de negros e explorar milhões de conterrâneos, forçando-os a migrar pra terras longínquas. Afinal, nada pode ser mais 'verdadeiro', 'bom' e 'justo' do que eliminar qualquer outro que ouse ameaçar ou impedir suas ações.

Quer um exemplo? A fim de enfraquecer e amedrontar os habitantes locais em luta, era comum os invasores mandarem decapitar crianças e mulheres das tribos. Sim, porque nada é mais conveniente do que eliminar o novo e, mais ainda, impedir que o novo fosse gerado.

Ora, é impossível lidar com a covardia dos que não admitem que possa haver modos de ser e de viver diferentes dos seus. Como escapar dos atos covardes dessa gente inescrupulosa, desonesta e desumana? Como encarar e lutar com um grupo essencialmente medroso e, portanto, capaz de fazer qualquer coisa para não colocar em risco seu suposto poder?

O fato é que assim era no passado, e assim é no presente. Cortar cabeças – real e simbolicamente – continua sendo o modo mais eficiente e eficaz de desmerecer e desconsiderar o que é 'pobre', 'fraco', 'inferior' como para extirpar o que é 'primitivo', 'antigo', 'atrasado'.

E controlar os conteúdos curriculares, construir narrativas convenientes – o que, em geral, fazem a escola e os meios de informação – não é o mesmo que impedir o novo? Definir e determinar o que deve ser escrito e lido, falado e ouvido, exibido e visto não é continuar atribuindo a si o direito de dizer quem e como se deve viver?

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