07/08/2016

Desde Olímpia

De acordo com certa historiografia, há cerca de 2500 anos, na ilha de Samos, Grécia, viveu um sujeito chamado Pitágoras.

Sobre sua vida e obra sabemos muito pouco: apenas fragmentos encontrados em textos escritos muitos séculos depois de sua morte.

A Pitágoras são atribuídas 'invenções' interessantes, dentre elas, a ciência Matemática e o termo Filósofo. Também seria dele uma consideração particularmente interessante: três tipos de pessoas compareciam aos Jogos Olímpicos sediados na ainda hoje famosa cidade grega Olímpia.

Além dos torcedores, compradores e admiradores dos outros iam à festa, diz ele, os comerciantes – que tinham interesse em fazer negócios, trocar informações etc, os atletas e artistas – lá estavam para competir e/ou pra se mostrar, exibir seus corpos, talentos, habilidades, apresentar suas pessoas e os filósofos – que pra lá se dirigiam com a intenção de assistir, observar e julgar, isto é, elaborar conceitos e emitir parecer racional e crítico sobre as coisas, as ações, as pessoas, os acontecimentos, a vida.

A maioria das pessoas comparecia aos jogos para comprar, torcer, admirar, competir e se exibir, mas alguns lá estavam movidos por outro interesse: saber o que significava tudo aquilo. Enquanto a maioria comparecia aos jogos pra negociar, se expor e se mostrar, alguns iam pra observar e dizer algo sobre o que viu.

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Desde Olímpia [e certamente muito antes dela], são poucos os que efetivamente se envolvem com o 'espírito olímpico'. Raros são os que se dispõem a celebrar ou comemorar, isto é, atender a um dos objetivos da festa: trazer à mente os feitos dos deuses para inspirar os homens. Se lembrarmos que os deuses nada mais são do que projeções do quanto podem ser 'perfeitos' os humanos, então os jogos seriam o grande momento do ocupar-se consigo mesmo.   

A história dos jogos desde Olímpia, todavia, mostra que estamos bem longe disso. Ainda hoje, o que faz a maioria das pessoas quando vai ao evento? O que, em geral, pretendem os que competem e exibem suas pessoas? Que sentido tem ser o vencedor desse ou daquele jogo?

Seguramente, são outras as motivações...

Negócios, competição, culto à personalidade, medalhas, fama etc fortalecem e enaltecem pessoas. Somados às muitas capas e máscaras acumuladas nos corpos e nas mentes, esses valores contribuem para enfraquecer e diminuir indivíduos. Ilusões, artifícios, enfeites etc são muito úteis para o cultivo da personalidade, mas quase fatais para a busca da individualidade. E o que era pra ser fonte de inspiração para os humanos, na realidade, leva pessoas a acreditarem que são mais e melhores que os outros.

Tinha e continua tendo razão o sujeito da ilha de Samos: a única coisa que nos diferencia, inclusive dos que são iguais a nós, é o exercício intelectual que possibilita – a cada um do seu jeito – entender, compreender e interpretar o mundo.

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