15/08/2016

Semente e Gente

Lançada à terra, a semente se mistura com água, ar e fogo [luz do sol] e, juntos, fazem nascer uma nova vida. Pra baixo, crescem raízes e pra cima, caule, primeiras folhas e – em seguida e a seu tempo – tronco, galhos, flores e frutos.

Claro que isto é um breve resumo do complexo nascimento e crescimento da árvore. Mas o suficiente pra dizer que o futuro tem a ver com o presente. O vir a ser da árvore depende do ambiente em que foi gerada: se favorável, adequado, protetor, tudo indica que ela vingou; caso contrário, ou desaparece ou cresce sem viço.

Vale dizer: sem condições propícias, a semente não consegue cumprir o seu destino. 

Com gente não é diferente. Não por acaso, o termo humano vem de húmus, o mesmo que matéria orgânica ou restos de  animais e plantas processados, entre outros, pela minhoca... Cada um de nós é uma das possíveis misturas de fogo, ar, terra e água.

Brotamos da terra. Nascemos do chão habitado pelos que vieram antes de nós. Crescemos e nos reproduzimos graças às mesmas forças que forjaram nosso nascimento. E morremos, pra junto com outros seres, gerar novas vidas. Da terra surgimos e na terra desaparecemos. Não viemos do além e nem vamos pro além.

Vale dizer: se o ambiente em que fomos gerados, assim como o ambiente em que geramos não for favorável, adequado e, sobretudo, protetor, o que podemos esperar de nós e dos que, através de nós, são gerados?

***

Diferente dos outros seres vivos que – não sofrendo intereferência humana –  surgem e desaparecem conforme um 'cronograma previsto', nós, os humanos, temos a faculdade de ser livres, de escolher nosso destino.

Ou melhor: ainda que a previsibilidade seja nada mais do que algo que os humanos atribuem aos outros seres, o fato é que sobre eles é impossível fazer qualquer afirmação. Certo ou incerto é 'tão somente' o que chamamos de certo e/ou incerto. O que afirmamos ser o mundo não necessariamente é ou pode ser o mundo.

Todavia, ao que parece, nascer, crescer, reproduzir e morrer são partes de uma grande trama, da qual ninguém, além de nós, são os autores, os diretores e os atores. Escrevemos, dirigimos e atuamos cada uma das narrrativas dessa trama. E porque somos livres, individual e coletivamente, somos os únicos responsáveis pelos enredos que dão rumo à nossa história. Nós decidimos o que queremos, podemos e conseguimos ser.

Então, inventamos ou adotamos personagens que dificultam e/ou, não raro, impedem que cumpramos o nosso destino, isto é, a possíbilidade de que tenhamos nascido para viver e morrer com a consciência de que, diferente dos outros seres, cada um saiba o seu próprio valor e, portanto, possa ser autor da própria história.

A liberdade de escolher o que fazer conosco e com os outros, entretanto, inconscientemente ou não, tem nos levado a cometer equívocos que, de fato, alteram o complexo nascimento e crescimento da semente e de todos os seres vivos, incluindo o humano.

Longe de criar um ambiente favorável, adequado e protetor – portanto, propício para a manutenção da vida –, o que estamos fazendo da gente tem contribuído para que plantas e animais, incluindo o humano, ou desapareçam ou cresçam sem viço.

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