28/09/2016

Futebol e Democracia


Muito antes do nosso tempo, o futebol já existia. Há mais de 2 mil anos, chineses e japoneses, gregos e romanos já batiam uma bola.

Democracia também: quem a inventou foi um grupo de comerciantes insatisfeitos por serem impedidos de participar das decisões sobre a cidade de Atenas, atual Grécia. Tal grupo fez e aconteceu e, de fato, a governou por algum tempo.

Séculos e séculos mais tarde, a burguesia, outro grupo igualmente insatisfeito por não governar a cidade, destronou reis e assumiu o controle da economia, da cultura, da política. E, de fato, desde então, há pouco mais de 200 anos, é quem dita as regras. Dona dos meios de produção e da riqueza socialmente produzida, é ela quem define os rumos da política entendida como condução da vida coletiva.

***

Isto foi e continua sendo possível graças a pelo menos dois feitos importantes apoiados em sustentação teórica amplamente reconhecida e, claro, muito investimento. O primeiro tem a ver com a recuperação e adaptação da invenção dos atenienses, acrescentando 'representativa' ao termo 'democracia'. Assim, ela faz parecer que é o povo quem comanda a política e, ao mesmo tempo, diminui drasticamente o número de quem efetivamente decide. Diferente dos 10% cidadãos da antiga Atenas, que não garantiram a continuidade da 'democracia', e apostando em eleições regadas com dinheiro público e privado, a burguesia tem se mantido no governo das cidades através da 'democracia representativa'.

O segundo tem a ver com esporte que, além de receber novas regras e procedimentos, tem a missão de ensinar e reforçar o seu mais importante valor: a competição. Tal como o processo eleitoral que, longe de distração, diversão ou jogo, especialmente o futebol, deve ser visto e tratado como negócio no sentido mais forte do termo: negação total do ócio. Investir em corpos e mentes, a fim de que promovam retorno de bilhões de reais, dólares, euros ou outra moeda qualquer é o grande negócio.

Não é por acaso, portanto, que milhões de pessoas se encantem com a bola em campo. Nem que diversos campeonatos aconteçam o tempo todo nos mais diferentes lugares. Nem que as torcidas chorem, vibrem, briguem, matem-se, façam festas e emocionem até mesmo quem se recusa aceitar jogadas admiráveis de uns e outros escolhidos a dedo pra se tornarem astros.

Ao contrário, ações como estas são profundamente educativas e altamente rentáveis. Por isso mesmo, o que não falta é dinheiro – muito dinheiro! – envolvido nisso tudo. Ilusão acreditar no 'que vença o melhor' ou pensar que 'o jogo acaba quando termina'. O ato de jogar, o lugar no pódium, a taça ou a medalha são apenas alguns momentos dos vários jogos que começam muito antes e terminam muito depois da hora marcada. Negócio é negócio!

Como os resultados desse investimento foram e continuam sendo muito positivos em todos os sentidos, particularmente o financeiro, o esporte serve como modelo educacional do tipo de relações humanas e sociais que interessa. Nada mais efetivo, então, do que promover competições, fazer com que uns e outros se posicionem frontalmente o tempo todo. É fundamental que atletas, assim como eleitores, se esforçem ao máximo na disputa de cada lance na arena e na vida e que, finalmente, apenas alguns sejam vencedores.

Assim, quanto mais ações competitivas ou pedagógicas, quanto mais enfrentamento pautado em técnicas educacionais, tanto mais retorno econômico positivo pra uns e aprendizagem efetiva da população quanto aos modos como se deve pensar e agir. No mínimo, estas ações ensinam que somente uns poucos nasceram para vencer, que a maioria das pessoas é incompetente e que o sucesso não é pra qualquer um.

***

E a democracia? Para a burguesia atual – algo como 1% da população – é o melhor negócio de todos os tempos, tendo em vista que a maior parte de toda riqueza produzida no mundo está em suas mãos. Ela simplesmente pode tudo e o mundo todo – economicamente, ao menos –, depende dela. Como tem quem a justifique e sustente, é ela quem decide e determina, de acordo com seus interesses, quem, onde e como devem viver os povos, o que cada um deles pode ou não produzir e consumir e quem deve governá-los. Exagero? Bom seria se fosse! 

Abaixo estão os que diretamente dependem dela e, portanto, não fazem nada sem o seu consentimento e aprovação. Como acalentam o sonho de integrar o seleto grupo, esforçam-se para se parecer com o grupo que ocupa o topo da pirâmide e, tanto quanto podem e conseguem, buscam imitá-lo. Não medem esforços pra se aproximar dele, mesmo sabendo que corporações são um tipo de instituição que não tem rosto; com elas, não há com quem falar, mas somente o que negociar. E é justamente o que fazem, seja lá o que isso significa e o custo que tenha. A fim de garantir seus lugares o mais próximo possível dos 'donos do mundo', esses grupos, chamados de média e pequena burguesia, não poupam esforços tanto para imitar quem os inspira, quanto para que a absoluta maioria das pessoas, seus eleitores, também os imitem.

Mais abaixo e até à base da pirâmide estão os e as responsáveis pelas condições econômicas de bilhões de seres humanos na atualidade. São eles que, conscientemente ou não, permitem a concentração das riquezas coletivamente produzidas. São eles que, sabendo ou não, acatam as decisões e determinações do topo da pirâmide. São eles que, gostando ou não, balançam os berços dos segundos, fazendo todos os seus gostos. São eles que, sem se darem conta, tratam a si mesmos como inimigos que brigam e se perseguem... e se matam. São eles que, longe de si mesmos, pensam e agem de acordo com o que querem que pensem e ajam, que justifiquem e sustentem o tipo de convivência social e política que atende aos interesses de uma minoria.

***

Negar o ócio era algo inadmissível para os inventores da democracia. Para fazer política ou 'cuidar da cidade', diziam, era preciso ter tempo livre e, de fato, dispunham, já que o que não faltava era escravo pra se ocupar do sustento e da manutenção de suas vidas. Os jogos, por sua vez, teriam sido uma invenção dos deuses. Por isso, de tempos em tempos, os humanos, em especial os cidadãos atenienses, faziam festas religiosas e as dedicavam a Zeus.

Muito tempo depois, quando a burguesia decide ser o que eram os atenienses na antiguidade, ela recupera e atualiza o futebol e a democracia. Pautada pelo seu valor maior, a competição, faz deles a motivação e o modelo do tipo de convivência social conveniente pra ela. Investe milhões e milhões de dinheiros e tem retornos admiráveis. Conta com o apoio da média e pequena burguesia e, sobretudo, com a conivência da maioria da população que lota estádios, dá créditos aos meios de informação e acredita que, votando em seus representantes, melhora a vida.

Nenhum comentário:

Postar um comentário