20/10/2016

Educação não é educação escolar

Educação e educação escolar são coisas distintas. Uma não tem nada a ver com a outra.   

Educação é fenômeno social, isto é, expressão das necessidades e sonhos de cada um dos inúmeros e diferentes grupos humanos espalhados no planeta.

Tem a ver com  adultos e jovens recuperando, inventando, traçando e seguindo caminhos que lhes permitam viver do jeito que querem. Nada parecido, portanto, com algo normatizado, regido e avaliado. Educação é muito mais do que, equivocadamente, é chamado de educação escolar.

Escola ou skholé foi mais uma invenção interessantíssima dos gregos antigos. Era um lugar pra 'não fazer nada', espaço de lazer, de bater papo, de longas conversas. Lugar de encontro de homens livres ocupados com questões mais importantes do que comer, beber, dormir, cagar... e comprar. A skholé era lugar pra pensar a vida e os modos de viver. Lugar de fazer filosofia. Nada parecido, portanto, com a escola atual, que se confunde com espaço destinado a prender, vigiar e controlar – em especial, crianças, adolescentes jovens – para que não conversem, que façam silêncio, que sejam 'comportados' e, sobretudo, que não pensem por si próprios.

Ora, reduzir Educação à educação escolar é participar de um jogo perverso. É não perceber que os sistemas de ensino – longe de estarem ocupados com o que dizem estar e mais distantes ainda do que a maioria das pessoas imagina e acredita – atendem a interesses de apenas um grupo social. É não entender que a educação escolar – independemente desse ou daquele governo, ou dessa ou daquela pedagogia, ou desse professor e daquela professora – forma pessoas adequadas a um único modo de viver que, assim como a vida, não deve ser questionado. É não compreender que a escola atual – qualquer que seja sua orientação ideológica – tem compromisso não com a formação de indivíduos, mas de técnicos seguidores de manuais preparados por 'especialistas' tão controlados quanto eles. Ilusão pensar que a educação escolar forma cidadãos!

Ora, ora, sem filosofia, isto é, sem exercício racional e crítico sobre a vida e os modos de viver, não há Educação.

 
Em tempo


Penso que é importante fazermos essa distinção entre Educação e educação escolar. Compreendê-la pode alterar significativamente o modo lidamos conosco mesmos e com os jovens, em especial os que nos são mais próximos. O que nos faz acreditar que um mesmo tipo de educação seja indicado e válido para todos e cada um de nós? Quem disse que a educação escolar é a redentora da sociedade? O que significa afirmar que, em nosso contexto, somente a 'educação' pode levar o país ao desenvolvimento?

Sei o quanto é chato constatar que a educação escolar não tem o menor compromisso com o desenvolvimento individual das pessoas, embora sejam muitos os professores e as professoras que, inadvertidamente, afirmem ser essa sua intenção. Pior ainda é constatar que as escolas, incluindo recursos materiais e humanos pagos com dinheiro da população, servem apenas para manter e dar sustentação aos interesses de um grupo social.

Contudo, se ainda não nos demos conta disso, e nem sabemos como alterar esse quadro, sei também que são reais as possibilidades que, juntos, retomarmos o princípio da skholé enquanto espaço de conversa. Desde que não façamos o jogo perverso da pedagogia tecnicista, que ensina fazer coisas mas não pensar sobre elas, tanto a casa como a escola podem, se quisermos, ser espaços de conversação sobre a vida e os modos de viver. Mais: de fazer filosofia porque, sem ela, não há Educação.

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